Conforme-se, Abigail. Digite alguns
números na urna. Certifique-se que o rosto sorridente na tela corresponde ao
número digitado. Pressione a tecla “confirma” e vá para casa assistir o
Faustão. Amanhã trabalhará satisfeita por ter participado de mais uma festa
patriótica.
Mas e pós-eleição, Abigail? Que
meios você dispõe para garantir que o candidato sorridente cumprirá o
prometido? Você terá acesso ao deputado eleito? O deputado, eleito, ainda vai sorrir para você?
Eleição após eleição, mandato após
mandato, você perceberá que candidato é candidato, deputado é deputado e você é
você.
Conclui que, ao escolher, você não
escolhe. Conclui que tem cada vez farinha no mesmo saco. Conclui que não
conclui mais nada e que já passou a hora de
chutar o balde.
Vem pra Rua
Se a revolta individual coincide
com a revolta coletiva, você se une a tantas outras Abigails e sai aos berros
pelas ruas. Sacode a poeira, estende faixas, agita bandeiras, repete suas palavas de ordem.
Mas o pouco que será dito não será
ouvido. O poder está com as orelhas entupidas de arrogância e notas de
100. E ainda vai lhe descer o porrete por reclamar de barriga cheia.
Aos poucos você entenderá que
palavras de ordem e faixas de protesto não podem resumir o sentimento real -
aquela revolta represada, a sensação da constante presença de um opressor
invisível.
E você verá as ruas começarem a se
esvaziar de idéias para novamente se entupirem de sacolas de compras.
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| Boxed - Kirsten Green |
10% de Democracia
A Democracia foi inventada na
Grécia antiga, mas, feitas bem as contas, concluiremos que apenas dez por cento
dos gregos eram realmente beneficiados pelo sistema.
A cidadania democrática alcançava
apenas filhos homens de atenienses maiores de 21 anos. Estrangeiros,
escravos e mulheres não participavam da vida política.
Cada época com seus marginalizados
do poder, mas a democracia dos dez por cento se perpetua. Escravos tornaram-se bancários, tornaram-se vendedores, engenheiros, médicos e catadores de papelão.
Agora certas regalias
lhe são permitidas. Já não é produtivo que se mantenha Abigail dezoito horas
por dia no trabalho. É conveniente que ela supra suas necessidades básicas
(quando possível, se não onerar a empresa).
Para alguns, as velhas necessidades
de água, pão e moradia já foram supridas. A esses se estimula o acesso a algum
luxo. Vende-se um arremedo de glamour do poder, garante-se o lubrificante da
máquina de supérfluos e futilidades.
Porque somente assim o mundo continuará a girar,
a sacudir e regurgitar.
Então o grupo bem alimentado de
escravos é apresentado às suas mais novas necessidades.
Que se estimulem a vaidade e a
competição!
É necessário ser mais
bonito do que o vizinho!
É necessário
ser o mais forte, o mais rico, o mais veloz, o mais hi-tech!
E o grupo de escravos adestrados
congestiona as escadas rolantes do shopping center, as agências de viagem, as
clínicas de cirurgia plástica e o 48º salão de tecnologia do ano.
Exultam os senhores do consumo,
aperfeiçoam-se os tapa-buracos de nossa auto-estima.
Para quem?
Ninguém realmente escolheu viver
assim, não nos deram escolha. Nunca houve democracia. Nem no país de Abigail
nem no país de Abraham Lincoln, que assim a definiu: “Governo do
povo, pelo povo e paro o povo".
O cidadão americano está tão
distante do poder quanto o afegão e o dinamarquês. Porque tudo começa, não na Dinamarca, mas
nas carteiras das salas de aula, onde aprendemos aquela frase de Lincoln.
O professor repete um discurso que
aprendeu de outro professor, que aprendeu de outro professor que aprendeu de
outro professor que aprendeu com uma tia do Maranhão.
O discurso tem apenas um objetivo:
descrever a estabelecida realidade social como única realidade possível.
Agora mesmo, em alguma sala de
aula, a pobre e sonolenta cabecinha de uma Abigail qualquer assimila uma
realidade estática. A organização social é dita imutável, encaixada na ordem
natural das coisas. E quem é que vai contestar a natureza?
A pobre cabecinha na sala de aula
não questiona se professor e cartilha falam a verdade. Abigail foi mandada à
escola para aprender e ela aprende. Aquela gente e aqueles livros devem saber
do que estão falando.
Quando a cartilha mostra o operário
voltando para casa ao final dia, cansado, suado e feliz, só resta acreditar que
o mundo está perfeito do jeitinho que está.
É a natureza das coisas
A cabecinha de Abigail leva pela
vida a ideia de que é natural que o pai trabalhe 10 horas para fabricar uma
cadeira. É natural que essa cadeira seja vendida pelo mesmo valor do salário
mensal do pai. É natural que ele não conheça os
planos da empresa. É natural que não saiba se a empresa vai fechar as portas
amanhã, se vai continuar a produzir aquelas cadeiras tão especiais que valem
mais do que um homem.
Você aprendeu, pobre Abigail, assim
é a tal democracia. É assim que é. Só assim pode ser.
Agora, pense bem, Abigail (não que
você não tenha pensado, mas repense): pensar
não é possível.
Pensamos que pensamos o que
pensamos, mas pensamos o que nos ensinaram a pensar.
Porque alardeando essas tais
democracias, o poder retirou sua
liberdade de pensamento. A minha também, não se preocupe.

Armas sutis
O poder há muito percebeu que o
cultivo de pensamentos padrões seria mais eficiente para a manutenção dessas
águas estagnadas do que o uso da força bruta (alternativa hoje reservada ao
plano B).
O método é infalível. Basta
entortar o galho ainda tenro para que a realidade vigente se torne a única
realidade possível. A árvore, já frondosa, vai se encarregar de passar à frente
os frutos do pensamento padrão.
Atravessamos os milênios, eu, você
e a humanidade, mas continuamos a anos-luz de distância de qualquer vestígio de
democracia. Que se dirá de uma sociedade perfeita baseada na
solidariedade, com o objetivo de bem comum, guiada pela bom senso?
Está tudo errado, Abigail, e o
jeito de dizer é um só: está tudo errado.
A democracia dos dez por cento se
perpetua. E eles continuam a afirmar que todos vivemos sob a divina luz da liberdade.
Santos de casa
Nos últimos tempos, aqui, no nosso
pequeno grande Brasil, também resolveram nos dar a chance de escolher entre
aqueles que escolherão por nós.
Você os conhece, Abigail. Ou pensa
que os conhece. Dê uma olhada no cardápio:
Temos a candidata da situação, que
pertence a um partido que tinha por origem a contestação da ordem então
estabelecida. O partido trocou ideologia por poder, rendeu-se a conluios e
estabeleceu-se na velha ordem. Maquiavel bateria palmas.
Temos a candidata que saiu do
partido da situação porque estava à esquerda do partido da situação e foi parar
à direita do partido da situação. Aprendeu com as origens e foi mais ágil. Não
esperou muito para se associar aos ratos. Mas fala umas palavras bonitas que
só.
O terceiro mais cotado surge como dublê de playboy e herói da mídia. Seu discurso moralizante não convence. Convém pesquisar sobre a associação com o tráfico de drogas - acusação que permeia sua carreira política. O partido é conhecido e provado (eu disse provado, Abigail, não aprovado).
Arrocho salarial e preços congelados no pico. Não acredito que você queira repetir
a dose de recessão. Você não gostaria de assistir, mais uma vez, a empáfia dos
tecnocratas.
O candidato verde propõe discussões
polêmicas, tais como legalização da maconha e do aborto. O seu leque de
coligações nos estados abre-se da esquerda para a direita numa maçaroca de
não-ideologias. Cenário perfeito para que qualquer discussão se esvaia.
Temos a candidata que diz a
“verdade” (ou a verdade mais óbvia). Essa, para os românticos, a possibilidade
de um discurso mais revolucionário. Para os desiludidos, mais do mesmo (já
viram esse filme representado pela candidata da situação.)
Fúria Cidadã
O cardápio se estende, Abigail, mas
no fundo nada disso importa. As manifestações de junho de 2013 não foram
compreendidas (provavelmente nem mesmo pelos participantes).
Ou será, Abigail, que você saberia explicar
aquela luz seguida de fúria que às vezes vem dos subterrâneos do seu
pensamento, do seu pré-pensamento, com origem naqueles poucos anos de liberdade
que você viveu antes de ser adestrada?
É quando você sente que algo se
rompe. Você tem um insight. Você quase se lembra de quem você é. Quase
compreende que não está na Terra para se ajoelhar para os que da Terra se
apossaram.
Então, semi-consciente do estado de
adestramento, você quase compreende e resolve expressar: está tudo errado.
Você sai às ruas. E grita. E se
anima. Quebra a porta de um banco, apanha por destruir o patrimônio sagrado do
poder.
Você faz planos. Vai organizar
greves, inflamar-se sobre a mesa do escritório, puxar a gravata do chefe e
dizer, bem de perto, que está partindo para mudar o mundo.
Mas é impossível mudar qualquer
coisa quando não sabemos que coisa é essa que queremos mudar.
O que você quer afinal?
Afinal, Abigail, quais são mesmo
suas solicitações?
Quer que sua voz tenha a força da
voz do presidente, do chefe, do banqueiro, do jornalista, do Pavarotti?
Quer discutir, em iguais condições,
a perversa distribuição de renda no país (ou no mundo)?
Quer que um salário máximo seja
estipulado?
Quer trabalhar no que quiser,
quando quiser e se quiser?
Quer discutir preços com o dono do
supermercado, juros com o banqueiro, futebol com o Pelé?
Você quer muito, Abigail, mas nem
sabe o que poderia querer. Porque a revolta se mostra difusa, vem em lampejos e
imprecisões.
Como pode você expressar, não o
pensamento, mas a intuição que se origina no seu pré-adestramento?
Lá, onde
muitas realidades estavam abertas e latentes.
Lá, onde uma vaca podia ser
verde, o pai era o homem mais poderoso do mundo e a vida era um emaranhado de
possibilidades.
Depois disseram que não. Que uma
vaca verde ficaria ridícula, e que seu pai não era o homem mais poderoso do
mundo. Ele apenas fabricava as cadeiras para as bundas do poder.
Disseram que é natural que um homem
doe trinta, quarenta anos de sua vida para que outro colha o fruto de seu
trabalho.
Disseram que nada pode ser mudado,
disseram que a vida é questão de aceitação.
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| Pawel Kuczynski |
Vacas verdinhas
Querida Abigail, a vaca só não é verde porque ninguém a
pintou assim.
Certamente, para você, seu pai ainda é o homem mais poderoso do
mundo.
Por isso, sem sugestão melhor a fazer, venho convidá-los,
você e seu pai, a transformarmos juntos esta realidade.
Livremo-nos, os três, da coleira do adestrador e das ilusões
do empório de futilidades. Saiamos por aí, em busca de realidades esquecidas.
Munidos de aquarelas e lápis de
cor, ousadias e esperanças, em pé sobre a cadeira dos poderosos, pintaremos de verde as vacas deste
mundo.