Impressões, quase-verdades, quase-mentiras, indignações, denúncias, algum afeto, considerações punk-sentimentalóides, excessos e aquéns. Todas as inutilidades que o desengonçado precisa menos grana e sossego. Leia um texto e leve grátis o direito de ler o blog inteiro.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Além dos Muros da Prisão
"Vejo pouca diferença entre o mundo interno das prisões e o mundo exterior. Um milhão de muros não podem nos proteger, porque os perigos reais - o militarismo, a cobiça, a desigualdade econômica, o fascismo, a brutalidade policial - são encontrados fora, não dentro, dos muros da prisão."
Philip Berrigan
A Quem Pertence Isso Tudo?
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| Foto - Blog do Sereno |
"O primeiro homem que, depois de ter fechado um pedaço de terra, pensou em dizer 'Isso é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.
Quantos crimes, guerras, assassinatos, quanta miséria e horror a raça humana teria poupado se alguém tivesse arrancado as estacas e preenchido o buraco para gritar aos seus companheiros: 'Acautelai-vos de escutar esse impostor. Você estará perdido se esquecer que os frutos da Terra pertencem a todos e que a própria Terra não pertence a ninguém!'"
Jean-Jacques Rousseau
Geringonças Visíveis
Agora querem nos convencer de que somos apenas máquinas biológicas. Não mais do que um amontoado de moléculas e estupidez.
Na voz dos cientistas (e outros desatentos), este corpo do
qual sou habitante é meu hardware. Afirmam
que, para comandar o humor deste emaranhado de carne, osso e nervos, dependemos
da matemática dos elementos químicos.
Segundo aqueles sujeitos, se meu cérebro (disco rígido desta geringonça visível) estiver faminto
por serotonina, não realizará suas sinapses de acordo com o programado. Ele me
dirá para me esconder sob quatro cobertores, e só sair em caso de novo dilúvio.
Mas quando o hard disk for saciado, ele me fará pular todos os carnavais
de Recife e Salvador. Na Quarta Feira de Cinzas
me levará para Ibiza, na quinta para o hospital.
Esses materialistas de microscópio proclamam a verdade naquilo que podem ver, pensam que está no visível a causa da angústia, da alegria, do
medo, do barulho no motor.
Mas, se entrarmos em guerra contra os cientistas levando lógica e matemática como armamento, a derrota tende a ser vergonhosa.
Como então convencê-los que é no visível que o invisível pode ter nariz, bocas, orelhas de abano, e outras coisas de sentir e aprender?
Não com prosa, por certo. Que tal com cantigas?
Como então convencê-los que é no visível que o invisível pode ter nariz, bocas, orelhas de abano, e outras coisas de sentir e aprender?
Não com prosa, por certo. Que tal com cantigas?
(Dica aos cientistas: quanto mais rápido conseguir ler, mais rápido vai compreender.)
O Carpinteiro Hipotético
Que do corpo quis apetrecho
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Já vai fazer entender
Que entender o invisível
Somente será possível
Se você desentender
A cantilena da alma,
Que pra depressa aprender recita
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Vai te trazer a calma
Porque esta chama, maldita,
Talha, estala, crepita
Bem dita te faz arder
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Se aos esses dessas espinhas
Não sucedem desassossegos
Não sucedem desassossegos
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver
Só aceite o Ser sensível
Sutililizar o visível,
Seu cientista sem saber
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Andantes
Se é você quem rasura
Palavras de corpo inteiro
Se é você quem procura
Cigarras no formigueiro
Venha ser escudeiro
De um homem e uma ternura
Ou seja de vez cavaleiro
Aquele, da triste figura
Palavras de corpo inteiro
Se é você quem procura
Cigarras no formigueiro
Venha ser escudeiro
De um homem e uma ternura
Ou seja de vez cavaleiro
Aquele, da triste figura
O Passado em Sombras
Seguindo os destinos da sombra
nestas ruas sem saída,
passado e homem se encontram
para refazer a vida
para refazer a vida
A alma, de malas prontas,
tem por nome Urgência:
“Se já acertaram as contas,
tem por nome Urgência:
“Se já acertaram as contas,
que tal tomar providências?”
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Valentim se despede de Deus
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| Picture by Richard Baxter |
O lampião de gás estilhaça a janela.
O lúmen da desesperança fulgura na noite e expulsa os santos imaginários de Valentim.
Lampião.
Um palmo de amebas.
Em chamas.
Na grama.
No duro chão.
Valentim nem diz amém. Ergue-se e esfrega, esfrega, esfrega os joelhos. Grama rala. Pouca chuva nestas primeiras noites de verão.
Culpa de São Pedro?
Dos santos?
Que São.
Que sejam.
Essa foi a última vez de joelhos.
E de coceira.
Amém.
Que sejam assim.
Todos Vocês.
E de coceira.
Amém.
Que sejam assim.
Todos Vocês.
As pequenas mãos, antes crispadas no derradeiro fervor, entregam-se à inércia do entorpecimento.
Os gritos dos adultos, lá dentro da casa, cessaram.
Valentim mergulha no lago fundo de seu coração menino. Desimportante. É tão imenso o mundo.
Animais noturnos, seus sibilares e grunhidos, e coaxares, e aqueles sons deles mesmos.
Pior é o silêncio da mata. Valentim olha para o céu. Por entre os galhos da figueira centenária, estrelas acenam - são crianças, e querem nascer.
Nascer para quê?
Formigamentos na fronte – quanto tempo a fronte amparada pelo áspero do caule?
O vulto do irmão mais velho aparece na janela. Emoldurado pelos caixilhos, sem a vidraça que ele mesmo quebrara, o irmão assiste a ultima insignificância de luz, os restos do lampião que se findam no pátio de terra dura.
Valentim vê o irmão dar as costas à janela e reaparecer no estreito caminho de pedra na lateral da casa.
Uma fresta se abre no coração de Valentim. Por ali uma esperança débil ameaça se infiltrar. Nem todos ignoram a criança que havia se ajoelhado pela última vez.
O irmão vem, abaixa-se sobre os restos do lampião. Com cautela e dois gravetos, ergue o ainda ardente receptáculo de gás. O rosto duro acende-se por dois segundos.
No peito de Valentim, um ínfimo de calor familiar, a promessa de adulta proteção.
Braços como apêndices frouxos ao longo do corpo, Valentim espera.
O irmão larga gravetos e lampião. Ergue-se. Encara Valentim.
O irmão larga gravetos e lampião. Ergue-se. Encara Valentim.
Então, num desprezo de movimentos, chuta o que restava da coisa incandescente. Uma risca de chamas crepita num átimo e definha, sem suspiro, lá junto à cerca de bambus.
Valentim vê o irmão mais velho voltar pelo caminho de pedra, vê o irmão desaparecer entre os umbrais da velha porta de madeira.
Valentim vê o irmão mais velho voltar pelo caminho de pedra, vê o irmão desaparecer entre os umbrais da velha porta de madeira.
Em seguida vê a mãe perguntar, irônica e amarga:
- Pensou que dava pra consertar?
- Nada mais tem conserto – responde o irmão.
O mundo de Valentim volta a se reduzir a trevas íntimas. O último esguio lapso da esperança serpenteia entre entidades e cacos. As preces morrem nas sombras e os deuses definham um a um. Como o lampião, junto à cerca.
- Pensou que dava pra consertar?
- Nada mais tem conserto – responde o irmão.
O mundo de Valentim volta a se reduzir a trevas íntimas. O último esguio lapso da esperança serpenteia entre entidades e cacos. As preces morrem nas sombras e os deuses definham um a um. Como o lampião, junto à cerca.
Sem deuses e lampiões, anoitece de vez nos estábulos vazios, anoitece nos mortos arrozais, também no córrego de águas serenas, também no caminho de pitangas, até no buraco do estômago.
E anoitece de vez no que restava das súplicas.
Nenhum mistério, ninguém mais a quem recorrer.
Gente e seus tantos santos para um único Deus.
E Deus não existe.
No negrume, Valentim. No negrume, Valentim, desilusão e alívio.
Ali, no lugar antes pertencente a Javé, a noite se fendeu. Para abrigar as contas de um rosário, os reinos do Pai Nosso, as graças da Virgem e a proteção dos anjos, enfia-se tudo ali, naquela fenda propícia da escuridão.
Na banda mais anoitecida daquelas trevas, exorciza-se o peso da esperança, rasgam-se evangelhos, quebram-se crucifixos e promessas.
Ali, na clareira sob a figueira, morrem aqueles enganos todos clamados por Valentim desde que o ensinaram a rezar.
Nunca mais missas de domingo, nunca mais proteções adultas, nunca mais medos compartilhados.
Porque agora, só no pequeno mundo, ele se bastará.
É só aguentar no osso do peito. Pernas embaixo, no alto uma cabeça - o bastante para caminhar.
Seis anos de idade, olhos lavados e livres, Valentim escolhe a solidão.
Um pouco mais sobre Deus:
domingo, 6 de outubro de 2013
Pequena Tragédia Punk
Terceiro científico,
Prova de OSPB
Eu tirei um cinco
E dediquei a você
O namorado de gravata
O namorado de gravata
E sapato de verniz
Me agradeceu com classe
E um soco no nariz
Cresce cabelo moicano
Cresce cabelo moicano
Menina agora é mulher
Lá se vão mais de dez anos
E você me ainda quer
A história se repete
Lá se vão mais de dez anos
E você me ainda quer
A história se repete
Mas agora ninguém vê
O marido com as flores
Eu na orquídea do buquê
O início do princípio
O início do princípio
Intróito da introdução
Eu só senti o tiro
E aquele gosto de chão
Rua Estampido Seco
Rua Estampido Seco
Bairro Praça da Sé
No escuro deste beco,
Jaz aqui mais um José
Em madeira de carvalho,
Revestida de veludo,
Descanso em meu armário
De coturno, chifre e tudo
Não tenho prece nem vela
Não tenho prece nem vela
Nem pranto de puxa-saco
Tenho é trinta amigos punks
Pra cuspir neste buraco
Entre caras de enfado
Entre caras de enfado
E fotos de Polaroid
Eis-me aqui emoldurado
Só curtindo meu I-pod
Homem Pássaro
- Homem é rascunho de pássaro – disse Manoel
- Não terminaram de
inventar.
Sendo ele o poeta
E sendo eu o vulgar
Pensei que estava certa
Aquela forma de pensar
O tempo passa, a gente muda
Aterrissa em outro lar
Se de Boeing, cogumelo,
Prosa de Carpinejar,
O vôo se ilustra em lótus
Nos céus de assim meditar
Ah, esses tolos se soubessem
Que o segredo é respirar,
Não fariam preces
Pro que está em outro lugar
Tadinhos daqueles pássaros,
Tantas asas pra voar!
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