sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Início de Todo o Mal

Picture by Mordecai Moreh



"Quando a pessoa não sabe que não vê,

não sabe que é cega."
- Paul Veyne


- Esse caos é culpa da humanidade, você sabe.

- Que humanidade?

- Ué! A humanidade. Eu, você, sua mãe, sua vizinha, a Mara Maravilha, o Agnaldo Timóteo... Todo mundo.

- A Mara Maravilha é culpada pelo caos?

- Tem a parcelinha dela. Estamos todos juntos, empenhados nessa força-tarefa para explorar uns aos outros, invejar uns aos outros e matar uns aos outros.

- E não podemos sair dessa furada?

- Impossível. Está nos nossos genes. A humanidade precisa cumprir o seu destino.

- O destino da autodestruição?

- Esse mesmo. Trazemos a semente do mal.

- Ismael não pensa como você.

- Que Ismael?

- O gorila.

- O go...

- ...rila.

- Esse gorila pensa? E pensa diferente de mim?

- Bem diferente. Ismael adquiriu consciência de si mesmo, observou os homens, aprendeu a se comunicar por telepatia, teve acessos a livros, tornou-se um pensador.

- E você já falou com esse sábio macaco?

- Não. Mas eu li o que ele disse ao aluno.

- O gorila tem alunos?

- Um aluno.
 Um cara que seguiu o seguinte anúncio de jornal: “Professor procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo”.

- E onde está esse aluno?

- Está no livro Ismael – Um Romance da Condição Humana, de Daniel Quinn.

- Ah, um romance...

- Um romance bem elucidativo. Quando o aluno entra na sala de aula, por exemplo, ele encontra esta frase na parede: “Com o fim do homem, haverá esperança para o gorila?”

- Você acha isso elucidativo?

- É um koan.

- Ah, um koan.

- Koan é uma frase intencionalmente inexplicável.

- Obrigado.

- A esperança do gorila estaria na sobrevivência ou na extinção do homem? Ambas as interpretações são possíveis.

- Sei. Mas você disse que o gorila discorda de mim.

- Totalmente. Principalmente nesse negócio de humanidade. Quem faz parte dela? Você acha que os indígenas ainda não civilizados da Amazônia fazem parte da humanidade?

- Ãn... Sim.

- E os povos de Papua Ocidental? Pertencem à humanidade?

- É provável.

- E os sentineleses das Ilhas Andaman?

- Também. Penso eu.

- Então os não civilizados também fazem parte da humanidade?

- Suponho que sim. São homens, não são?

- São homens, mulheres, crianças...

- Onde você quer chegar?

- Na sua opinião, aqueles homens, mulheres e crianças que vivem longe da civilização trazem a semente do mal?

- Não estou bem certo.

- Ismael diz que nenhum homem tem a semente do mal, que não existe o gene da autodestruição. Diz que tudo começou com a maçã.

- Que maçã? Da Eva?

- Essa mesmo. O que diz a Bíblia a respeito do pecado original?

- Que Deus criou Adão e Eva, que os dois foram colocados num belo jardim, cheinho de verduras, legumes e árvores frutíferas.

- Eles podiam comer de tudo?

- Tudinho. Apenas uma árvore era proibida — a árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau.

- Mas, como tinham livre arbítrio, Adão e Eva foram lá e...

- Nhack! Comeram a maçãzinha.

- Comeram a maçãzinha. Para Ismael, a agricultura está representada naquela maçã. A agricultura está na raiz de todo o mal.

- Esse macaco é meio pirado.

- Será? Há quanto tempo começamos a praticar o tipo de agricultura de hoje, extensiva, com produção em longa escala?

- Tenho a impressão que o início foi há alguns milhares de anos.

- Podemos concordar em dez mil anos?

- Está bom pra mim.

- Há quanto tempo o homem existe na face da Terra?

- Há mais de três milhões, pelo que se sabe.

- Então o homem só tem plantado alimentos nos últimos 10.000 anos em 3.000.000 de anos de existência?

- Prestando atenção nos zeros, é pouco, né?

- Quase nada. E o que as pessoas faziam antes da agricultura?

- Coletavam frutos, legumes e verduras. E caçavam.

- Será que aquele modo de vida funcionava bem?

- Parece ter funcionado perfeitamente durante três milhões de anos.

- E é bastante provável que aquelas pessoas já conhecessem a possibilidade de plantar alimentos. Não é razoável pensar que ninguém houvesse percebido um grão germinar ou uma batata brotar.

- Tem razão.

- Durante três milhões de anos, as pessoas viam que feijões germinavam e que batatas brotavam, mas não consideraram necessário plantar. Até que, um belo dia, há apenas dez mil anos, alguém decidiu: “vou plantar essas batatinhas aqui, feijões lá...”

- Sempre tem um corno...

- O que o corno... O que o cara fez quando decidiu plantar as batatinhas?

- Enfiou na terra, por certo.

- Simbolicamente falando, quero dizer. O que ele fez?

- Me deixa pensar...

- Sim, pense um pouco. Vai fazer bem pra você.

- Plantando a batata o homem deixou de depender dos humores da natureza?

- Tomou posse da Terra. Ao plantar a primeira batata ou o primeiro grão de feijão, aquele sujeito comeu da árvore do conhecimento, assumiu a função de modificador da natureza, surrupiou o papel de Deus.

- Mas o cara estava colaborando com a natureza, não estava? Enfiava alguns feijões na terra e eles se multiplicavam.

- Colaborando com a natureza? Como? Quando começamos a praticar a agricultura extensiva (ou agricultura totalitária, como prefere Ismael) deixamos de seguir as leis mais elementares da natureza, deixamos de seguir as leis que todos os outros seres deste planeta sempre seguiram.

- E o que diz nessa sua Constituição da Natureza?

- Diz que você pode comer tudo o que Terra der, mas não tem o direito de impedir o acesso de outros seres ao alimento. A agricultura totalitária ceifa a fonte de alimentação de aves, insetos e outros animais, acaba com ecossistemas e não permite que não humanos se alimentem de suas batatas e feijões.

- Entendi. Primeiro, espantalhos para espantar as aves. Depois agrotóxicos, inseticidas...

- Além de acabar com outra característica da natureza – a diversidade. Essas vastas extensões de terra com predomínio de apenas um tipo de vegetação (feijão, batata, mandioca, cana-de-açúcar) atenta contra o equilíbrio natural do planeta.

- Não é de espantar que centenas de espécies sejam extintas todos os dias.

- Sim, algumas por nossa ação direta e premeditada.

- Bom, não é apenas o homem que mata...

- Claro que não. A morte é parte do ciclo natural. Mas nenhum outro animal deseja exterminar uma espécie. O leão sai de casa, investe contra os veados do campo, abocanha um infeliz e deixa que os outros fiquem pastando em paz. Não vai nem levar um veadinho para o lanche da tarde.

- Quanto maior o número de veados, melhor para o leão.

- Claro, mas ele não impede que o tigre se alimente da mesma carne tenra. Sem falar que nenhum animal escraviza o outro como fazemos.

- Bom, essa lei nós seguimos. A lei do mais forte.

- Embora essa seja a única lei da natureza lembrada pelos que defendem o nosso modelo de agricultura e pecuária, não existe a lei do mais forte. Existe a lei do mais adaptável. Nós não nos adaptamos, nós resolvemos adaptar o ambiente a nosso bel-prazer.

- Parece que era inevitável. Foi o caminho que a humanidade resolveu seguir.

- A humanidade resolveu seguir? Estamos na quinta página e você ainda não entendeu? Nós não somos a humanidade. Não foi a humanidade que seguiu esse caminho.

- Quem foi? As baleias?

- O caminho percorrido pela humanidade durante três milhões de anos era outro.

- Já sei. Todo mundo coletava e caçava.

- Sim. Mas não foi a humanidade que decidiu plantar.

- Nem as baleias.

- Nem as baleias. Foram uns caras ali pelas margens do Nilo. Uns gatos pingados. O resto da humanidade continuou a fazer o que sempre fez e faz até hoje.

- O resto da humanidade encolheu, né?

- O resto da humanidade seria bem maior se aqueles poucos gatos pingados não tivessem se multiplicado e imposto sua forma de vida. Nós somos descendentes daqueles gatos pingados que representam uma fuga da rota da humanidade. Nós não somos a humanidade, apenas crescemos demais.

- E por que crescemos tanto?

- Porque, por mais que violemos as leis naturais, ainda estamos presos a determinadas condições da natureza. Uma dessas condições diz que a população aumenta na proporção da oferta de alimento. A agricultura produz excesso de alimento, a população que recebe esse excesso cresce. É inevitável e acontece entre todas as espécies.

- Então nós somos as ovelhas negras que deram certo?

- Deram certo? Onde? Não é possível que a civilização criada pela agricultura dê certo. O motivo é simples: não sabemos qual é o certo.

- Sabíamos antes?

- Durante três milhões de anos, sabíamos. Já tínhamos errado e acertado o suficiente para saber exatamente o que era certo.

- Você quer dizer que o mundo civilizado tem apenas alguns milhares de anos de erros e acertos. Pouco tempo para aprender. Devo concordar que a diferença de carga horária é brutal.

- Além disso, é impossível aprender num mundo mutante. Nossa realidade se altera o tempo inteiro e vivemos expostos a novidades que nos obrigam a nos adaptar, a acertar sem ensaio ou treinamento prévio.

- E para o homem não civilizado? O que é o certo para ele?

- O certo é o que sempre foi certo. O certo é o que vale para todos os seres da Terra: caminhar conforme a lei dos deuses.

- Dos deuses?

- Dos deuses. Para todos os povos não civilizados que existiram, e para todos que ainda resistem nos confins do planeta, basta seguir a lei dos deuses. A lei dos deuses não é outra senão a lei da natureza.

- Saímos da Bíblia, então?

- Da Bíblia e de todas as religiões reveladas: cristianismo, hinduísmo, budismo, islamismo, judaísmo etc. O culto aos deuses, o animismo, é e sempre foi a única religião universal. Da Amazônia a Papua.

- O animismo diz que tudo tem uma alma, não é?

- Tudo. A árvore, o peixe, a água, as formações topográficas, tudo tem alma, inclusive objetos.

- Não é de espantar que esses povos vivam assustados. Com tanta alma por aí.

- Eles não vivem assustados. O que eles demonstram é uma permanente atitude de respeito com tudo que os cerca. Eles respeitam a árvore, a água e o peixe. Eles acreditam que há vida ali. Ninguém precisou ensinar, ninguém desceu dos céus para revelar. Eles sabem há milhões de anos. Basta respeitar a vida, seguir a lei dos deuses e tudo vai ficar bem.

- Mas é uma vida meio difícil, não é? Depender apenas da natureza para ter o que comer.

- Você acha? Ismael prevê essa inevitável pergunta e imagina um diálogo entre um missionário que chega ao Brasil e um nativo.

- Como é isso, esse diálogo?

- O missionário tenta convencer o nativo das vantagens da agricultura. Em determinado momento, o missionário pergunta o que o nativo faria se estivesse com desejo de comer mandioca fora da época da mandioca.

- Boa pergunta. Essa é uma vantagem que nós temos. Podemos comer mandioca o ano inteiro. Basta abrir uma lata. O que o brasileirinho responde?

- Responde que quando não tem mandioca, ele come batata. Responde que loucura é a do homem civilizado que planta a mandioca, cuida da plantação da mandioca, colhe a mandioca, transporta a mandioca para a indústria, descasca e corta a mandioca, fabrica e transporta a lata para enlatar a mandioca, enlata a mandioca, transporta a mandioca enlatada para o supermercado, compra a mandioca enlatada, transporta a mandioca enlatada para casa, abre a lata, come a mandioca, transposta a lata para o lixo ou para a reciclagem...

- É suficiente. Já posso imaginar o destino dessa lata também.

- Você não concorda que é trabalho demais apenas para que alguém possa comer mandioca quando lhe der na telha?

- É verdade. Vá gostar de mandioca... Que trabalheira.

- Sim. Essa foi outra das consequências da agricultura totalitária. Nenhuma outra cultura da história trabalhou ou trabalha tanto quanto a nossa. As culturas que seguem a lei dos deuses trabalham apenas duas ou três horas por dia para caçar ou coletar.

- Duas ou três horas? Que maravilha!

- A agricultura criou o mito trabalho. A agricultura nos fez acreditar que não existe vida sem trabalho, que o trabalho enobrece o homem, que o ócio é condenável.

- “Ganharás o pão com o suor do teu rosto.”

- Faz sentido, não é? Depois do pecado original, o homem precisa se exaurir para manter o próprio sustento.

- O sustento que, segundo o seu gorila, ele teria de graça trabalhando duas ou três horas por dia.

- Está vendo? Você percebe a enrascada que entramos quando resolvemos nos afastar da linha evolutiva que todas as outras culturas seguiam, quando resolvemos esquecer tudo o que sabíamos durante três milhões de anos? Você percebe que, apesar desse esquecimento, ainda nos consideramos mais inteligentes que os povos que mantém o conhecimento vivo?

- Você está querendo dizer que não somos especiais ou mais inteligentes do que os homens do neolítico?

- É isso mesmo o que eu quero dizer. O cérebro humano de hoje não difere do cérebro humano de dez mil anos atrás. Esse período de tempo é insignificante na linha da evolução humana. Não somos mais inteligentes, não somos a humanidade. Nós, pessoas do mundo civilizado, somos apenas aquela parte da humanidade que se jogou nesta aventura irresponsável, somos aqueles que submetem outras espécies e culturas, somos aqueles que tentam moldar o mundo ao nosso modo de vida.

- Com bandeirantes, missionários, fazendeiros...

- Sim. Para nós, nossos deuses de dez mil anos são mais verdadeiros do que deuses de três milhões de anos. Os nossos mitos aprendidos são mais plausíveis do que os mitos nascidos da experiência com a natureza, nascidos da capacidade de sentir os elementos por estar em comunhão com eles, dos mitos que não pedem explicação nem revelações, dos mitos que requerem apenas sensibilidade.

- Agora você está falando como um animista de verdade.

- Não. Estou falando que, à luz da racionalidade, poucos mitos se mantêm. Mitos cristãos, hindus ou muçulmanos não satisfazem mais à razão do que um deus da chuva ou do fogo. A diferença é que o deus da chuva existe há milhões de anos, enquanto os deuses pós-agricultura, tanto no Oriente quanto no Ocidente, são recém-nascidos, coisa de alguns milhares de anos de idade. E esses novos deuses não são fruto de inteligências mais evoluídas, mas de inteligências que criaram seus deuses de acordo com seus próprios costumes.

- Começo a entender o seu macaco.

- Nós não somos a humanidade, a humanidade não tem a semente do mal, apenas um galhinho dessa árvore frondosa se desviou.

- Nós, infelizmente.

- Sim, nós. Compreende que nada disso precisava ter acontecido? Que estamos neste caos porque um dia, depois de três milhões de anos de harmonia, alguém achou que seria uma boa ideia dar uma mexidinha no mundo?

- O início de todo o mal.

- O início de todo o mal. Com o advento da agricultura, a posse da terra começa a ser disputada, as fronteiras se erguem, aldeias são construídas, depois cidades e países. A força da ambição passa a predominar, as diferenças sociais começam a se estabelecer, os donos da produção mantêm estoques de alimentos enquanto pessoas morrem de fome. Poluem-se os mares, os rios e o subsolo, florestas são abatidas, espécies exterminadas, a guerra por territórios se inicia. Hoje já não é possível caminhar sobre a Terra se você não possuir os documentos e motivos certos. Criamos um monstro e estamos sendo consumidos em suas entranhas.

- Tudo por causa daquele corno.

- Entende agora que nós não somos a humanidade? Que o homem não tem a semente do mal, o gene da autodestruição, e que tudo isso aconteceu quase por acaso, pela iniciativa de poucos aventureiros?

- Sim, nós não somos a humanidade. Seria muita arrogância pensar assim.

- E as religiões apenas contribuem para essa arrogância. As religiões afirmam que a humanidade é imperfeita. Mas, para elas, a humanidade existe há dez mil anos e está representada pelo homem civilizado. Também ignoram os três milhões de anos de história humana e as culturas que ainda persistem em harmonia com a natureza.

- O homem é perfeito, então?

- Óbvio. Tudo é perfeito. Você pode dizer que um leão é imperfeito? Um leão só pode ser um leão - é apenas assim que ele é perfeito. O mesmo se dá com a margarida, com o rato, com a águia, com o rio, com o homem. O homem não pode ser um esquilo, um super-homem ou um santo. Ele só será perfeito sendo homem.

- Seguindo a lei dos deuses.

- Como todas as outras espécies, como todas as culturas que não caíram no engodo da agricultura totalitária.

- E agora? Qual a sugestão que Ismael dá para sair do caos em que esta partezinha da humanidade se meteu e meteu todas as outras criaturas?

- Nenhuma.

- Nenhuma sugestão? Estamos ferrados então?

- B tem algumas ideias.

- Quem é B?

- Talvez a Besta ou o Anticristo. Talvez alguém inofensivo. Está em outro livro de Daniel Quinn. Chama-se a História de B.

- E o que diz esse tal de B?

- Diz ser possível que ainda tenhamos uma pequena chance. Mas, para isso, precisamos de uma nova visão. Uma visão que não esteja nas escrituras nem nas palavras de todos os pensadores e filósofos da história, porque escrituras e filosofia ignoram a verdadeira idade da humanidade. Três milhões de anos é nossa idade, não dez mil. Precisamos de pessoas que vejam o mundo por esse ângulo.

- E como se constrói essa nova visão?

- A sugestão de B para sairmos da enrascada ficará para outro dia. Mas ele diz que é possível. Só depende de nós.

- Depende de nós? Então que Deus nos ajude.

- Que os deuses.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Com o Temer, nada a temer
















Pensou que bastaria
que a dona eleita saísse,
mas não contava com a astúcia
do traidor que era vice

Agora tá tudo certo,
querido povo brasileiro,
a raposa já prometeu
cuidar bem do galinheiro

O gato também afirma
tomar conta do aquário,
e o tal de Bolsonaro
já vai sair do armário

É claro que tem amigos
com o selo carne e unha,
o pau que bate em Chico
não pode bater no Cunha

E por falar em pau,
em nome da minha amada,
eu só posso agradecer
o seu sim pra marmelada

Graças ao seu apoio
e alguns dos seus eleitos,
realizamos o sonho
daquele golpe perfeito

E pode ficar tranquilo

com os caras que elegeu,
agora aquelas denúncias
vão pra conta do Abreu

Assim estamos quites,

eu nada devo a você,
o Temer tomando posse
você nada tem a temer

O resto a gente ajeita
ou fica para amanhã
um beijo para as crianças,
outro para o Renan

domingo, 17 de abril de 2016

Mãe tem de ser Gordinha



Não quero falar da sua,
nem nas entrelinhas
mas mãe, feito a lua,
só é plena se gordinha

Tendo menos de
um metro
e sessenta,
a baixinha,
nem carece
coroação,
basta beijar a rainha
que te ensinou a prece
para o Deus da Criação

A minha,
com quilinhos a mais
e olhos de encanto,
tem palavras sempre de paz
e pequenas mãos
de acalanto

Pra sossegar a tormenta
e serenar o meu pranto,
tem alma de criança
num metro e cinquenta -
se tanto

Por isso, naquele instante
em que bate o medo do escuro,
tudo está como antes:
aquelas mãos,
tão distantes,
são o meu porto seguro


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Agora tu tá casado
















Disse que gostava de mares,
 
de bares,
lugares pra se perder

E que amava Beethoven,
os Beatles,
o Sílvio,
e queria um bebê

Chegou de mala
e cuia
e uma bíblia
pra te exorcizar

Bastou um passo
em falso,
um troço 
pra te ferrar

Agora tu tá casado

Não tem um trocado
pra leite,
modess,
bombom
e maná

Vendeu o carro usado
que nem tinha pago
e tem dois
moleques
pra sustentar

Tu chega cansado
com as mãos
vazias,
dá uma olhada
pra pia,
toda louça
pra lavar

O bebê acorda,
o tanque
trans-
borda,
o mundo gira,
a cuca pira
Quem é aquela senhora
que engorda
esticada no sofá?

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sábado, 2 de abril de 2016

Mário? Que Mário?

La Farce du Cuvier - Anônimo

Sabichão


Organização Social e Política Brasileira (OSPB) foi uma matéria escolar criada durante a ditadura para disseminar o conceito de um Brasil imaginário.

No Brasil daqueles livros e apostilas, não havia miséria, fome ou corrupção. Na palavra daqueles professores, o Brasil era um paraíso de igualdade racial e econômica.


Saneamento básico, segurança, emprego pleno, salários justos, gente sorridente - essa a realidade país afora.

De acordo com professores, livros e apostilas, o Brasil vivia em plena democracia, sim senhor. E o general sempre cuidava do cidadão.

Como convencer os colegas de aula sobre a existência daquela metralhadora de mentiras? Como ajudá-los a perceber que a escola apenas reproduzia as vozes do poder?


De vez em quando eu até tentava uma cutucada:
- Estamos sendo adestrados.

- Tu quer saber mais que o livro? Mais que a professora?
- A professora sabe bem mais do que eu, só que ela não diz.
- Por que ela não diz?
- Por medo ou cumplicidade. Aposto na segunda. E você?
- Eu aposto que tu tá louco.


A Revolução dos Hibiscos
 
Quando eu tinha uns 16 anos e estudava na Escola Técnica Federal de Pelotas (depois CEFET, hoje IFSUL), uma panelinha se reunia no jardim da escola para discutir a ditadura que estrebuchava. Também era um bom lugar para ler ou escrever poesia e para aprender um pouco além do que nos permitiam.

A professora de OSPB deve ter sido avisada daquela ameaça que germinava no jardim. Em outra sala, ela resolveu enriquecer uma explanação sobre os terríveis comunistas que aguardavam em suas tocas:

- Numa turma aí – disse ela, para dar um exemplo próximo -, numa turma aí, tem um grupinho típico da esquerda festiva.

Confesso nunca ter entendido a expressão. Afinal ninguém fazia festa alguma. Qual seria o equivalente do outro lado? A direita fúnebre?

O fato é que sem festa, funeral ou papas nas línguas, o Mário (hoje escritor e jornalista), provocou um pequeno desconforto em nossa rija professora de OSPB.

Vou contar o episódio.




Uma Simples Aluna

Antes da apresentação de um trabalho em grupo a respeito das maravilhas da economia brasileira (a inflação chegou a 230% naquele ano), a professora pediu que cada grupo elegesse um porta-voz.


- A partir de agora – encorajou ela – cada porta-voz é um professor. Eu vou me sentar lá no fundo e não vou interferir na apresentação de vocês. 

A baixinha empertigada de salto alto – toc toc toc toc - percorreu o corredor entre os estudantes e se acomodou na última cadeira da fila central. Depois sorriu para demonstrar que estava entre iguais.

- Eu sou apenas uma aluna – disse ela – Eu não vou interferir.

A coisa ia conforme o combinado. Porta-vozes se sucediam para repetir um amontoado de fantasias e devolviam um sorriso para a aluna do fundão.


A aluna balançava a cabeça e simulava um aplauso - aprovava, orgulhosa, o eco de blefes e auto-enganações.

Até que chegou a vez do Mário, nosso porta-voz.

Mário ergueu-se com a elegância que a situação pedia, caminhou para seu provisório posto de professor e sentou-se na mesa. As pernas magras e livres balançavam enquanto ele examinava as faces entediadas do público.

- Antes de mais nada – ele ergueu a apostila – é preciso esquecer esta papagaiada. Aqui só se pode encontrar mentira pura e deslavada.

Todas os olhos se voltaram para o fundo da sala. Lá um rosto se descorava.

- Menino...

- Tudo mentira – continuou o Mário – Tudo para esconder de vocês o que os milicos estão fazendo com o país.

- Menino, você está se excedendo.

- Os professores que normalmente ocupam este lugar, eles são cúmplices dessa ditadura. Ou tão tudo com o cu na mão.

Mencionar o cu de um professor equivalia a pichar o muro do quartel. Nossa professorinha saltou da cadeira.

- Mas é muita ousadia. O que você está...

- Quero lembrar – Mário ergueu a mão para detê-la – que o professor aqui sou eu. A senhora é apenas uma aluna. Não interfira, por favor.

Aluna ou professora, o fato é que a baixinha atravessou a sala como um bólido de salto alto. Por um segundo todos tiveram certeza de que ela se arremessaria sobre nosso porta-voz.


Não o fez. Abriu a porta com violência, manteve a mão na maçaneta e a porta aberta.

A indicação era óbvia. Ela convidava o Mário a se retirar, a se encaminhar para a secretaria, a se exilar em Moscou.

Mas não foi o que aconteceu. Quando Mário desceu da mesa e se dirigiu à saída, a professora o deteve.

- Volte para seu lugar.

Assim dizendo, nem esperou a ação do Mário. Foi ela quem saiu e fechou a porta.

Depois da saída inesperada da professora, ficamos conjeturando sobre o que poderia acontecer com o Mário. Será que ela voltaria com o diretor, com uma escopeta, com o general Figueiredo?


Não. Naquele dia a professora de OSPB não mais voltou.
 
O dia se passou, os dias se passaram e nada aconteceu. Ficamos sem saber se a professora se calou, se o diretor se calou, se calados todos decidiram permanecer por razões que só a eles interessavam.

(Em outra oportunidade, eles não conseguiram se segurar. Depois de conclamarmos uma reunião pró eleições diretas para o grêmio estudantil, a direção distribuiu uma carta aberta aos estudantes. A carta alertava sobre as ações de um grupo de subversivos que pretendia desestabilizar a ordem escolar.)


Sala de Aula Brasil

E hoje? Como convencer os alunos desta grande sala de aula chamada Brasil? Como colocar uma pulguinha atrás de cada orelha? Não basta dizer “ei, acorda, você está sendo enganado, os interesses da imprensa não são os seus”.

Como dissuadir alguém de suas certezas se essas certezas são alimentadas a todo momento e em todo lugar? A concorrência é dura, aquela gente fala mais alto.



Entre a Cruz e a Caldeirinha

Mas a questão não é apenas técnica ou de volume de voz. Uma opinião também é motivo de orgulho e vaidade – principalmente quando tornada pública.

Opiniões públicas são como algemas para quem as emitiu. Voltar (publicamente) atrás, confessar um erro de interpretação do mundo, admitir a ruína de seus recentes ídolos de barro, tudo isso exige um raro desprendimento de certezas e vaidades.

No fim, impotentes diante da inconsciência coletiva, acabamos por fazer o jogo do inimigo. Travamos um embate não contra o enganador, mas contra o enganado.

Esse embate tende a radicalizar certezas e estratificar posições. Promove o uso de rótulos e coloca lenha na fogueira dos chavões e frases aprendidas. Sim, você será chamado de cego, surdo e barrigudo.

- Você quer saber mais do que a Veja, a Folha, o Estadão, a Globo?
- Todos eles sabem bem mais do que eu. Só não querem dizer.
- Por que não?

- Porque teriam que falar da operação Zelotes, do Trensalão, do Banestado, do roubo da merenda, da lista da Odebrecht... Coisas meio complicadas de explicar, entende? Tem muito defensor da moral envolvido ali.
- Ah! Eu conheço esse seu discurso... Conversinha típica de barrigudo.


Por estar cansado de adjetivos (barrigudo eu não sou), tenho me esquivado de provocações.

Talvez não seja a atitude mais recomendável, mas, juro, se alguém me fizer a mais provocativa de todas as perguntas: - Mário? Que Mário? -, vou pensar três vezes antes de responder:

- Aquele que... (1, 2, 3) ...Aquele que escreve na Folha. Mas não segue a apostila.





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