domingo, 9 de outubro de 2016

Teste de Visão On Line - Gratuito


Caso sua forma de interpretar o mundo coincidir com uma das alternativas abaixo, recomendamos bifocais.




quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Roube Este Texto



Abbie Hoffman (30/11/1936 - 12/04/1989), ativista americano que
 participou dos movimentos por direitos civis no final do século 20, foi  um expoente no cenário político americano.

Hoffman, em sua permanente luta contra as guerras e contra o status quo americano, escreveu, entre outros, um livro intitulado Steal this Book (Roube este Livro).

O livro, escrito quando estava na prisão, apresenta-se como um manual de táticas para a derrubada de poderosos e corruptos.

O Poder - como alerta o ativista - não é privilégio de governos. Dele compartilham os donos do capital, das armas, das terras e da informação.

Abbie Hoffman merece ser lido sem preconceitos. Não é preciso concordar com suas propostas de ações anarquistas. Nem é preciso concordar com os motivos que originam aquelas ações. Mas é preciso considerar possibilidades - obrigação (e prazer) para toda a mente livre.

O texto abaixo é uma tradução parcial do preâmbulo que resume o capítulo 1 (SOBREVIVA) e o capítulo 2 (LUTA!).


Roube este Livro
(por Abbie Hoffman)

A cadeia - pós-graduação da sobrevivência – é local apropriado para escrever esta introdução.

Aqui você aprende a usar creme dental como cola, a converter uma colher em faca e a construir intrincadas redes de comunicação.

Aqui você aprende também a única reabilitação possível - o ódio à opressão.

Roube este livro é, de certa forma, um manual de sobrevivência na prisão chamada América. Ele prega a fuga dessa prisão. Ele mostra exatamente como colocar a dinamite que destruirá as paredes do poder.

O primeiro capítulo – SOBREVIVA - é um potencial programa de ações para a nossa nova nação.

Os títulos dos capítulos expressam as exigências de uma sociedade livre. Uma comunidade onde a tecnologia produz bens e serviços para quem precisa deles - sem distinções.


Capítulo 1 - Sobreviva!


O capítulo 1 convida os Robin Hoods da Floresta de Santa Bárbara para roubar os barões, para roubar os ladrões, para roubar os donos dos castelos do capitalismo.

Isso implica que o leitor já esteja ideologicamente definido, que ele entenda feudalismo corporativo como o único roubo digno de ser chamado Crime, pois é cometido contra o povo como um todo. Se isso é considerado legal ou ilegal é irrelevante.

O dicionário da lei é escrito pelos chefes da Ordem. Nosso dicionário moral diz para não roubarmos um dos outros. Roubar de um irmão ou irmã é mau. Não roubar as instituições que representam os pilares do Império dos Porcos é igualmente imoral.

Comunhão dentro de nossa nação, caos na deles. A mensagem do capítulo é esta: SOBREVIVA!



Capítulo 2 - Luta!

Nós não podemos sobreviver sem aprender a lutar - esse é o ensinamento do segundo capítulo.

LUTA! separa revolucionários de bandidos. A finalidade do capítulo dois não é foder o sistema, mas destruí-lo.

As armas são cuidadosamente escolhidas. Elas são feitas em casa, elas são projetadas para uso exclusivo em nossa selva eletrônica.

Aqui alguns vão encontrar uma ampla prova da nossa natureza violenta. Mas, novamente, o dicionário da lei nos falha.

Assassinato em um uniforme é heróico, em trajes civis é crime. Anúncios falsos recebem prêmios, falsários acabam na cadeia.

Preços inflacionados garantem grandes lucros, enquanto ladrões são punidos.

Políticos conspiram para criar motins na polícia e vítimas são condenadas nos tribunais.

Alunos são mortos a tiros e depois indiciados como os criadores de problemas por júris suburbanos.

Um exército moderno, altamente mecanizado, viaja 9.000 milhas para cometer genocídio contra uma pequena nação e, em seguida, acusa aquele povo de agressão.

Proprietários da cidade permitem que ratos mutilem crianças e depois se queixam da violência nas ruas.

Tudo às avessas.


Uma Nova História

Se nós internalizarmos a linguagem e as imagens dos porcos, estaremos fodidos para sempre.

Deixe-me ilustrar o ponto.

A América foi construída sobre o massacre de um povo. Essa é sua história.

Há muito tempo nós assistimos uma infinidade de filmes que demonstram a benevolência do homem branco.

Jimmy Stewart, a síntese da justiça, coloca o braço em torno de Cochise e conta como índios e brancos podem viver em paz. Basta que ambas as partes sejam razoáveis, responsáveis e racionais (os três R’s que os imperialistas sempre ensinam aos nativos).

- Você vai encontrar pasto bom do outro lado da montanha - garante Stewart - Pegue o seu povo e vá em paz.

Cochise, bem como milhões de jovens no balcão da aprendizagem, estava sendo tratado como carta fora do baralho.

Até entendermos a natureza da violência institucional e como ela manipula os valores e costumes para manter o poder de poucos, vamos permanecer presos nas cavernas da ignorância.

Quando concluírmos que ladrões de banco em vez de banqueiros deveriam ser os administradores das universidades, então nós começaremos a pensar com clareza.

Quando encararmos o Banco da América e o Centro de Desenvolvimento e Pesquisa Matemática do Exército  como fossas de violência, preenchendo as mentes dos nossos jovens com ódio, colocando uns contra os outros, então começaremos a pensar como revolucionários.




Frases de Abbie Hoffman:

"Liberdade de expressão significa o direito de gritar teatro! em um incêndio lotado."

"Torne-se um internacionalista e aprenda a respeitar a vida. Faça guerra contra as máquinas - em particular, contra as máquinas estéreis de morte corporativa e os robôs que as protegem."

"Revolução não é algo fixo na ideologia, nem é algo adaptado à determinada década. É um permanente processo incorporado ao espírito humano."

"Eu acredito em canibalismo obrigatório. Se as pessoas fossem forçadas a comer o que elas matam, não haveria mais guerras."

"A única maneira de apoiar uma revolução é fazer a sua própria."





Mais desengonços:



domingo, 11 de setembro de 2016

Caravelas Invisíveis


"A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam.”

(José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira)


Litoral das Américas, 1492. Caravelas espanholas aproximam-se da costa para conquistar o Novo Mundo.

Na praia, a dez passos do mar, cerca de trinta homens e mulheres dançam em círculo.

No centro, sentado na areia, o velho pajé fuma um cachimbo de bambu.

Estão nus. Em algumas cabeças, adornos de penas coloridas. Em alguns lábios, piercings de madeira. Em todos os pés, a hipnose dos ritmos da selva.

Nas caravelas, os espanhóis já apontam seus binóculos para os homens e mulheres nus (para as mulheres, na verdade).

Uns sacam seus valiosos espelhinhos de troca e penteiam o bigode. Outros limpam as unhas com a espada e tiram meleca do nariz.


As caravelas se aproximam. Lá da praia ninguém vê.

Na areia, o círculo se desfaz. Agora, sentados junto ao mar, marola nas canelas, homens e mulheres contemplam a tarde cintilar no imenso azul.

Crianças correm nuas, saltam sobre pernas adultas, riem daquelas águas todas.

As caravelas se aproximam. Mas da praia ninguém vê.

Marinheiros já dispensam seus binóculos, a horda se agita, o capitão berra últimas recomendações.

Na areia, mesmo as crianças serenam, o sol se recolhe, o horizonte se define.


As caravelas se aproximam, mas da praia ninguém vê.

Ergue-se então o pajé. Um olho perscruta a imensidão. O outro, as coisas primeiras, urgentes, aquelas que vem dos mistérios além-mar.


Com a compreensão ancestral de tudo que se move, o pajé observa as depressões, as fendas movediças que na água se abrem. O invisível corta o mar, vem ao encontro deles. E da praia ninguém vê?

O pajé fecha os olhos porque é preciso esquecer alguma coisa. É preciso desaprender o que sabe, desver o que já viu. O que cheirou, descheirar. O que ouviu, desouvir.

Tem de voltar a ser criança, ao momento que viu pela primeira vez o urucum e os espíritos da floresta. Voltar ao momento em ainda podia ver o impossível.

Quando abre os olhos, o pajé vê.

Vê aqueles barcos, com suas velas abertas para o céu.

- Vejam! – grita o velho – Barcos! Imensos! Grandes asas brancas pro céu!

Homens e mulheres se entreolham, abaixam as cabeças, dão de ombros, murmuram. O pobre pajé está sucumbindo à idade. Agora ele vê o impossível.

- Ali – insiste o velho – onde o mar se fende.

Por respeito, todos se voltam para as fendas no mar. Mas são apenas fendas. Caravela ninguém vê.

Quando os homens, crianças e mulheres nus resolver dar ouvidos ao pajé, é tarde demais.

Engodo, violência, morte e escravidão. Sucumbem as florestas, suas criaturas e seus deuses. Homens de longe vieram dizer o que é certo, vieram dizer o que se deve ver e no que se deve acreditar.


Agora, com a marca das botas impressas na areia da praia, os espanhóis se recusam a ser invisíveis.

Nas próximas centenas de anos, eles ainda estarão por aqui.

Mas da praia ninguém vê.



Outros desengonços:



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Novo #36 do Pedaço



Sexta-feira passada aconteceu o 1º GP João Henrique de Motocross, prova comemorativa ao aniversário do sobrinho-neto deste desengonçado corujão.


Não sei se por cerveja, pieguice ou saudade antecipada, ocorreu-me um súbito pensamento durante a festa:

Pode um desengonçadinho de um ano de idade e bochechas vermelhas ter fé? Em que será que ele acredita?

Eu sei que um dia JH vai saber dos pensamentos esquisitos do tio-avô, mas uma dúvida como essa não pode esperar tanto tempo, nem ficar sem resposta - não depois daquelas cervejas.


Além do mais, havia oportunidade melhor para perguntar ao próprio JH, em pessoinha?

Convenci-o a deixar a piscina de bolinhas com um argumento infalível. Disse que tinha um armário inteirinho, de portas bem abertas, cheio de badulaques, só para ele mexer.

Depois de me desculpar pela mentira e me certificar de que ninguém ouvia, sussurrei a inadiável pergunta:

- João, netinho do tio, sobrinho do vô, tu tem fé?

João me olhou por alguns segundos. Refletiu, apontou para os armários fechados, balançou o dedinho, coçou a orelha.


Uma pergunta como aquela merecia uma resposta à altura.

Finalmente, depois de comer um brigadeiro e limpar os dedos na minha camisa, João Henrique respondeu:

- Mamamama! - E acelerou o meu nariz.


Confesso que não era bem a resposta que eu esperava. Por isso a dúvida ficou pairando por ali, entre salgados, brigadeiros e troféus.

Ao perceber a ausência de respostas, a dúvida, essa Honda desgovernada, contornou os cuidados e atenções de Mamãe Carol, dobrou a curva da Vó Nelda, saculejou sobre minhas costelas magras e se postou no topo do pódio.

Então eu ouvi Baragahansa. 

Não, não foi o ronco dos motores. Rasta Baragahansa foi um iogue, guru e capoeirista jamaicano que desapareceu em 1836 depois de um encontro misterioso com um pajé de Washington. 

Mas, para os que sabem perguntar, o mestre sempre costuma se manifestar nesses casos de perguntas irrespondíveis e Polar em excesso.

Dessa vez ele se materializou na cadeira vazia bem ao lado da Bisa.

- Tu também é piloto? - perguntou ela, confundindo dreadlocks com capacete.

Interrompi os mais velhos porque havia pergunta mais urgente para fazer:

- Guru, sábio guru, me responda só uma coisinha.


- Ih, conheço você. Começa com uma coisinha...

- Apenas me diga, assim, sem mais delongas. Esse guri aqui, com esses olhinhos de matar a gente, ele tem fé?

Baragahansa lambeu os dedos para limpar o molho do cachorro-quente, observou João Henrique por alguns segundos, fez blrrrrrr, fez careta, imitou um jumento. Voltou a observar.

João, o observado, acelerava as tranças do guru.

- Eu diria que sim – afirmou Baragahansa depois de algum tempo -.Talvez - disse em seguida -. Talvez não - disse depois.

- Oi?

- Na verdade, fé não é importante.

- não é importante?!


Até o João parou de sorrir.

- JH tem algo muito mais importante do que fé.

- Teta?


João voltou a sorrir.

- Também. Mas algo maior.

- O dindo Alemão?

- Não. Cheio de firmeza e branduras.


- A fortaleza de doces da dinda Merli?

- Também não. Que vem de muito longe, mas está bem perto.

- A tia Didi?

- Não. O que aparece onde menos se espera.

- Papai Rodrigo que travou no gate, mas já aponta em primeiro, tapado de quero-quero?

- Não, cara! Você é mesmo ruim nesse negócio de adivinhação.

- Também... Cada dica...

- Quer que eu fale?

- Já? Não quer reconhecer a pista primeiro, conferir a suspensão, checar os pneus, dar um autógrafo?

- A permanente sensação de Deus.

- O quê?

- João tem a permanente sensação de Deus.


- Baragá, meu guru, pega leve. É festa de criança.

- João tem a certeza que não vem da lógica nem dos comissários de provas.

- Caramba! De onde vem essa certeza toda em tão pouco tempo? Tá mal começando a caminhar.

- João está em contato puro com o divino, sem questionamentos, sem dúvidas, sem necessidade de evangelhos ou chefes de federações.

- Ô guri de sorte!

- João Henrique e todos os outros desengonçadinhos dessa idade mantêm um contato íntimo com o Todo, aquela permanente sensação de Deus.

- Então não é preciso ter fé?

- Fé em quê? Basta sentir a presença. Basta saber que lugar melhor não existe do que a mão gorda de Deus.


- Não esquece da teta...

- Não esqueço. É assim mesmo essa presença. A companhia, a segurança e o alimento perfeito. Assim é Deus presente. Como uma teta.


- Mas que Deus? Existem mais deuses no mundo do que pilotos nesta festa.

- Deus é Indescritível. Apenas faz sentido quando sentido.

- Faz sentido.

- Ô!

- Acho que já senti uma vez ou outra. 

- É provável - concordou Baragahansa depois de mastigar uma coxinha - Geralmente você sente esse barato quando algo impossível acontece a você. Aquele instante em que, de alguma forma, você já sabia que o impossível ia acontecer.

- Como uma ultrapassagem na última curva - interferiu Papai Rodrigo.

- Já sem pneu e braço. Sim. Ali você recebe o sopro sublime que precisava.

- Bem que eu senti um negócio...

- O segredo está em manter aquela sensação de contato, da certeza da presença. Manter essa sensação e trazê-la para todos os momentos. Porque sabemos que é possível.

- Daria pra ganhar todas as provas do campeonato.

- Ou serenar as derrotas.

Enquanto papai Rodrigo se afastava (não muito satisfeito com aquele papo de derrota), eu tentei ponderar com o guru:  

- Pra você e pro João parece fácil, lúcido Baragahansa. Mas isso não é tão simples pra nós, pra toda essa gente grande e cabeçuda que não consegue ver além do que foi ensinado.

- Desensinado.

- É que essa correria toda dificulta um pouco, você sabe. 

- Não sei.

- Sempre tem uma suspensão pra ajustar, uma fralda pra trocar, um texto pra traduzir... A gente acaba nem notando essa presença entre mamadeiras, chaves de fenda e planilhas de texto.

- A culpa é somente sua, você sabe.

- Minha?!


- Sua.

- Com tanta gente nesta festa? O culpado não pode ser o Tivô, por exemplo? Ou a Tivó e aquele rejuvenescimento suspeito... Que tal a Vó Norma? Tá com cara de culpada.

- A culpa é sua e de todos vocês.

- Ah, agora sim... Então vamos dividir essa cruz.

- Estejam à vontade - disse Baragahansa - Eu vou comer uma fatia de bolo. Tem guaraná?

Com autorização do guru, conclamei a galera:

- Chega aí, Vô Edu! Tio Diego e tia Vivi, não se façam de salame! Temos uma cruz pra levar pro furgão.

- Por falar em furgão... - recomeçou o guru entre duas garfadas.


- Aí vem...

- O furgão também tem sua culpa.

- Tranquilo. Ele vai fazer a maior parte do trabalho.

- O furgão é um símbolo de sua civilização.

- Eu nem sou tão civilizado assim... Hoje, por exemplo, eu palitei os dentes na festa.

- Se você vivesse lá na origem do seu palito e de sua cruz, em comunhão com a fonte, em contato pleno com tudo aquilo que vive, você seria igualzinho ao João Henrique.

- Bochechudo?

- Talvez. Mas saberia de a
lgo que só ele sabe e que você desaprendeu nas carteiras da escola, nas escrituras, nos papais-do-céu ensinados e não sentidos.

João mostrou as palmas das mãozinhas para dizer: Cadê? 

- A tal sensação de Deus? - perguntei.

- Essa.

- Mas, mestre Baragahansa, como aprender o desaprendido?

- Tem bons professores por aí, pequeno gafanhoto.

- Ufa! Quem são esses caras?

- Vou dar umas dicas.

- Sério? Até desanima...

- Procure entre aqueles que praticam o contentamento.

- Vai ser difícil. Tem bastante gente contente na festa. Olha a cara da tia Mara e da tia Patrícia!

- É verdade... E a tia Regina? Cheia de sorrisos.

- Flávia, que se obriga a rir das piadas do Felipe.

- Ah, são boas, vai...

- Do Olavinho nem é preciso falar.

- Com tanto algodão-doce...

- Tio Nereu sacudindo os bigodes.

- Leto e Iva gargalhando.

Baragahansa, com a cara lambuzada de merengue, apanhou um beijo que João Henrique jogava e mudou o rumo da prosa: 

- Quer outra dica?

- Manda.

- Você também pode procurar entre aqueles que são gratos ao Grande Prêmio da Vida...

- Conheço alguns - dei uma piscadinha pra Dona Nelda.

- Entre os que fazem da derrota um ensinamento, que são humildes na vitória...

- Também conheço.

- Entre os que não reclamam dos buracos na pista...

- Ah, João Pedro, João Pedro...

- Procure entre aqueles que sabem que o chassi é importante, mas quem manda é o terreno.

- Opa! Agora afunilou a pista.

- Procure entre os que sabem que não é o homem que dirige na Grande Reta do Destino.

- Guru... Hoje sim você tá dando alimento pra cachola!

- Você também pode procurar entre os que percebem a essência das outras criaturas.

- Piloto é criatura?

- Esquisita, mas é. Procure também entre os que perdoam, que toleram. 

- Pontapé na fechada é tolerância? Dá pra perdoar?

- Well...

- No fim, grande Baragahansa, você há de concordar que tem gente pacas.

- São quase sempre os mesmos.

- Já facilita.

- Agora o mais importante.

- O mais importante. Essa eu não posso perder.

- Procure entre os que sorriem e exercem gentilezas.

- Sorriem e são gentis?

- Sempre. Gentis e sorridentes.


Eu sorri cheio de gentilezas para o guru Rasta Baragahansa e ele se despediu em uma nuvem de fumaça.

Com o mais importante aprendido (ou desaprendido), recitei um mantra, bebi mais um gole da Polar e percebi que João Henrique ainda dava tchauzinhos e mandava beijos para o mestre jamaicano.

Foi quando me ocorreu um segundo pensamento a respeito da mesma criança.

JH franziu a testa. O que esse tio-vô doido ia perguntar agora?

Mas pra essa nova pergunta não é preciso consultar guri ou guru.


Basta que fale você aí, que sempre fala a verdade:

Será que existe, no mundo inteiro, alguém mais sorridente e gentil do que esse desengonçadinho de Deus? 


*(Notinha final: Para desespero do pai, JH vai ser poeta.)





sábado, 16 de julho de 2016

Descabelado Haicai


Posta-restante de Ossos

Solidão e silêncio. Transatlântico. Tripulação de angústias. Cura de obsessões.
Cemitério: posta-restante de ossos – alguém para reclamá-los?



A lua cheia compete com cintilações travertinas na superfície raiada do mármore.


Nas lápides, retratos em preto e branco assumem grandiloquência. 

Em pé sobre a mais tola das lajes, reconhecemos um italiano que atuou em La Dolce Vita escoltado por alguns eunucos de Sherazade.

As aleias se estendem sob as grandes asas de um anjo e adormecem no instante em que o perfume das flores adensa-se em uma coroa de lótus.

Duas crianças acompanhadas de perto pela mãe correm por entre os sepulcros. A menina, seguida pelo irmão, ajoelha-se sobre a laje, não por reverência, mas para ler o epitáfio. 
- Eu sou dos que não apo... apo...
- ...drecem - auxilia o irmão.
- Fui, por na... por na...
- ...tureza.
- Mais ho... homem...

Abreviemos a leitura: “Eu sou dos que não apodrecem. Fui, por natureza, mais homem do que fui carne. A carne que falta me faz, se homem continuarei a ser?” 

O irmão afasta-se para ler outro epitáfio, a menina assume posição propícia, ergue o sujo vestido e, solene, faz xixi.

A mãe ajeita o vestido e o cabelo da menina, examina o nariz do menino, sorri para eles.

- Vamos pra casa, mamãe? – pergunta o menino.

- Sim, hora de dormir, querido.

Os três se aprumam e partem, passos largos, ritmados, com a obstinação de um pequeno exército.

Lá se vão os coturnos esfarrapados e gentis. Pisoteiam flores, cruzes e prantos ancestrais.

Nos primeiros passos, o ruído dos sapatos ecoa, perverte o silêncio. O coração é carrilhão antigo e resolve bater no ritmo que lhe convém.

Mas em seguida, no psiu dos mortos, corações se calam e se aquietam os passos.

O silêncio volta à necrópole.

Sem som de passos para que a noite possa ser irreal e eterna.

Sem som de passos em respeito à realidade trajada de sonhos.

Sem som de passos sobre o descansar dos mortos.

Não deveríamos dar ouvidos, mas, sob uma lua assim, quando se nos acometem pensamentos na carne e nos ameaçam as articulações, sempre haverá um de nós a dizer:

“Hei de morrer em leito de brancos lençóis. Terei olheiras dignas e voz mansa, resignar-me-ei às palavras de um padre, sorrirei alentos para mulher e filhos. Se eu morrer assim, paciente e amável, quero ser sepultado em noite como esta, de brancura e luar. Chamem amigos de óculos escuros para dizer coisas boas de mim.

Mas se, ao contrário, minha morte se apresentar ávida e veloz, recolhida às pressas do baú de um velho sovina, castrando pecados que tenho por cometer, se for assim a minha morte, enterrem-me durante a tempestade, na noite sem lua e sem cor. Enterrem-me protegido pelo guarda-chuva de meus pais – porque eles virão. Enterrem-me anônimo como sempre fui”.

E lá se vão as três criaturas noturnas. Bloco de querubins, ala de passistas invisíveis, ala atenta aos gestos mudos na plateia, ala testemunha do fogo fátuo que dança sobre as catacumbas.

E lá se vão as três criaturas noturnas no ritmo das coisas desconhecidas, espreitadas pelo olho do não visível.

Ocultos à pequena procissão, Arlequins celebram os foliões solitários, exaltam aqueles que decidiram desfilar a própria alegoria.

Vivas! Aplausos! Odes àqueles que rejeitam o óleo dos enfermos e comparecem a encontros não marcados com a morte! Loas aos que buscam a urna de seus últimos restos bem antes da quarta-feira de cinzas!

O frágil exército dobra a esquina e segue o caminho de casa. A menina recolhe uma violeta e a ajeita nos cabelos. O menino cumprimenta uma fotografia e sorri para a lua cheia.

Resta somente o curto percurso das velas, por entre despojos, preces e queixas. Resta a última trilha de folhas secas.

Então, a um sinal acostumado da mãe, cessam passos e silêncio.

- Chegamos – ela anuncia.

Os meninos correm. A volta para casa. O reconhecimento. A serena segurança dos lares.

Sobre o pavimento, esticam um cobertor roto e ajoelham-se para um agradecimento.

Na prece compartilhada, pedem a todos os defuntos que não perturbem o sono dos vivos.

Observados pela lua cheia, trocam beijos e boa-noite.

Depois, gratos e brandos, se deitam sob as asas do anjo Gabriel. Ali, acolhidos pelas estrelas atentas de Deus e aquecidos pelo hálito dos mortos, sonham com o dia em que não mais haverá dores ou frio, nem a densidade dos corpos.





domingo, 3 de julho de 2016

Devastado pelas Intempéries



- Diga,
moça do tempo,
timbre de rouxinol,
o que resta na minha idade,
tomado de tempestade,
virado de vendaval?
Tem raio pra todo lado,
tem tormenta,
terremoto,
tem sismo,
tem eu cismado,
tem goteira no telhado
e tem roupa no varal
Tô tornado,
atormentado,
girado todo por dentro
feito chuva de vento
em tempo de temporal
De tanta cheia,
aguaceiro,
dilúvio, enchente,
toró,
em cada lufada de vento,
querida moça do tempo,
o homem fica mais só

- Por favor, sem pudor
Um homem de sua idade,
rigidez pela metade,
já reclamando de dor,
deve ignorar o clima,
jogar tudo pra cima,
e encontrar um amor
Tudo já está escrito,
na linha do Equador,
o vento sopra pro norte
e com um pouco de sorte
vai cessar o calor

- Mas este homem
que espera
pra esticar as canelas
que mais pode querer?
Só me resta uma  janela,
fresta de primavera
que se abre na TV
Atmosfera,
solstício
equinócio,
quase me dá um troço
se vejo você na tela
prevendo que vai chover
Só assim se vão as dores
que fogem ao meu controle,
remoto como você

- Na casa de trinta graus,
febre em elevação
Clima quente e ressaca,
dessa ninguém escapa,
desligue a televisão
Poucas dores esparsas
analgésico,
antigripal,
emplasto
uma visita no gastro
e no procto desta estação
É tempo de andar descalço,
sem a calça do pijama,
sobre o sereno do chão
Já faz mais de uma semana
que você não sai da cama,
coitado desse colchão
Você que acendeu a chama
que dance agora a ciranda
e segure agora a pressão:
findo aqui este programa,
que amor de tela plana
não cabe no meu verão



Desengonços do mesmo naipe: