sexta-feira, 23 de maio de 2014

A Verdade sobre a Batalha dos Desengonçados



Eu estava lá. Eu participei daquilo tudo e esta é a primeira vez que eu vou contar.

Naqueles tempos, a perseguição aos Desengonçados havia chegado ao clímax. Desengonçados eram humilhados em festas de formatura e alvejados com escopetas sempre que voavam sobre as cumeeiras. Trinta foram linchados ao serem confundidos com apreciadores de silêncios. Oitenta e dois sofreram tortura, mas se negaram a revelar o paradeiro dos sonhos juvenis, dos ideais românticos e dos manuais de meditação.

Não havia mais o que esperar. Desengonçados de todos os quadrantes entenderam que já havia passado a hora da reação.

Depois de pequenos contratempos (alguns tentaram ir de Kombi, outros arrastaram varais), eles marcharam montanha acima para fundar um quartel-general.

O Grande Congresso dos Desengonçados começou às onze da manhã e se se estendeu durante aquele dia todo.

Ao abrigo de intempéries e preconceitos, em uma plataforma na encosta do Morro das Desopiniões, eles treinaram para a batalha que se avizinhava.


Discutiram filosofia, futebol e religião. Lutaram box e jogaram peteca.  Leram a Arte da Guerra de Lao Tse, praticaram retórica e a capacidade de persuasão.

Entre eles, havia vegano e caçador, astrólogo e ecologista, andarilho, monge, sacerdote e ateu. Havia trigêmeos siameses, alguns anões chapados, oito transexuais, três menestréis, dezenas de cidadãos alados, um pai de santo e dois balconistas.

Alguns bebiam vinho, outros meditavam. Muitos d
ançavam eritmos do neo-paleolítico para projetar suas desengonçadas sombras sobre as pedras das encostas.


Todos ansiavam, pressentiam, esperavam a principal atração do dia: o r do sol.

Odes e preces ao poente propício aos poetas, às cigarras, às aves e aos contempladores. Vivas ao instante em que a linha da noite chegava para desengonçar o dia.


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No momento esperado, o inesperado aconteceu. Quando o sol se escondeu no horizonte, não houve tempo ou motivo para contemplação e poesia.


Dali mesmo, de onde o sol havia se posto, desapontaram seus inimigos mortais - os Engonçadinhos.

Com cordas, helicópteros e certezas, os Engonçadinhos emergiram dos contornos verdes do incipiente quartel-general. 
Sob os benefícios da surpresa, distribuíram blefes, tabefes, insultos e manchetes de jornal.

Os Desengonçados defendiam-se com cardápios tailandeses e contra-atacavam com trovas gaúchas, repentes nordestinos e luvas de pelica.


A nona de Beethoven conseguiu silenciar uma baioneta calada.


Um despachante foi alvejado por uma dúvida romântica e uma flor ruiva. Caiu de joelhos entre formulários, boletos e frustrações.


Uma caneta-tinteiro desenvolveu floreios líricos para extirpar nódulos de  estagnação. Com apenas um rabisco abateu oito leitores de um livro só e quatro apresentadores do Jornal Nacional. 

Mas os Desengonçados não conseguiram se recobrar da surpresa.

Alguns permaneceram sentados, olhos saudosos do sol que se fora.


Muitos achavam que aquilo não era motivo para interromper uma poesia.


Por via das dúvidas, nem tentaram combater com lógica e argumentação. Preferiram desferir eufemismos, metáforas e elipses cortantes. Conforme esperado, engasgaram nas aliterações.


No fim, pôr do sol, poesia, aliterações e Desengonçados foram parar tudo no mesmo saco.



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Desde que o vermelho pintou as cordilheiras e o exército inimigo caiu sobre os Desengonçados com fúria, normas de conduta e chavões, o destino estava selado.


Quinze minutos depois,a boca da noite se calou sobre as cabras alpinas e
um pranto de agonia reverberou nas pedras que repousavam nas encostas desde tempos ancestrais.

Estava decretada a extinção de todos os Desengonçados daquelas paragens.

Os vencedores desceram a montanha entoando hinos religiosos e palavras de ordem. Em casa, as mulheres dos guerreiros da normalidade sabiam que a noite seria dos machos.

No alto da montanha, uma última baioneta calada manifestou-se para conferir se algum Desengonçado ainda respirava. Mas não. Nem Beethoven sobreviveu.



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Como serviço de utilidade pública,  aqui fica a descrição daqueles que sucumbiram na batalha: 
- Um que se dizia amigo dos santos. Curou dois casos de sinusite, seis de escorbuto e treze de intolerância. Espirrou, caíram-lhe os dentes, mas não foi tolerado. 
- O que sempre dizia verdades, desde que perguntado. Deixaram de perguntar. 
- O que visitava casa de caracol e foi esmagado por um coturno. 
- A que recitava libélulas. Consta ter sido alvejada quando pairava sobre uma vitória-régia. 
- O que via pessoas vivas. Foi oito vezes internado na clínica psicológica e quatro na oftalmológica. Está curado. 
- A que beijava mendigos. Hoje faz malabares e vende mentol. 
- O mendigo beijado e contagiado por hálitos refrescantes.
- A que dividia o salário com vira-latas e o apartamento com um chinês. Hoje mora em um canil de Pequim. 
- Dois atrasadores de relógios. O tempo passou para ambos. 
- A que imitava passarinho e voava sobre as campinas. Bastaram algumas estilingadas. 
- O retificador de horizontes - sempre com suas orelhas de ventania. Ofuscou-se no crepúsculo.
- Quatro mulheres contentes que ensinavam o desejo de não desejar. Morreram de desgosto e frigidez. 
- Um banqueiro que só falava em versos. Caiu em em silêncio quando alguém caiu sobre ele.


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Eu senti o cutucão na lateral:
- Ei! Você aí – chamou o portador da baioneta.

- Eu?
- Você mesmo. Sai de cima desse banqueiro. Você será poupado pra contar a história.

(Ah, soldadinho, você não sabe o erro que cometeu...)





domingo, 6 de abril de 2014

Censura das Musicas na Ditadura Militar (DCDP)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Além dos Muros da Prisão


"Vejo pouca diferença entre o mundo interno das prisões e o mundo exterior. Um milhão de muros não podem nos proteger, porque os perigos reais - o militarismo, a cobiça, a desigualdade econômica, o fascismo, a brutalidade policial - são encontrados fora, não dentro, dos muros da prisão."

Philip Berrigan

A Quem Pertence Isso Tudo?

Foto - Blog do Sereno

"O primeiro homem que, depois de ter fechado um pedaço de terra, pensou em dizer 'Isso é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.

Quantos crimes, guerras, assassinatos, quanta miséria e horror a raça humana teria poupado se alguém tivesse arrancado as estacas e preenchido o buraco para gritar aos seus companheiros: 'Acautelai-vos de escutar esse impostor. Você estará perdido se esquecer que os frutos da Terra pertencem a todos e que a própria Terra não pertence a ninguém!'"

Jean-Jacques Rousseau

Geringonças Visíveis


O visível é o meio
que o invisível usa
que a inconsciência busca
para se
manifestar

Agora querem nos convencer de que somos apenas máquinas biológicas. Não mais do que um amontoado de moléculas e estupidez.

Na voz dos cientistas (e outros desatentos), este corpo do qual sou habitante é meu hardware.  Afirmam que, para comandar o humor deste emaranhado de carne, osso e nervos, dependemos da matemática dos elementos químicos.

Segundo aqueles sujeitos, se meu cérebro (disco rígido desta geringonça visível) estiver faminto por serotonina, não realizará suas sinapses de acordo com o programado. Ele me dirá para me esconder sob quatro cobertores, e só sair em caso de novo dilúvio.

Mas quando o hard disk for saciado, ele me fará pular todos os carnavais de Recife e Salvador. Na Quarta Feira de Cinzas me levará para Ibiza, na quinta para o hospital.

Esses materialistas de microscópio proclamam a verdade naquilo que podem ver, pensam que está no visível a causa da angústia, da alegria, do medo, do barulho no motor.

Mas, se entrarmos em guerra contra os cientistas levando lógica e matemática como armamento, a derrota tende a ser vergonhosa.

Como então convencê-los que é no visível que o invisível pode ter nariz, bocas, orelhas de abano, e outras coisas de sentir e aprender?

Não com prosa, por certo. Que tal com cantigas?

(Dica aos cientistas: quanto mais rápido conseguir ler, mais rápido vai compreender.)

O Carpinteiro Hipotético
Que do corpo quis apetrecho
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Já vai fazer entender
Que entender o invisível
Somente será possível
Se você desentender

A cantilena da alma,
Que pra depressa aprender recita
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Vai te trazer a calma
Porque esta chama, maldita,
Talha, estala, crepita
Bem dita te faz arder
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê

Se aos esses dessas espinhas
Não sucedem desassossegos
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver
Só aceite o Ser sensível
Sutililizar o visível,
Seu cientista sem saber
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Andantes




Se é você quem rasura
Palavras de corpo inteiro
Se é você quem procura
Cigarras no formigueiro
Venha ser escudeiro
De um homem e uma ternura
Ou seja de vez cavaleiro
Aquele, da triste figura

O Passado em Sombras



Seguindo os destinos da sombra
nestas ruas sem saída, 
passado e homem se encontram
para refazer a vida 
 A alma, de malas prontas,
tem por nome Urgência:
“Se já acertaram as contas,
que tal tomar providências?”