domingo, 8 de junho de 2014

Estamos todos sós



(Tradução livre de Alone with everybody de Charles Bukowski)




carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
Às vezes,
uma alma

As mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem demais
Ninguém se encontra,
ninguém encontra ninguém

Persistem,
ainda procuram,
rastejam pra dentro
e pra fora
de leitos
Carne cobre
o osso,
e a carne procura
por mais
do que carne

Não há chance,
em absoluto:
estamos todos presos
por um singular
destino
Ninguém nunca encontra
ninguém

As lixeiras da cidade se enchem
os ferros-velhos se enchem
os manicômios se enchem
os hospitais se enchem
os cemitérios se enchem

Nada mais
me enche


domingo, 1 de junho de 2014

Caraminguá




Larva noturna que se arrasta pelo bocejo das ruas, o investigador Vicente Vidal sorve a madrugada em terceira marcha.

Acenam discretos vagabundos, mendigos, alcaguetes, prostitutas de vários sexos, sobreviventes, errantes, vira-latas, ladrões perdoados e todos aqueles que se abrigam sob a gigantesca marquise da noite.

Os seios de Raquel, Debinha ou Dorothy ludibriam o cobertor de segredos que os protege do frio e iluminam as calçadas da Avenida Indianópolis.

O investigador para a poucos metros de Dorothy.

Debruçada na janela do Santana preto, ela trata de negócios.

- Se você quer de graça, meu lindo, vá fuder a mamãezinha.

Ajeita o vestido amarelo sobre a pele bronzeada e põe ponto final às tratativas.

O investigador espera o cliente se afastar. Depois aproxima o carro do meio-fio e abaixa o vidro. Sorri para Dorothy.

- Sua língua costumava ser mais gentil, meu anjo. Certas coisas não ficam bem nos lábios de uma diva.

- Todas as coisas ficam muito bem nos meus lábios, investigador.

Nessas jornadas, o investigador Vicente Vidal acostumou-se a cruzar com essas amotinadas rainhas noturnas. Hoje, a noite não traz apenas rainhas, mas um carrossel de lembranças. O pensamento em Caraminguá, que não é um lugar, é um homem e já foi menino.


~~~~~~~~~~~~~~~~~

O menino Caraminguá costumava se deitar sobre os trilhos do trem e sair somente no último segundo, quando o maquinista já rezava na certeza do inevitável.

Escondia-se em trens de carga e voltava no dia seguinte, na companhia do maquinista ou da polícia.

- O senhor precisa controlar seu filho – dizia o policial.

O pai, viúvo, dava um beijo na cabeça de Caraminguá.

- Eu tento, mas como é que se agarra um passarinho?

- O senhor corre o risco de perder a guarda dele.

- Seu policial, eu faço tudo por esse menino. Eu seria capaz de matar por ele.

- Morrer é pior que matar, né? – intrometeu-se Caraminguá – Então matar nem é tanto assim.

Despediu-se do policial e foi dormir.

Uma vez retornou de improvisada viagem de trem duas semanas depois, a pé, pelo mesmo caminho dos trilhos, saltando os dormentes de dois em dois, como se tivesse ido ali recuperar uma pipa.

Perguntado a respeito da medalha em forma de sol que então trazia no peito, Caraminguá beijou a joia de prata.

- Resultado de dez minutos de paixão.

- Então deve valer é nada – avaliou o investigador menino.



O investigador – quando ainda não era investigador, e tinha 15 anos - impôs-se líder da recém-criada TVV (Tribo Vicente Vidal).

A liderança decorria não apenas de algumas raras demonstrações de audácia. A diferença de idade também o favorecia. Era o mais velho entre os filhos dos moradores daquele misto de subúrbio e campo, lugar onde nascera.

Munido desses atributos, costumava impor aos amigos um teste de iniciação. Para ser aceito no tribo, seria preciso saltar da ponte ferroviária, direto no rio lamacento dez metros abaixo.

Muitos eram os que prometiam, poucos os que se atreviam, raros os que conquistavam o status de membro da TVV.

Mas, nas periferias da tribo, entre os não-iniciados, começavam a ser narradas as aventuras de Caraminguá.


Aos poucos, Caraminguá tornava-se herói entre os excluídos, os reprovados e os cagões. Não demorou para os comentários começarem a brotar no coração do quartel general da TVV.

- Dizem que eles tão fazendo uma tribo também. Se juntam todo dia pra beijar os pés do Caraminguá.

O futuro investigador cuspiu no chão

- Outra tribo? Aqui?

E saiu a passos largos. Todos souberam que ele se dirigia à casa de Caraminguá.

Que chamassem o futuro investigador de audacioso, mas quem podia presumir aquela súbita veia estadista que se revelou naquele encontro?

- Não quer ser da minha tribo, moleque?

Caraminguá abria o portão de casa. Antes de entrar, parou.

- Pra quê? – perguntou, sem se voltar para Vicente.

- Pra quê? - repetiu o líder do TVV - Pra quê?!

Caraminguá entrou no pequeno jardim e fechou o portão de madeira que lhe ia à altura dos olhos. Pela primeira vez, fitou o desafiante:

- Me dá um motivo. Entrar pra tribo pra ver quem mija mais longe, quem arrota mais alto, quem matou mais passarinho?

O portão de madeira entre eles afiava o silêncio. Os meninos se encaravam. De longe, os membros da TVV observavam.

Vicente finalmente voltou à carga:

- Você tá é se cagando de medo do grande desafio.

- Qual? Rodar bambolê?

- Encontra com a gente na hora do trem das seis e a gente vai ver. Se o trem passar e você não der as caras, bom... Você sabe o que o pessoal vai dizer.

Caraminguá deu às costas ao desafiante, caminhou quatro passos, subiu dois degraus e abriu a porta de casa.

Antes de fechá-la, voltou-se para o chefe da TVV.

Vinte centímetros acima do portão, dois olhos de indignação e curiosidade o observavam.

Caraminguá piscou um só.

- Quem sabe? – disse.

Entrou e fechou a porta.


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Trem da tarde atrasado, os meninos sentaram-se nos trilhos da ferrovia. Ali, ao lado da placa que marcava o lugar de encontro - ponte a 600m - a pouco mais de dois quilômetros da estação, a pergunta era uma só.

- O Caraminguá não vem?

- Ele disse que vinha.

- Ele disse que podia ser que vinha.

- Bateu o medo, claro. O moleque tem doze, porra.

- O Junim tem quatorze e nunca pulou.

- Ele vem.

- Já não dá mais tempo.

- Ó lá. O Trem.

O futuro investigador, líder supremo da TVV, ergueu-se e acendeu o cigarro que havia comprado para a ocasião.

- Eu sabia – assoprou a fumaça – Aquelas historinhas do Caraminguá? Tudo caô.

O trem apontou na curva e no fim da tarde. Os meninos, sem pressa, calma acintosa para ignorar o apito, deixaram os trilhos.

O trem chegava à ponte, reduzia a velocidade para parar na estação.

Junim, aquele mesmo que nunca enfrentaria o grande desafio, foi a primeira testemunha.

- Olha ele lá!

- Quem?

Contra o céu vermelho, em cima do trem, acabava de se destacar a silhueta de um menino.

- O Caraminguá.

Caraminguá, duas pernas firmes sobre a máquina fumegante, agitou os braços.

Em alguns segundos a lotação do trem aumentou. Acostumados às aberturas, barras e reentrâncias dos vagões vazios, dezesseis meninos agarraram-se àqueles lugares todos feitos para agarrar.

Caraminguá, nas entre-falhas adolescentes da mudança de voz, lá do alto anunciou:

- Vai ter tibum.

As vozes se ergueram das laterais do trem:

- Ele vai pular!

- Pula! Pula!

Caraminguá dobrou os joelhos, balançou os braços. Saltou.

Um arco cruzou o rubro do céu. Os meninos esticaram os pescoços a tempo de ver Caraminguá desenvolver uma pirueta, alinhar novamente o corpo e, poucos metros depois, desaparecer no negrume do rio.

Todos, menos um, começaram a acompanhar o ritmo das rodas sobre os trilhos.

- Ca-ra-min-guá, Ca-ra-min-guá, Ca-ra-min-guá.

Os meninos saltaram do trem que, devagar, já se afastava da ponte.

Correram de volta ao rio a tempo de ver Caraminguá emergir como líder supremo da tribo dos reprovados, dos excluídos e dos cagões. Surgia uma lenda.


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Caraminguá era o que subia na árvore mais alta, o que dormia mais tarde, o que fisgava os maiores peixes do rio.

Era péssimo em futebol, então assumira a posição de técnico do time.

- Não preciso da sua colher de chá – resmungou o futuro e resignado investigador ao ser mantido entre os titulares - Eu sei que não mereço nem lugar no banco.

Não merecia mesmo.

Àquela época, Caraminguá tinha apenas doze anos, mas foi o primeiro a comer a Soninha.

- Feia pra caralho – ponderou o investigador, que aos quinze só tinha tentado beijar a Soninha.

Mas a resignação de alguém com vocação para homem da lei não resistiria a duas estações.

- Vou pular da cachoeira – anunciou Vicente.

A notícia se espalhou.

O ex-líder do TVV, prometia uma proeza nunca antes realizada.

Meia-hora depois, cerca de trinta crianças e adolescentes acompanhavam os passos largos do futuro investigador pelo estreito caminho de terra à margem do rio.

Em vinte minutos chegaram ao alto da grande pedra. O som ininterrupto da água sobre as rochas lá embaixo quase abafava a voz dos meninos.

- Você vai fazer uma besteira – Caraminguá advertiu.

- Quer pular comigo?

- Não, obrigado.

- Eu já imaginava.

O futuro investigador sentou-se na borda da pedra grande para permitir que os pés alcançassem a pedra menor logo abaixo. Dali, uma escada natural o levou ao centro da cachoeira.

Em pé sobre o bloco ovalado, Vicente Vidal voltou-se para os meninos e encontrou olhos de admiração.

Silêncio se fez. Apenas o rufar das águas e do coração. No alto da cachoeira, o mais valente daqueles ermos estava prestes a realizar a maior das façanhas.

O corpo magro curvou-se, pernas dobraram-se, braços moveram-se para trás, pulmões encheram-se de ar.

O futuro investigador Vicente Vidal analisou por dois segundos as águas que se agitavam na expectativa da ousadia maior. E não mais esperou.

Do topo da pedra grande, uma tensão palpável acompanhou o pequeno voo, a elipse, a linha reta e vertical para o rio, o choque líquido, os círculos concêntricos que se formaram depois do mergulho.

Sem pressa, os círculos se desfizeram, a superfície da água se abrandou.

O cascatear das águas, a queda de um grande silêncio.

A tensão se desfez em palmas e gritos quando, entre espumas, uma cabeça emergiu.

- Do carai!


- O cara é foda mesmo.

Muitos se voltaram para Caraminguá.

- Será que alguém mais vai nessa?

Caraminguá nem respondeu. Começou a descer a escada natural em direção à Pedra do Ovo.

- Eu sabia. O Caraminguá não vai deixar barato.

- Cala a boca – gritou Caraminguá - Ele não tá se mexendo, caralho. Eu vou ter que saltar.

Então, em poucos segundos a platéia assistiu à segunda e inesperada performance.

Porque lá estava Caraminguá, na Pedra do Ovo, no alto da cachoeira. Lá estava Caraminguá, em meio ao salto, rumo ao negrume das águas.

E lá estava Caraminguá, já depois do salto: um braço em torno do futuro investigador, o outro remando para a margem.

Muitos pais já aguardavam quando os dois meninos saíram do rio, o menor apoiando o maior.

- Ele desmaiou quando bateu na água – Caraminguá explicou ao entregar o trêmulo amigo aos braços da mãe.

Ela o agasalhou com uma toalha e uma saraivada de imprecações.

O ex-líder do TVV voltou para casa um pouco mais ex.


Apesar dos fracassos públicos, o futuro investigador tornara-se companhia frequente de Caraminguá.

Ninguém sabe como ocorreu, mas o fato é que, aos poucos, tornaram-se amigos.

Muitas vezes, quando todos os meninos deixavam a ferrovia depois da passagem do trem, os dois permaneciam por uma ou duas horas planejando um futuro de ilusões.

- Eu vou viajar, Caraminguá. Na marinha a gente conhece o mundo, dorme uma noite aqui e outra lá. A gente come uma francesa num dia e uma sueca no outro.

- Mar é bonito mas não tem estrada. Eu vou sair por aí, eu vou conhecer pessoas, eu vou falar oito línguas, eu vou meter o pé na jaca.

Era assunto só deles. Não compartilhavam.

Foram os primeiros a fumar maconha.

- Dá uma preguiça.

- Da porra.

E os primeiros a parar.

Naquela noite, atrasaram-se. Apenas perceberam o atraso quando o trem das dez apontou na curva e o apito lacerou a noite daqueles ermos.

Ergueram-se com a calma tradicional. Caraminguá foi o primeiro a sair, deu três passos, voltou-se.

- Vamos, cara.

O apito do trem abafou a voz.

O futuro investigador gesticulou. Nos olhos, desespero. O trem resfolegava na curva e trazia os maus presságios da noite.

Caraminguá correu.

- Meu pé não sai - choramingou o futuro investigador.

- Tira o tênis.

- Não sai.

Caraminguá correu e abaixou-se para descalçar o amigo.

O trem aproximava-se.

- Dobra a perna que sai – gritou Caraminguá.

- Não dá – chorou o futuro investigador – Não dá, não dá...

O maquinista fez o sinal da cruz.

Caraminguá desferiu um chute na parte posterior do joelho do amigo. O futuro investigador dobrou as pernas e Caraminguá o puxou de dentro do tênis e dos braços da morte.

Dez minutos depois o renascido ainda soluçava.

- Ninguém vai saber – Caraminguá prometeu.

Não bastasse o fracasso público, agora a humilhação privada.


Muitos anos depois, Júlia, a irmã de Vicente, atestaria, saudosa:

- Aos 13, o Caraminguá já era um homem. Por onde será que ele anda?

Aos 15, durante dois meses abandonou Júlia, pai, amigos e escola. Conheceu São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Uruguai. Voltou a tempo de convencer os professores a perdoar-lhe as ausências. Foi aprovado com as notas medíocres de sempre.

Na mesma idade conheceu os livros, errou pelas páginas de Kerouak, Ginsberg e Burroughs. Soube que um dia iria percorrer a Rota 66.

O investigador, que à época tinha 18, tirou notas máximas nos exames de aptidão da Marinha. Foi reprovado ao enjoar no mar.


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Voltariam a se encontrar muitos anos depois. Caraminguá entrou na delegacia algemado depois de uma briga de bar.

- Este filho da puta disse que ia abrir a garrafa de cerveja no meu cu – testemunhou o oficial que o trazia.

Caraminguá reconheceu o já investigador, aos vinte e cinco anos, olhar perdido em frente a uma máquina de datilografia e uma pilha de documentos.

- Sinto muito, irmãozinho – desculpou-se Caraminguá -, mas você já não tem salvação.

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- Cuide-se, menina – diz o investigador Vicente Vidal a Dorothy que se esmera em graças e passos curtos em direção a novo cliente.

O investigador aciona o limpador de pára-brisa.

A neblina se adensa.

Na foto no painel do carro, a irmã Júlia faz caretas.

Ao fundo, Caraminguá, uma estrada e uma mochila às costas, mostra o dedo médio para a câmara.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A Verdade sobre a Batalha dos Desengonçados



Eu estava lá. Eu participei daquilo tudo e esta é a primeira vez que eu vou contar.

Naqueles tempos, a perseguição aos Desengonçados havia chegado ao clímax. Desengonçados eram humilhados em festas de formatura e alvejados com escopetas sempre que voavam sobre as cumeeiras. Trinta foram linchados ao serem confundidos com apreciadores de silêncios. Oitenta e dois sofreram tortura, mas se negaram a revelar o paradeiro dos sonhos juvenis, dos ideais românticos e dos manuais de meditação.

Não havia mais o que esperar. Desengonçados de todos os quadrantes entenderam que já havia passado a hora da reação.

Depois de pequenos contratempos (alguns tentaram ir de Kombi, outros arrastaram varais), eles marcharam montanha acima para fundar um quartel-general.

O Grande Congresso dos Desengonçados começou às onze da manhã e se se estendeu durante aquele dia todo.

Ao abrigo de intempéries e preconceitos, em uma plataforma na encosta do Morro das Desopiniões, eles treinaram para a batalha que se avizinhava.


Discutiram filosofia, futebol e religião. Lutaram box e jogaram peteca.  Leram a Arte da Guerra de Lao Tse, praticaram retórica e a capacidade de persuasão.

Entre eles, havia vegano e caçador, astrólogo e ecologista, andarilho, monge, sacerdote e ateu. Havia trigêmeos siameses, alguns anões chapados, oito transexuais, três menestréis, dezenas de cidadãos alados, um pai de santo e dois balconistas.

Alguns bebiam vinho, outros meditavam. Muitos d
ançavam eritmos do neo-paleolítico para projetar suas desengonçadas sombras sobre as pedras das encostas.


Todos ansiavam, pressentiam, esperavam a principal atração do dia: o r do sol.

Odes e preces ao poente propício aos poetas, às cigarras, às aves e aos contempladores. Vivas ao instante em que a linha da noite chegava para desengonçar o dia.


== == ==

No momento esperado, o inesperado aconteceu. Quando o sol se escondeu no horizonte, não houve tempo ou motivo para contemplação e poesia.


Dali mesmo, de onde o sol havia se posto, desapontaram seus inimigos mortais - os Engonçadinhos.

Com cordas, helicópteros e certezas, os Engonçadinhos emergiram dos contornos verdes do incipiente quartel-general. 
Sob os benefícios da surpresa, distribuíram blefes, tabefes, insultos e manchetes de jornal.

Os Desengonçados defendiam-se com cardápios tailandeses e contra-atacavam com trovas gaúchas, repentes nordestinos e luvas de pelica.


A nona de Beethoven conseguiu silenciar uma baioneta calada.


Um despachante foi alvejado por uma dúvida romântica e uma flor ruiva. Caiu de joelhos entre formulários, boletos e frustrações.


Uma caneta-tinteiro desenvolveu floreios líricos para extirpar nódulos de  estagnação. Com apenas um rabisco abateu oito leitores de um livro só e quatro apresentadores do Jornal Nacional. 

Mas os Desengonçados não conseguiram se recobrar da surpresa.

Alguns permaneceram sentados, olhos saudosos do sol que se fora.


Muitos achavam que aquilo não era motivo para interromper uma poesia.


Por via das dúvidas, nem tentaram combater com lógica e argumentação. Preferiram desferir eufemismos, metáforas e elipses cortantes. Conforme esperado, engasgaram nas aliterações.


No fim, pôr do sol, poesia, aliterações e Desengonçados foram parar tudo no mesmo saco.



== == ==

Desde que o vermelho pintou as cordilheiras e o exército inimigo caiu sobre os Desengonçados com fúria, normas de conduta e chavões, o destino estava selado.


Quinze minutos depois,a boca da noite se calou sobre as cabras alpinas e
um pranto de agonia reverberou nas pedras que repousavam nas encostas desde tempos ancestrais.

Estava decretada a extinção de todos os Desengonçados daquelas paragens.

Os vencedores desceram a montanha entoando hinos religiosos e palavras de ordem. Em casa, as mulheres dos guerreiros da normalidade sabiam que a noite seria dos machos.

No alto da montanha, uma última baioneta calada manifestou-se para conferir se algum Desengonçado ainda respirava. Mas não. Nem Beethoven sobreviveu.



== == ==

Como serviço de utilidade pública,  aqui fica a descrição daqueles que sucumbiram na batalha: 
- Um que se dizia amigo dos santos. Curou dois casos de sinusite, seis de escorbuto e treze de intolerância. Espirrou, caíram-lhe os dentes, mas não foi tolerado. 
- O que sempre dizia verdades, desde que perguntado. Deixaram de perguntar. 
- O que visitava casa de caracol e foi esmagado por um coturno. 
- A que recitava libélulas. Consta ter sido alvejada quando pairava sobre uma vitória-régia. 
- O que via pessoas vivas. Foi oito vezes internado na clínica psicológica e quatro na oftalmológica. Está curado. 
- A que beijava mendigos. Hoje faz malabares e vende mentol. 
- O mendigo beijado e contagiado por hálitos refrescantes.
- A que dividia o salário com vira-latas e o apartamento com um chinês. Hoje mora em um canil de Pequim. 
- Dois atrasadores de relógios. O tempo passou para ambos. 
- A que imitava passarinho e voava sobre as campinas. Bastaram algumas estilingadas. 
- O retificador de horizontes - sempre com suas orelhas de ventania. Ofuscou-se no crepúsculo.
- Quatro mulheres contentes que ensinavam o desejo de não desejar. Morreram de desgosto e frigidez. 
- Um banqueiro que só falava em versos. Caiu em em silêncio quando alguém caiu sobre ele.


== == ==

Eu senti o cutucão na lateral:
- Ei! Você aí – chamou o portador da baioneta.

- Eu?
- Você mesmo. Sai de cima desse banqueiro. Você será poupado pra contar a história.

(Ah, soldadinho, você não sabe o erro que cometeu...)





sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Além dos Muros da Prisão


"Vejo pouca diferença entre o mundo interno das prisões e o mundo exterior. Um milhão de muros não podem nos proteger, porque os perigos reais - o militarismo, a cobiça, a desigualdade econômica, o fascismo, a brutalidade policial - são encontrados fora, não dentro, dos muros da prisão."

Philip Berrigan

A Quem Pertence Isso Tudo?

Foto - Blog do Sereno

"O primeiro homem que, depois de ter fechado um pedaço de terra, pensou em dizer 'Isso é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil.

Quantos crimes, guerras, assassinatos, quanta miséria e horror a raça humana teria poupado se alguém tivesse arrancado as estacas e preenchido o buraco para gritar aos seus companheiros: 'Acautelai-vos de escutar esse impostor. Você estará perdido se esquecer que os frutos da Terra pertencem a todos e que a própria Terra não pertence a ninguém!'"

Jean-Jacques Rousseau

Geringonças Visíveis


O visível é o meio
que o invisível usa
que a inconsciência busca
para se
manifestar

Agora querem nos convencer de que somos apenas máquinas biológicas. Não mais do que um amontoado de moléculas e estupidez.

Na voz dos cientistas (e outros desatentos), este corpo do qual sou habitante é meu hardware.  Afirmam que, para comandar o humor deste emaranhado de carne, osso e nervos, dependemos da matemática dos elementos químicos.

Segundo aqueles sujeitos, se meu cérebro (disco rígido desta geringonça visível) estiver faminto por serotonina, não realizará suas sinapses de acordo com o programado. Ele me dirá para me esconder sob quatro cobertores, e só sair em caso de novo dilúvio.

Mas quando o hard disk for saciado, ele me fará pular todos os carnavais de Recife e Salvador. Na Quarta Feira de Cinzas me levará para Ibiza, na quinta para o hospital.

Esses materialistas de microscópio proclamam a verdade naquilo que podem ver, pensam que está no visível a causa da angústia, da alegria, do medo, do barulho no motor.

Mas, se entrarmos em guerra contra os cientistas levando lógica e matemática como armamento, a derrota tende a ser vergonhosa.

Como então convencê-los que é no visível que o invisível pode ter nariz, bocas, orelhas de abano, e outras coisas de sentir e aprender?

Não com prosa, por certo. Que tal com cantigas?

(Dica aos cientistas: quanto mais rápido conseguir ler, mais rápido vai compreender.)

O Carpinteiro Hipotético
Que do corpo quis apetrecho
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Já vai fazer entender
Que entender o invisível
Somente será possível
Se você desentender

A cantilena da alma,
Que pra depressa aprender recita
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê
Vai te trazer a calma
Porque esta chama, maldita,
Talha, estala, crepita
Bem dita te faz arder
Pra esculpir no quê se vê,
Pra esculpir no quê se vê

Se aos esses dessas espinhas
Não sucedem desassossegos
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver
Só aceite o Ser sensível
Sutililizar o visível,
Seu cientista sem saber
É só sentir sonhar sorver
É só sentir sonhar sorver