sábado, 14 de março de 2015

Tapa de Novela


Beijo sem fronteiras


Antigamente usava-se a expressão beijo de novela para definir aquele beijo lânguido ou ardente, aquele contato de lábios e línguas técnicas que obrigavam Abigail a desviar os olhos da TV.

Beijo de novela, vejam só... A Vênus Global e Platinada havia alcançado o status de precursora dos beijos. O Beijo. Completo. Escandaloso.

Mas para gregos e franceses não há escândalo algum em nossas exibidas línguas televisivas.


Se as modalidades de beijo associadas àquelas nacionalidades fossem praticadas pelo Comendador e pela Imperatriz, os Marinhos teriam suas bochechas estapeadas em praça pública.


Evolução do beijo

Até os anos 80, para indicar que mocinho e mocinha se engalfinhavam sob lençóis, a câmera percorria o quarto, mostrava um abajur aceso, a porta fechada, o vestido no chão.


Uma musiqueta melada na vitrola confirmava os amassos. Abigail saía da sala e ia rezar o terço.

Depois começaram a aparecer quatro pezinhos intercalados sobre o colchão, um mexe-mexe nervoso, e a musiqueta se fez acompanhar de suspiros.

Mais tarde um ou outro seio surgiu, coxas se entrelaçaram, globais correram para as academias e Abigail foi ler o Apocalipse.

Hoje o bafafá concentra-se no beijo gay. As opiniões podem ser medidas em uma escala que vai de quebra de tabus à causa da dissolução de famílias.


Mas todos esperam ansiosos o fim do Jornal Nacional. Depois do boa-noite do Bonner, Lima Duarte e Ary Fontoura vão finalmente dar aquela bitoca.




Sutileza Zero

Autor e diretor fariam melhor trabalho se optassem por delicadas indicações, pelo pequeno sussurrar do amor que acontece naquelas doces penumbras. 


Ganharíamos em arte, tempo e bom gosto. E manteríamos Abigail confortável no sofá.

O fato é que não se trata do conforto de Abigail. Moralismo não pode ser o eixo dessa balança que oscila aos sabores da audiência.



Tapa e caviar

É curioso perceber a ausência de embaraços quando, entre propagandas subliminares e mensagens edificantes, alguém dá um tapa bem dado na cara de alguém.

Existe algo mais escandaloso a ser mostrado do que esse tapa?


Assim como as cenas de sexo, o tapa e as intermináveis e repetidas cenas dos jantares em família também são prescindíveis.

Prescindível também é a ostentação que se evidencia nos rostos dos serviçais refletidos em bandejas de prata.

Não bastasse o insulto a um país que engatinha para sair do mapa da fome, as cenas de jantar são garantia de stress, tensão e conflito.

Não tem salada sem indireta, não tem lagosta sem bate-boca, não tem profiterole sem soco na mesa . 


É comum que, antes mesmo de cafezinho e licor, alguém se levante como se fosse rasgar o roteiro e chutar o contrarregra.

Abigail, que saboreia seu macarrão de salsicha regado a goles de Tang, recebe, ali no sofá, sua dose noturna de petulância e pouca-vergonha verbal.


Abigail engole seu Rivotril de imoralidade e vai dormir. Se der sorte vai sonhar com um certo homem de preto - nas mais ousadas condições.

É bem provável que, no atual contexto, o jantar em família seja mais indecente do que a cena de sexo, mais escandaloso do que as variadas manifestações humanas de afeto e sexualidade representadas num beijo.



Premissas para o tapa perfeito


Muitos dos conflitos da ceia se resolverão com um belo tapa. Mas não pode ser um tapa qualquer.


Para causar o efeito desejado sobre a já anestesiada audiência, algumas premissas básicas devem ser cumpridas:

1) Provocará mais satisfação se o tapa for desferido por um dos heróis do folhetim.
 

2) É fundamental fazer do bofete um ressonante espetáculo de desagravo.

3) Recomenda-se um risco de sangue no canto da boca.

4) Se o feliz proprietário das bochechas estapeadas usar óculos, é preciso que fiquem atravessados no nariz. E que eles sejam consertados com dedos trêmulos e submissos.



Finalmente vingados
 

A verdade é que esses aspectos sonoros e visuais do tapa cumprem apenas papel acessório.

O importante é transmitir aquela sensação de desprezo, de humilhação, de repulsa.

É a aguardada chance para que Abigail exulte no sofá. A deixa para que os lábios desenhem um semi-sorriso de satisfação.



Eu vejo você na Globo

- Ora - defende o patrão -, novelas representam a sociedade. Se há tapa na vida real, é legítimo que tapas estalem na telinha.

Mas, afinal, qual é mesmo a sociedade que a novela representa?

A sociedade multirracial que resume a população não-branca a três ou quatro gatos pingados em posições subalternas?

A sociedade dos estereótipos? Não é geralmente no núcleo pobre que surgem personagens caricatos, idólatras do mundo dos ricos, tolos inaptos para manejar garfo e faca ou incapazes de admirar uma obra de arte?

Não, a exibição de tapas em close-ups não visa representar a sociedade. Menos ainda pretende criticar o ato.


O tapa na cara dirige-se à horda raivosa em frente à TV. Não como representação, mas como incentivo.

A lição é óbvia: paga-se na mesma moeda. O mal pelo mal e estamos quites. 


A exibição de tapas mira o sentimento sórdido de uma sociedade em busca de vingança.

Espectadores sedentos por revanche libertam suas frustrações diárias naquele redentor encontro de mãos espalmadas e rosadas bochechas.

Então responda nossa enquete: Tapa na cara pode nos redimir?


Muito longe da redenção, a desforra é sinal de nossa incapacidade de chegar ao destino do caminho que pensamos percorrer - o caminho que começou com primatas irracionais e aponta para aquilo que se chama humanidade.

Ou nos tornamos humanos de vez ou permaneceremos neste estágio intermediário entre homem e bicho, assumindo um ou outro de acordo com as circunstâncias.


Quando somos humanos?


Somos humanos quando aprendemos que a missão consiste em aumentar o contingente de homens de boa vontade.

Somos humanos quando sabemos nos colocar no lugar do outro antes de julgar.

Somos humanos quando sofremos o sofrimento alheio.

Somos humanos quando usamos da delicadeza somente possível a esses cidadãos inteligentes e sensíveis que pensamos ser.

Da inteligência e sensibilidade nasce o exemplo. Nasce o desejo de contagiar o outro com o próprio desprendimento, a inesperada manifestação de perdão ou o providencial e educativo tapa de pelica.

Mas há sempre um macaco raivoso que grita lá das cavernas de nossa incivilidade. E acabamos nos rendendo ao bicho.


O bicho homem não é um bicho qualquer. Ele alia a irracionalidade da fúria ao cálculo astuto e perverso que o levará, ao mesmo tempo, à liberação de seus instintos e à satisfação de uma alma oprimida.


Quando somos bichos? Que tipo de bicho somos?

Somos bichos ardilosos sempre que esperamos o momento exato para dar o bote e submeter a presa.

Somos bichos cínicos quando julgamos os crimes de criaturas da mesma espécie com a inflexibilidade de quem nunca cometeu crime algum.

Somos bichos bichos quando defendemos a lei do mais forte.


É da natureza – dizem uns.

Também a evolução é lei da natureza. Evoluir da lei do mais forte para a lei dos iguais deveria ser o anseio dos homens.


Tapa na própria cara

O tapa na cara simboliza a negação da dignidade do outro e de nós mesmos.


O tapa na cara expõe a degradação de uma espécie que se orgulha de usar espírito e intelecto para resolver as contendas terrenas.

Não foi a TV que inventou, gregos e franceses não reivindicam autoria, mas aí está algo que deveria nos deixar embaraçados. 


Ai está o que deveria desnudar nossa infantilidade emocional.

Ai está o sonoro, obsceno e ultrajante tapa de novela.

Mas, para Abigail e nossa sociedade doente, a indecência não está no tapa, no pontapé, nas armas, no sangue que brota na tela. A indecência não está na promoção do ódio.

Para Abigail e nossa sociedade doente, a indecência está no beijo. A indecência está no amor.




quarta-feira, 11 de março de 2015

A Divina Matrix

painting by michael cheval

(O texto a seguir é a desengonçada tradução de um trecho do livro The Divine Matrix, de Gregg Braden, publicado pela Hay House.)


Em 1854, o Chefe Seattle advertiu os legisladores de Washington que a destruição da vida selvagem da América do Norte teve implicações que vão muito além dos tempos atuais e ameaçam a sobrevivência das gerações futuras.

Com uma sabedoria que permanece tão profunda hoje como era em meados do século 19, o chefe afirmou: "O homem não tece a teia da vida, ele é meramente um fio dela. Tudo o que ele faz com a teia faz a si mesmo ".

O paralelo entre a descrição do nosso lugar na teia da vida e nossa conexão com (e dentro) da Matrix Divina é inconfundível. Como parte de tudo o que vemos, nós somos participantes de uma conversa sem fim, um diálogo quântico com o nosso mundo, conosco mesmo e além.

Dentro desse intercâmbio cósmico, os nossos sentimentos, emoções, orações e crenças representam nosso falar com o universo. E tudo, desde a vitalidade de nossos corpos até a paz no mundo, expressa a resposta que o universo nos dá.


O que significa participar no Universo?
 

O físico John Wheeler sugere que nós não somos coadjuvantes no que ele chama de um universo participativo, diz que cumprimos o papel principal.

A chave para a proposição de Wheeler é a palavra participativa. Neste tipo de universo, você e eu somos parte da equação. Nós dois somos catalisadores para os eventos de nossas vidas, assim como os experimentadores daquilo que criamos.

Nós somos parte de um universo que é um trabalho em andamento. Nesta criação inacabada, somos pequenos remendos do universo que olha para si mesmo e se constrói.

A sugestão de Wheeler abre a porta para uma possibilidade radical: se a consciência cria, então o próprio universo pode ser o resultado dessa consciência.

As opiniões de Wheeler foram emitidas no final do século 20, mas não podemos deixar de relembrar a declaração de Max Planck, em 1944. Planck diz que tudo existe devido a uma mente inteligente - o que ele chamou de a Matrix de toda a matéria.

A pergunta a ser feita é simples: que mente é essa?

Em um universo participativo, o ato de focar em nossa consciência – a consciência de nós mesmos procurando algum lugar no mundo e examinando esse mundo - é um ato de criação de nós mesmos, em nós mesmos.

Somos os únicos a observar e estudar o nosso mundo. Nós somos a mente (ou, pelo menos, parte de uma mente superior), como descreveu Planck. Para onde quer que olhemos, a nossa consciência constrói algo para que possamos ver.

Em nossa busca para encontrar a menor partícula da matéria e na nossa tentativa de definir os limites do universo, o raciocínio de Planck sugere que nossas buscas e tentativas talvez sejam vãs.

Não importa o quão profundamente observemos no mundo quântico do átomo, ou o quão longe cheguemos na vastidão do espaço exterior, o ato de olharmos com a expectativa de que algo existe pode ser exatamente a força que cria algo para que possamos ver.
Ignacio Nazabal

Um universo participativo - exatamente o que isso implica? Se a consciência realmente cria, então quanta energia nós realmente precisamos para mudar nosso mundo? A resposta pode surpreendê-lo.

Um visionário de Barbados do século 20, conhecido simplesmente pelo nome de Neville, talvez tenha sido mais feliz em descrever nossa capacidade de realizar sonhos e trazer vida à imaginação.

Através de seus inúmeros livros e palestras, em termos que são simples, mas diretos, ele compartilhou o grande segredo de como navegar nas muitas possibilidades da Matrix Divina.


Da perspectiva de Neville, tudo o que experimentamos - literalmente tudo o que nos acontece ou é feito por nós - é o produto de nossa consciência e absolutamente nada mais.

Ele acreditava que a capacidade de aplicar esse entendimento por meio do poder da imaginação é tudo o que nos separa dos milagres de nossas vidas.


Assim como a Matrix Divina fornece o recipiente para o universo, Neville sugeriu que é impossível que qualquer coisa aconteça fora do recipiente de nossa consciência.
Anthony-Gadd
Mas como é fácil pensar de outra maneira! Imediatamente após os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, as perguntas que todos faziam eram: "Por que eles fizeram isso com a gente?" e "O que nós fizemos para eles?"

Se há de fato um único campo de energia que conecta tudo em nosso mundo, e se a Matrix Divina funciona da maneira que a evidência sugere, então não pode haver eles e nós, somente nós.

Estamos todos conectados no que pode ser a forma mais íntima que se possa imaginar: através do campo da consciência que é a incubadora de nossa realidade.

Juntos, podemos criar a cura ou o sofrimento, a paz ou a guerra. Isso pode muito bem ser a implicação mais difícil que a nova ciência está nos mostrando. E isso também pode ser a fonte maior de nossa cura e sobrevivência.

O trabalho de Neville recorda-nos que talvez o maior erro em nossa visão de mundo é olhar para as razões externas dos altos e baixos da vida. 


Embora existam certamente causas e efeitos que podem levar aos acontecimentos de todos os dias, eles parecem se originar em um tempo e lugar que aparecem completamente desconectados do momento.

Neville compartilha o ponto crucial do maior mistério a respeito de nossa relação com o mundo que nos rodeia: "A principal ilusão do homem é sua convicção de que existem causas que não o seu estado de consciência".



Mas o que isso significa? Essa é a questão prática que surge naturalmente quando falamos sobre a vida em um universo participativo.

Ao indagarmos quanta energia nós realmente precisamos para a mudança em nossas vidas e em nosso mundo, a resposta é simples:

Esse recurso nos está disponível através da maneira com que usamos o poder da consciência, e onde escolhemos colocar nosso foco. Em seu livro O Poder da Consciência, Neville oferece exemplos de casos que ilustram clara e precisamente como isso funciona.

Uma de suas histórias mais comoventes permaneceu comigo durante anos. Trata-se de um homem de 20 anos que tinha sido diagnosticado com uma doença cardíaca rara que os médicos acreditavam ser fatal. Casado e com dois filhos pequenos, ele era amado por todos que o conheciam.

Quando pediram a Neville que falasse com ele, o homem tinha perdido muito peso e encolheu para quase um esqueleto. Estava tão fraco que até mesmo a conversa foi difícil. Ele concordou em simplesmente ouvir e mostrar sua compreensão enquanto Neville compartilhava com ele o poder de suas crenças.

Do ponto de vista da nossa participação em um universo dinâmico e evolutivo, pode haver apenas uma solução para qualquer problema: a mudança de atitude e de consciência.

Com isto em mente, Neville pediu ao homem que sentisse como se sua cura já tivesse ocorrido.

(Como o poeta William Blake sugeriu, há uma linha muito tênue entre imaginação e realidade: "O homem é todo imaginação". Assim como o físico David Bohm, Blake propõe que este mundo seja uma projeção de eventos em um reino mais profundo da realidade. Através do poder de concentração nas coisas que criamos em nossa imaginação, damos-lhes a cutucada que ultrapassa a barreira do irreal para o real.)

Neville explica como ajudou seu novo amigo a transformar a maneira de pensar: 


"Eu sugeri que, em imaginação, ele visse o espanto do médico ao encontrá-lo recuperado, contrário a toda a razão, a partir dos últimos estágios de uma doença incurável. E que ele visse o médico o examinando e que o ouvisse repetir : ‘É um milagre, é um milagre’. Bem – disse Neville -, você pode adivinhar a razão pela qual eu estou compartilhando esta história: o sujeito se recuperou."

Meses depois, o visionário recebeu uma carta informando que o jovem tinha apresentado recuperação verdadeiramente milagrosa.

Mais tarde voltaram a se encontrar. Neville descobriu que ele estava em perfeita saúde, aproveitando a família e a vida.

O segredo - o homem revelou - foi que, ao invés de simplesmente desejar a recuperação, ele tinha vivido a partir da "hipótese de já estar bem e curado".

E aqui encontramos o segredo para impulsionar os desejos do nosso coração, de movê-los do estado de imaginação para a realidade de nossas vidas cotidianas.


Somos capazes de imaginar sonhos realizados, desejos atendidos, orações já respondidas. 

É pelo poder da imaginação que nós compartilhamos ativamente na construção daquilo que Wheeler chamou de nosso universo participativo.




segunda-feira, 2 de março de 2015

51 coisas que eu aprendi em 51 anos de vida


Em outubro do ano passado, ao completar 51 anos de idade, resolvi enumerar 51 coisas que eu aprendi da vida, do mundo, das relações humanas, dos afetos e dos pelicanos de Oregon.

Eu já estava lá pelos trinta e poucos aprendizados quando percebi que aquilo estava se tornando muito, muito pretensioso.

Do jeito que a coisa ia, com tanta coisa aprendida, eu acabaria por escrever o Manual do Homem Perfeito. Pior, baseado em mim mesmo.

Reli o que havia escrito e a ficha da impostura caiu. Aprender é fácil, sábio guru. Eu quero ver é pôr em prática o aprendido.

Aprender e não praticar é o mesmo que não aprender.

Envergonhado por ter aprendido tão pouco, desisti da empreitada.

Hoje, ao reencontrar o arquivo de texto por acaso, finalmente entendi o que se passava. O problema não estava nos aprendizados não aprendidos. Estava no título.

Assim, entre o desencanto da ignorância e a providência de um título, aquilo que já foi pretensão publica-se como confissão:



51 coisas que eu deveria ter aprendido em 51 anos de vida

1. Não tentar ser corajoso, mas sereno. Coragem é crispar as mãos e partir para a briga. Serenidade é ter a certeza de que saberemos agir em todas as situações conforme elas se apresentem. Respirar. Agir ou fugir.

2. Contentamento. Valorizar o que se tem não significa comodismo, mas uma atitude de gratidão perante a vida. Reclamar é para quem não aceita as regras do jogo. Em vez de xingar o juiz, o melhor é seguir em frente. Se possível chutar a gol.

3. Buscar apenas aquilo que vale a pena. É ridículo pensar que a vida nos foi concedida para que acumulemos objetos. Que o vil metal seja usado para acumular experiências. Grandiosa é a vida. Coisas são apenas coisas.

4. A vida é uma aventura. Cada dificuldade e cada vitória são capítulos dessa aventura. Sem abatimentos e lamúrias na derrota, sem euforia na vitória. O bom e velho caminho do meio, com uma ou outra loucura para sair da rotina e esquentar essa aventura de viver.

5. Não posar de vítima das circunstâncias. Nossa felicidade não pode depender do que não depende de nós. O problema (qualquer um) é sempre responsabilidade nossa. A solução do problema está sempre em nossas mãos. Somos os únicos guardiões da vida que nos foi dada.

6. Problema sem solução = problema solucionado. Vamos em frente. Em caso de perseguição, aconselha-se correr em zigue-zague.

7. Sempre cometemos os mesmos erros vida afora. E sempre tentamos as mesmas soluções. Seguir o mesmo caminho só pode dar no mesmo lugar. Inovar é o segredo. Pode até dar errado, mas ousadia já é vitória.

8. Atalhos são geralmente mais longos do que o caminho original. O caminho original é o caminho do certo, do justo, do honesto, do desinteressado.

9. O bem maior é a liberdade.

10. Consciência tranquila – primeiro passo para a liberdade.



11. Perder o desejo de agradar todo mundo. Ninguém consegue. Nem Deus - que tudo pode e pouco agrada.

12. Algumas batalhas devem ser lutadas até a morte. Ou até a perda dos dentes – o que vier primeiro.

13. Saber a hora de se retirar de uma batalha. Se o jogo é sujo, você vai acabar se sujando. Esqueça aquele carrinho por trás - melhor ir mais cedo para o chuveiro.

14. Algumas batalhas não merecem ser lutadas. A frase é velha e foi expressa ali em cima. Também é velha a mania de transformar uma fechada no trânsito em guerra mundial.

15. Outra dificílima: aprender que o diálogo é mais importante do que o debate. Debater exige uma visão certa, outra errada. O diálogo pode permitir uma terceira visão, além dos tradicionais conceitos de certo e errado.

16. Governos não devem interferir na vida pessoal de ninguém. A liberdade não foi dada pelo homem, pelo homem não pode ser retirada. O que cada um faz com próprio corpo, com suas atitudes, com seus hábitos, vícios e comportamentos só deve interessar às autoridades se, de alguma forma, o indivíduo representar um risco real à sociedade. Mesmo assim, a interferência somente deve ser admitida quando a sociedade não dispuser de instrumentos construtivos para prevenir ou reparar esses riscos.

17. A sociedade ideal seria a sociedade sem leis, sem regras, sem proibições. A resolução de todos os conflitos se daria sob a divina luz do Bom Senso.

18. Poucas verdades são tão universais: preconceito tem as raízes fincadas na ignorância.

19. A história é realmente um ciclo. Preconceitos do passado reaparecem nos filhos de quem preconceitos quebrou. Os jovens estão velhos. Mas pensam que são rebeldes.


20. A maioria dos preconceitos é fácil de rebater: o outro é o outro. Você não tem que gostar nem desgostar do que outro é ou faz. Você não precisa se importar com quem o outro se deita. Tudo isso só diz respeito ao outro e a ninguém mais. Relaxe.




21. Eu posso ser feliz com poucas posses e pouco dinheiro. Mas os que são infelizes com mais posses e mais dinheiro sempre me lançarão olhares de piedade. Ser feliz sob tais olhares é a verdadeira provação.

22. Somente a arte nos liberta da ignorância e da matemática.

23. Ter fé significa ausência de preocupações. Não faz sentido ter fé e desesperar-se. Desesperança e fé são antônimos.

24. Ter um destino, mas aproveitar a viagem. Enquanto não encontrar o par perfeito, enquanto não ficar rico ou famoso, apreciar a paisagem. Só é possível ser feliz agora.

25. Somos, a maior parte do tempo, vítimas da própria imagem. O extrovertido nunca pode estar pensativo, o tímido nunca pode dançar sobre a mesa. É essencial não incorporar essa imagem estática. Quebrar a imagem sempre que der na telha, rir das caras de surpresa ou reprovação.

27. Sim, há males que vêm para o bem. É preciso tempo para observar e perceber. É preciso paciência. Então será possível realizar conexões, examinar as razões do destino e admitir que, sem aquele mal, o bem jamais teria acontecido.

28. Tudo é psicológico. Os fatos em si não têm importância. O que torna um fato pior ou melhor é a maneira que cada um de nós o encara. Mesmo o cenário que eu encontrar depois da morte vai depender do meu estado de espírito no momento em que eu bater as botas. Se a culpa estiver presente, é possível que eu veja vultos e lamentos. Se a consciência estiver em paz, verei anjos, jardins e pedras preciosas.

29. Comunicação nunca é problema. Se duas pessoas desejarem se comunicar, elas encontrarão um jeito. Conheci um italiano e um polonês que eram amigos - e um não entendia a língua da outro.

30. “Não falo tudo o que penso, eu falo tudo o que ouso. E ouso cada vez mais à medida que envelheço.” Essa frase eu li há uns 20 anos numa entrevista de jornal. O autor ficará sem créditos, mas, para quem procura vantagens no envelhecer, ali está uma boa filosofia a ser seguida. A verdade deixa de vir de caso pensado. Passa a ser verdade instantânea, inesperada. A verdade começa a usar os que envelhecem como instrumentos para que seja dita.


shania-mcdonagh
31. Algumas verdades não precisam ser ditas. Especialmente as que não me dizem respeito.

32. Existe um jeito certo de apresentar um ponto de vista. Se meu objetivo é convencer o outro, então é preciso ouvir o outro, entender o outro e respeitar o outro. Depois, devo expor meu ponto de vista como se o objetivo não fosse convencer o outro. Se o outro não acreditar na minha verdade, não haverá santo que convença o outro.

33. A minha verdade é só a minha verdade. A verdade do outro é outra verdade, mas a convicção é a mesma.

34. Governos não vão mudar o mundo. Governos não querem mudar o mundo. Governos querem poder.

35. BOSSOCO - Bom Senso, Solidariedade e Cooperação - essa deveria ser a base de todas as sociedades.

36. Amar é uma merda. Não amar é pior.

37. Euforia e desespero são as duas faces da moeda do equilíbrio. É preciso manter a moeda em pé. Uma vez aprendida, a paz de espírito se encarregará de sustentar o eixo.

38. Já foi dito em verso, agora será dito em prosa. O poeta Manoel de Barros escreveu que “homem é rascunho de pássaro, não acabaram de desenhar”. Com toda a admiração que Manoel merece, homem é bem mais do que pássaro. Homem não precisa de asas. Pássaro algum alçaria os vôos que a imaginação humana é capaz.

39. É possível aprender qualquer coisa. Tudo o que se precisa é dedicação.

40. Pessoas mudam sim. Mas, para que mudem, sempre será preciso uma grande dor, uma iluminação súbita ou o testemunho de uma magnânima demonstração de humanidade. É nos sentimentos mais profundos que surge aquele estalo de realidade que nos obriga a ver com outros olhos.

42. A maioria das religiões age como se seus deuses fossem meros juízes. Os deuses estão lá apenas para recompensar o bom e punir o mau. Deus não pode ser caminho, mas destino. Não pode ser utilizado como uma ferramenta para resolver a vida. Através da vida, dependendo da forma utilizada para resolvê-la é que se chega a Deus. Essa é a verdadeira recompensa - porque deve ser bom demais estar em todo lugar.

41. Deus é indescritível.



42. Poucos arrependimentos são piores do que o arrependimento de não seguir a própria intuição.

43. Meditação é o caminho para a consciência, para o bem estar, para a sabedoria e para a serenidade.

44. Consumismo é o mal do mundo. Consumismo é o eixo torto da sociedade em torno do qual giram a vaidade, os vazios de cada consumidor, os interesses da classe dominante, a valorização da coisa e do dinheiro, a ostentação e as desigualdades sociais.

45. Quando criança, eu tomei a seguinte decisão: “Eu jamais vou dizer que criança não pensa. Vou ter 80 anos e vou continuar sabendo que criança pensa sim.” Venho mantendo a promessa. Crianças podem até não saber expressar aquilo que pensam, mas que aquelas cabecinhas dão voltas, disso você pode ter certeza.

46. A verdade liberta. A mentira aprisiona. Omissão da verdade não significa tecnicamente mentir, mas pode aprisionar tanto quanto a mentira.

47. Trabalhar no que dá prazer é uma dádiva. Nenhum dinheiro paga décadas de insatisfação e paletós.

48. Quem deixa a terra natal jamais será completo - mesmo que voltar. Para o resto da vida vai faltar algo que aqui estava e não está mais. Quanto maior o número de endereços, mais incompleto será. (No fundo, quem permanece no torrão natal também será incompleto. Porque vai sentir saudade das pessoas que partiram. E até das que não conheceu.)

49. A certeza é inimiga da sabedoria. Ninguém deveria ter pressa para adotar verdades. É preciso perguntar muito, para muitas pessoas, em muitos lugares e por muito tempo. Somente depois - se preciso - convém abraçar uma ou outra convicção.

50. Pessoas são pessoas em todo lugar. Diferentes culturas e idiomas, diferentes modos de viver. Mas os mesmos temores, as mesmas dúvidas, as mesmas diferenças.

51. Aldous Huxley dizia que o cérebro não produz nada, que o cérebro é apenas um filtro para as idéias que vagam por aí. Se mantivermos as malhas desse filtro muito fechadas, apenas idéias pequenas podem entrar. Se, ao contrário, permitirmos que as malhas do filtro se expandam, estaremos dando acesso às grandes idéias. O principal responsável pela redução das malhas do cérebro é o preconceito.


~~~~~~~~

Acabei de ouvir no History Chanel uma informação a respeito da moleira. Moleira é aquela abertura no crânio do bebê que facilita o nascimento e permite o crescimento do cérebro.

Fiquei surpreso e preocupado ao saber que a moleira somente se fecha totalmente ao completarmos 35 anos. Seria a moleira uma indicação física das tais malhas do cérebro que, na maioria dos casos, se fecham com o envelhecimento?

Será que depois dos 35 apenas se preservam velhos conceitos e aprimoram-se os vícios, deixando as novas idéias às intempéries, sem mais acesso aos interiores da caixa craniana?

(Poderia ser bem pior: no meio médico, diz-se que a moleira se fecha em torno do 9º e 15º meses de vida.)

O jeito é ficar atento e não depender de moleiras. Pescar idéias no ar, provar um novo sabor, ouvir o que nunca foi ouvido, olhar de outro modo e se desfazer do baú de hábitos e certezas.

Mas que raios a moleira veio fazer numa lista de aprendizados?

Veio refutar o afirmado lá na introdução. Veio dizer que aprender por aprender, sem preocupação com aplicação prática, pelo simples prazer de aprender, é um pouco como viver.

Não sabemos por que se vive, não se sabe para que serve tudo isso, mas continuamos a viver - pelo simples prazer de viver.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Sina













Noite de versos, lamentos
ajoelhado aos pés da rima
Mãos em prece no peito,
olhos voltados pra cima
Em seu devoto soneto,
ele recita uma sina

Primeiro foi Rosa,
mais beata não havia
Era tanta santidade
que rezava todo dia
Foi ungida pelo padre
no calor da sacristia

Depois foi Beta, a perua,
metade de sua idade
Desfilava pelas ruas
e nas festas da cidade
Acabou ficando nua
pra virar celebridade

Mais tarde, Beatriz,
que diziam ser demente
Tirou dele o que quis:
as calças, a alma, a mente
Foi por apenas um triz
que lhe sobraram os dentes

Em seguida veio Paula,
peituda, bunduda, bombada
Todo dia tinha aula,
supino, pico e pedalada
No bíceps do personal
se excedeu na pegada

Então, Vera, a poetisa,
que chegou como quem sonha
Trouxe flores e brisas,
mas adormeceu tristonha
O amor acordou em cinzas
do cigarro de maconha

Dizendo viver de prana,
Maya veio afinal
Buscava pelo Nirvana
com luz, yoga e cristal
Tentou levá-la pra cama,
só levou o corpo astral

Então foi beijar a boca
da musa do baile gay
Mas logo dormiu de touca
caiu o cetro do rei,
e a rainha da vida loka
nas pickups do DJ

Decide tomar um porre
e no auge da bebedeira
Sorri como quem morre,
sacode pouca poeira
Finalmente Deus socorre
nos lábios da bela freira

- Deus sabe que mereço
e que eu sempre fui fiel
Já teve tanto endereço
o meu corpo de aluguel,
só não posso pagar o preço
de um pedacinho no céu

- Deus é amor, meu querido,
e você precisa de um lar
Mas não é somente abrigo
aquilo que eu vou te dar
Muito mais que ombro amigo,
uma cruz pra carregar

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Um e Outro



Um, Marx
Outro, Leminski
Um, Lênin
Outro, Lenine
Um, vermelho
Outro, anil
Um, água
Outro, cantil
Um, Nicarágua
Outro, Brasil
Um, flores
Outro, fuzil
Um, imóvel
Outro a mil
Um, dinamite
Outro, pavio
Um, quadrilha
Outro, quadril
Um, quente
Outro, febril
Um deitou-se
Outro caiu
Um teve filho
Outro pariu


Leia também:
Preferência

sábado, 24 de janeiro de 2015

Deus e Ramones nas Geleias do Amor


Alguém mais talentoso enfrentaria estas primeiras linhas como um desafio. Porque depois de tantas definições, depois de tanta violência e poesia, imagine o prazer que seria encontrar o derradeiro primeiro parágrafo a respeito do Amor.

Glória descartada, façamos como os apressados: este amor, já tão bem passado, aqui se come cru.

Que o começo fique para depois.

Que se comece pelo fim:


Onde termina o amor?

Onde é que o amor definha ou implode e cada um vai buscar a melhor maneira de ressuscitar?

Para Paulo Mendes Campos, "em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba".

Se o amor acaba em tantos lugares, em tantos horários e por tantos motivos, sorte daqueles amantes que vencem territórios, tempos e razões. E ainda param para se beijar sobre a corda bamba.

Há quem diga que amores nunca acabam, mas se transformam.

Já digo eu: Ué! Por acaso, aquilo que se transforma ainda é?

Ou será que o amor pode ser essa geleia embalada nos papéis das circunstâncias com um lacinho de hipocrisia?


Termina no Amor Geléia
 
A qualquer momento, um amor assim, metamorfose, pode se tornar ódio ou rejeição. 


Periga sair sapatada, aleluia, exclusão do Facebook e arremesso de alteres. Alguém pode até morrer, então se abaixe.

Os defensores do amor geleia alegam que, sob saraivadas de mágoas e pesos de papel, salva-se o amor. Meio torto, atravessado na goela, amor de engasgar, mas ainda amor.

Para mim, um amor assim, de revesgueio, seria como espinha entalar na garganta sem a gente comer peixe.

Porque amor, amor mesmo, se transforma em mais amor. Aquele outro, convertido em dores e asfixia, já não pode ser chamado assim. Porque amor, amor mesmo, também acaba.


Termina no Amor sem torradas

Mas pior que espinha sem peixe é quando o amor termina nos pequenos rituais esquecidos, no boa-noite que havia e que deixou de existir, no sono que vence carícias.

E nos frequentes descuidos:

Não, ela não deveria ter comido aquele último pedaço de pudim.

Ele está careca de saber que o absorvente dela é sem abas.

Ele está careca.


Ela está careca.

Ela já não aplaude a performance dele no solteiros contra casados da terça-feira.


Ela torce para os solteiros.



O Pior dos Fins

Tudo isso até poderia ser admitido, mas os pobres diabos caíram na mais comum das armadilhas: acostumaram-se à falta de torradinhas no café da manhã.

E agora não há mais migalhas sobre o lençol, nem aquele cresh cresh cúmplice de quem mastiga os primeiros momentos do dia. Nem aquele momento em que ela, nua, sai do quarto com bandeja, torradas e provocações.

Agora, sem provocações ou torradas, de paletó e cuecas, ele já está na cozinha para tomar um todynho. 
Bebe, sem pressa, esses pequenos desamores e descasos Em cada gole de achocolatado, o amor se vai.

E acaba no pior dos fins. Foi abatido pela letargia, feneceu. Olha que singelo: não foi regada a flor.

Restam dois seres murchos que se arrastam em meio a controles remotos, através de corredores e cozinhas. Carregam algumas cruzes e algumas sacolas de desalento.

Anne Schreivogl
Termina no Amor que parece mais Amor

O amor termina até mesmo onde parece mais amor. Parece mais amor quando se diz que amar é ver feliz aquele que a gente ama - ainda que feliz nos braços de outro amor.

Esse desprendimento todo pode até ser chamado de amor, mas é o amor que se foi com o amado.

Porque amor, o amor romântico, há que ser egoísta. O amor quer seu amado feliz - mas um feliz tão pertinho que faça feliz a quem ama também. 

Afinal, que amor é esse que fuzila a autoestima, que consome o amor próprio, que desova nossa confiança junto aos panos de chão?

Que? Amor platônico?! Vem cá, benzinho, que eu te quero junto de mim.


Outras formas de o amor terminar

Há amores que acabam quando perdão e compreensão transitam por vias de mão única.

Há amores que acabam no perdão do imperdoável, na compreensão do incompreensível. (Vai o alerta: esses amores também podem causar engasgos.)

Há amores que acabam num sobressalto, morte não anunciada. Muitas vezes sem causa aparente, geralmente sem marcas no pescoço.

Há amores que acabam no começo de outros amores.

Há amores que acabam no excesso de amor, nos xiitas da paixão.

Há amores que pensam ser possível viver de lembranças e migalhas. Costumam morrer de amnésia e inanição.

Se a gente pensar bem, existem tantas formas de terminar o amor que parece até um milagre que ainda sobreviva. E com uma disposição para começar!


Onde começa o amor?

Você sabe, é lá no umbiguinho que começa o amor. É dito o único amor incondicional, o amor de mãe - primeira, verdadeira e eterna amiga do peito.

Mas aqui ninguém quer botar a mãe no meio - a psicologia que se encarregue do bem e do mal provocado por um amor assim. Ou da falta dele.

O amor do qual tratamos - esse de peles e nervos e corpos furiosos - começa como termina: em qualquer lugar.

O Amor começa no encontro da Rebouças com a Champs-Elysées

Acontece nas esquinas do mundo. Você já viu em filmes. Um vem de cá, outro de lá. Lá e cá se trombam. Sempre espalham livros, frutas ou taças de cristal. Então se ouve aquele balbuciar de desculpas e há um início de repreensão:

- Por que você não olha por onde...

É coisa de se arrepender. A partir daquele olhar, não haverá mais sossego. O coração já quer saltar boca afora. Deus, que lindo olho tatuado! Credo! Mulê bonita da porra!

Mas não é tatuagem e boniteza. É aquilo que tentamos descrever lá e cá. É aquilo que, indescritível, germina - o instantâneo rebento do amor.

E ali tudo começa como começa em todo lugar. E ali tudo começa como se não fosse mais terminar.

Talvez nem termine mesmo. Mas se terminar que termine com brandura, sem mágoa ou desilusão.

Que termine como nos filmes: com belas paisagens de fundo e algumas lágrimas para o amor que morre ao som das pás de um moinho de vento.


O que quer o amor?

Amor quer picolé compartilhado enrolado nos lençóis.

Quer um bule de café quentinho para iniciar o amanhecer.

Amor quer olhares cúmplices no auge chato da festa.

Amor precisa daqueles três apertinhos na mão que dizem “simbora daqui” - e que os três apertinhos sejam compreendidos.

Amor quer massagem nos pés.

Quer cheiro de bergamota.

Também quer braços e regaços acostumados e gentis.

E todos os jeitos, suspiros e sorrisos de dizer amor.


Amor rock’n’rool

Mas é claro que, graças ao bom Deus, amor não é apenas cumplicidade, não se fia em gentilezas, não se asila em reduzidas formas de amar.

Porque de vez em quando, com frequência não receitada, é preciso rugir um amor rock’n’roll.

Então é aquilo tudo que você sabe: sensações desmedidas, amantes em labaredas e suas piras de paixão.

São eles mesmos, você está certo, aqueles que vêm em vendavais.

Eles dão cambalhotas e caem em posições obscenas.

Eles se jogam mutuamente contra paredes de cetim, chutam as portas do saloon, despem as vedetes, dançam sobre fogo cruzadoAlguns depois se desculpam com o xerife.

Todos vêm em amorosas orgias particulares. Cultivam uma obsessão por puxar cabelos, exibem lábios mordidos e o olhar feliz dos colchões.

Revelam preferência por sussurros sem pudor.

Têm aptidão para certas expressões de alcova e práticas desavergonhadas.

Costumam manifestar tendência para lascívias e aquele descaramento todo de amar sem freios.

A maioria é de devassos, depravados, imorais. Ah! Essa gente se diverte.

Tem os que ouvem Gardel em meio à fumaça de cigarros proibidos. Depois sonham com ninfas que cavalgam sátiros sobre os campos de Sade.

Tem os que recitam Manoel de Barros nas madrugadas. São os que descobrem o menino que carregava água em peneira - o mesmo que construiu uma casa sobre orvalhos.

Todos beijam de corpo inteiro, arrebatam-se, não temem o ridículo nem pausas para gargalhar.

Em todo lugar sentem perfume de sofreguidão. Nas frestas da noite, aceitam o paladar das plantas carnívoras.

Ao som de certas palavras, estremecem. Então fazem coro à luxúria, à volúpia, ao deleite, ao êxtase. 

Alguns até dizem amém.

Que Ramones os abençoe e Deus faça vista grossa. Porque tem coisas que são da Terra, tem coisas que são da carne. E tem essas coisas que são da mulher, do homem, das gentes, do amor.

Para os maiores pecadores, perdão eterno. Para os maiores pecadores, deliciosas noites de suor, paixão e rock'n'roll.

Aleluia, Joey Ramone. We're ready to hell.