domingo, 1 de outubro de 2017

O homem que não mora aqui

Image credit: Ales aka Dust To Ashes

Aquele que deixou para trás a terra natal e foi se procurar em outras bandas saberá do que estou falando.

Sim, você experimentou o que queria, conheceu lugares e pessoas, aprendeu o que não aprenderia em casa ou nas aulas de dona Celestina. Você entendeu melhor o mundo. Você cresceu um tanto.


Cada mudança, nova vida. É como reencarnar várias vezes na mesma existência.

Outra cidade, outros amigos, outros horários, outros prazeres, outras vitórias.

Também algumas derrotas, alguns perigos, algumas lágrimas - apenas o suficiente para te tornar mais forte e sensível, mais humano, mais preparado para reencarnações vindouras.

Com tais acréscimos, você deveria se sentir uma pessoa mais completa, não é?

Não é. 
Se há alguma coisa que você jamais vai saborear é a sensação de completude.

Você vive onde escolheu viver, trabalha no que deseja, tem os amigos que elegeu. Mas o que fazer com as lacunas deixadas pela vida antes vivida, pelas coisas que antes fazia e pelos amigos de outros tempos?

Você sente saudade, saudade incorporada à rotina - espécie de dor acostumada.

Dizem que a dor é ainda pior para quem fica. 
Tudo permanece igual, a paisagem é a mesma, o café está na mesa, o rádio ainda sintoniza a Tupanci - ladrão por ladrão vote em Tufy Salomão.

Mas alguém está faltando. Ele sempre esteve aqui. Não mais está.



Como lidar com a saudade que os outros sentem? Como aplacar a dor se a dor está em outro lugar?

Você começa a perceber que nas últimas visitas à mãe, ela não chorou na despedida. Ela não se sente mais a sua ausência?

Ao contrário. Sente do mesmo jeitinho que sentiu naquele dia que você, quase um menino, disse que era chegada a hora de voar.

Uma mãe sem lágrimas não significa ausência de dor, você sabe. As lágrimas da mãe distante correm por um rio retraído, lá dentro dela, a alimentar uma amargura.

É por isso que, naquele abraço, você já nem tem o que enxugar.

Acontece com outros que o viram crescer. Neles a saudade tende a permanecer desperta, com aquele agravante - o dos olhos secos. Eles testemunharam as primeiros passos da criança, as aflições do adolescente e viram o homem partir.

E o que dizer da saudade esquecida? Da saudade dos mais novos que ficaram, daqueles que o conheceram adulto, uns dos tantos adultos que os cercavam?

São os que sofrem menos. Na memória deles, você vai se tornando uma imagem opaca, alguém que só existe de vez em quando. Aquele que mora longe. Que sempre esteve onde eles não estavam.

Você, por ilusão ou descuido, pensou que os laços se mantivessem por si mesmos. Costumava guardá-los no travesseiro, lugar para acalantos e aflições. Ou em algum lugar mágico do futuro - lá onde todos os amores se encontram para apagar separações.

Por isso laços e amores ainda insistem em aparecer no meio da noite, naquela hora insone em que as distâncias se expandem.

São implacáveis as distâncias. Sinuosas. Mas é sua vida que pavimenta essa rodovia para o intenso tráfego de novidades, descobertas, saberes e algumas culpas.

Sim, você não é completo. Nunca será.

O homem que se move pelas lonjuras vai deixando pedaços de si mesmo pelo acostamento.

Já é tarde para recolhê-los. Seus pedaços misturaram-se à paisagem sob os passos rápidos do tempo. São poeira do passado, pairam sobre as solidões.

Não há remorso.

As pontes estão queimadas.

Sem mais retorno para o comboio das ausências.

No permanecer e no partir, é incompleta a vida. Incompleto, assombrado por seus amores, você escolheu caminhar.








quarta-feira, 12 de julho de 2017

Vinho, azeite, incenso e tapete


Repara
Tem uma fresta
de espera
embaixo da porta
Repara
Tem janela aberta
disco na vitrola
e fumaça na chaminé
Repara
Tem dois olhos negros
tem sorriso e graça
tem promessa na mulher
Repara
Tem a mesa posta
tem talher de festa
tem o vinho certo
(tinto - lá de Bento)
Repara
Tem azeite virgem
tem incenso aceso
tem lareira em brasa
para arder em beijos
Repara
Tem sorriso ébrio
citação de versos
que não se aprende
no ensino médio
Repara
Tem botão
tem zíper
colchete
tem pele roçando
na pele
e coçando no tapete
Repara
Tem um rio com perfume
- é almíscar
com gosto
- é néctar
com toque
- é cetim
com som
- é deleite
Repara
Tem risos
gemidos
tremores
tem um rio
cheio de amores
pra ninguém morrer de sede




sábado, 25 de março de 2017

No meio desses silêncios

Imagem Jodoh Kristen

Silenciosa boca


No ponto final,
uma vírgula
O que importa
ficou por falar
Como acreditar nesta língua
que contradiz o olhar?


Silencioso peito

Vem em pausas,
titubeios,
pobre coração inquieto
Deixa frase pelo meio,
cai de quatro,
de joelhos,
se lambuza de afeto
Coração,
cheio de freios,
tenta traduzir anseios
em seu próprio dialeto


Silencioso

Eu falo pouco
se devo falar
o que penso
Eu falo pouco
e o pouco que falo
é bobagem,
Preste,
  darling, 
atenção nos meus silêncios



sexta-feira, 24 de março de 2017

Tarzan contra o Mundaréu


Quando Tarzan vê a selva
de aço,
de asco
e dinheiro,
a cidade abafa o grito
de ira,
revolta,
desespero

Não há grito
que se ouça,
palavras
não são ouvidas
porque nesse surdo
faz-de-conta
de miséria dividida
cada um vai preocupado
em cuidar da própria vida

Passa carro
Passa batom
Passa gravata
Gira brinquedo de corda,
esta selva é dos primatas
Bicho aqui não sobrevive
sem rodar em quatro rodas,
sem andar em duas patas

Tarzan sobe no poste
pra assistir ao mundaréu
Tem gente comprando pano,
plástico,
enganos,
papel
Tudo bem planejado
pra tal viagem pro céu

Em sacolas,
vitrines
e olhos de espanto,
vê sonho,
engodo,
sorriso
e par de tamanco
Cada mulher,
um vazio
cada homem um desencanto

Tarzan salta pra calçada,
hesita,
respira
Cata seus carrapatos,
murmura
matuta,
admira

Tarzan!
Krig ha,
Rei dos Macacos,
ali está o seu retrato,
um manequim
e mentiras

Tarzan,
acocorado,
na vitrine refletido,
percebe que está pelado,
que gente
usa sapato
e desodorante vencido

Ei, Tarzan,
bicho abatido!
 Forje meio sorriso
e cubra suas pudendas

Ei, Tarzan
bicho esquisito!
Este mundo está à venda
Se já sabe do vexame,
leve aqui pra sua Jane
linda lingerie de renda,
uma penca de vestidos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Cadê Minha Recompensa?

Image by Jie Ma


E todos aqueles dias
que eu ralei feito louco
na vida que eu não queria
vendendo meu tempo pouco?
Eu não comia, eu não bebia
vendia água e farinha
e do dinheiro que eu tinha
não restava nem o troco

Na praça busquei o padre,
na guerra eu fui pra luta
O saldo o Senhor já sabe,
Deus entende essa pergunta,
não há boquinha que fale,
é tanta resposta fajuta

Percorri aquelas noites,
sem sono ou ventilador,
perdido da minha gente,
distante do meu amor,
ao encontro deste instante
diante de Nosso Senhor

Apelo pra Virgem Maria,
que sempre esteve a meu lado,
será que eu não merecia
algum apreço e cuidado,
anistiar minhas manias,
perdoar poucos pecados?

Eu doei para indigente
e endividei com endinheirado
E a devida recompensa
era só papo furado?
Não fui pobre nem fui rico,
mas pra Deus vendi fiado
Agora como é que eu fico
se no céu eu fui barrado?

domingo, 25 de dezembro de 2016

Um Sussurro de Trombetas

Image by David Ridley

Toda coisa pequena
que o olho não vê
que o corpo não sente
que na mente não há
repousa
me aquece
e me acolhe
nesta leitora de códigos
de barras do imperecível

Toda coisa grande demais
pra ser carregada
no bolso
no corpo
em sacolas da C & A
emerge da incerteza
e sobre o lombo dos burros
trombetas sussurram
pra me despertar

Álgebra da placidez - dois opostos se alinham na horizontal do ar
Ábaco – instrumento de cordas em dedos divinos
Sossegos - onde se desfaz segredo e ego não há
Bastam essas três definições e já temos todo o universo pra calcular



sábado, 24 de dezembro de 2016

Consultem Nossas Crianças!



Esse é da Lata

Lá nos distantes anos 70, quando eu estudava na segunda série do ensino fundamental, a direção resolveu implantar um arranjo inovador na sala de aula. 

Seguindo o revolucionário layout, os professores separaram os alunos em quatro filas de competência: Fila do Ouro, Fila da Prata, Fila do Bronze e Fila da Lata.

Por competência entendia-se a soma de alguns fatores: desempenho nas provas, comportamento na sala de aula, assiduidade, asseio corporal e com o material didático, entre outros quesitos mais ou menos discutíveis.

O curioso é que os alunos da Fila do Ouro – entre eles, eu – não se mostravam especialmente orgulhosos pela distinção. Ao contrário, parece-me que partilhávamos alguns incômodos.

Haviam nos colocado em um mundo à parte, a salvo das agruras dos boletins. De nossa ilha de excelências, olhávamos para os amigos desafortunados e pouco faltava para que esticássemos nossos braços em oferta de socorro.



O Importante é Competir

Depois da natural compaixão pela Fila da Lata, a flor da inveja desabrochou em nosso jardim dourado. E fomos nós que plantamos a semente.

Não demorou para começarmos a sonhar com o lugar reservado àqueles rebeldes de notas baixas e unhas sujas. Porque, agraciados com a inclusão na Fila do Ouro, deveríamos demonstrar permanente merecimento para continuar ali. Ninguém queria ouvir algo como: “Logo você, Heitor, da Fila do Ouro! Tsc, tsc...”

Os da Fila da Lata nada precisavam provar e ainda recebiam incentivos: “É por essas e outras, Berenice, que você nunca vai sair dessa fila.”

Você acha que a Berê queria sair?

A ideia por trás da discriminatória classificação baseava-se no incentivo à concorrência. Entendia-se (como infelizmente ainda se entende) que competição promoveria o interesse pelo conhecimento.



Farinha pouca, meu pirão primeiro

Por milhões de anos, cooperação – e não competição – se estabeleceu como base para a organização dos grupos sociais humanos.

O homem civilizado, com a divisão do trabalho, com a imposição de hierarquias e a supervalorização do poder, ignorou a experiência daqueles milhões de anos e inseriu a competição como alavanca para o sucesso.

Para o sucesso. Sucesso!
Diga não aos losers!
O indivíduo acima do grupo!
O outro como espelho, inimigo ou trampolim.
Querer é poder, faça por merecer!
Se visitar o inferno, não deixe de abraçar o capeta.



Vale o que está escrito

Alheios a comparações, antes mesmo de chegar a prezinhos, jardins e afins, nossas crianças já controlam os mecanismos complexos da língua falada. Como então explicar que elas se tornem adultas sem conhecerem as noções básicas da expressão escrita? Porque, para desespero de educadores, é exatamente isso o que acontece com embaraçosa freqüência.

Mas o que mudou no transcorrer desse processo de aprendizagem oral e escrita?

Mudou o método, mamãe. Mudou tudo, papai.

Aprender a falar foi tão fácil e a necessidade tão óbvia. Havia um mundo de palhaços caseiros, que faziam caretas, cantavam musiquinhas e repetiam dia após dia os mesmo sons, sem reprimendas, com incentivo genuíno e constante.

Entre canções, risos e tatibitates, confundiam-se e entrelaçavam-se a inseparável dupla prazer e aprendizado.

Ah, aquilo foi uma diversão!

Por que cargas d’águas então, de uma hora para outra, decidimos alterar o método utilizado para estimular nossas crianças?

Por que será que, sem aviso, sem motivo, abandonamos o posto de escudeiros desses guerreiros novatos que marcham, com seus tênis luminosos, pelas trilhas do conhecimento?

E por que os colocamos lá, no lugar estranho, entre quatro paredes desconhecidas e indiferentes?

Antes, o mundo (está bem, o quintal, o playground, a vizinhança). Agora, a visão limitada à lousa, ao caderno, à nuca do colega da frente.

Através da  janela, paisagens e promessas representam impossibilidades, lugar de não olhar, lugar de não estar, lugar de não aprender.

Presta atenção, Berê!
Chega de tantos por quês.
Pra que serve? Não importa.
O motivo? Irrelevante.
A matéria? Tanto faz.
Mas vai cair na prova de quinta.

De forma definitiva e inapelável divorciaram-se prazer e aprendizado. Ninguém sabe por que aprende aquilo que o obrigam a aprender.

Temos apenas uma possibilidade de salvação.

Esqueça teorias, processos e experiências relacionadas à educação formal.

Fale com os pequenos especialistas. Consulte as crianças.


Consultem as Crianças

Consultar as crianças? Essa é boa. O que seria consultar as crianças?

Convocá-las para reuniões no MEC, assistir suas palestras, solicitar planilhas comparativas?

Talvez não seja uma boa ideia.

Consultar as crianças não requer ouvidos ou atas de reunião. Requer espírito, mente aberta, requer a recuperação de nossos próprios estados infantis, requer encontrar o pensamento não viciado de nossa infância.

Somente consultando nossas crianças poderemos afinar nossos ouvidos emocionais e assimilar seus desejos, entender anseios, despertar interesses.

Somente consultando nossas crianças, saberemos participar de forma natural e efetiva do aprendizado de nossos meninos, de nossas meninas.

Somente consultando nossas crianças, abriremos torneiras de sensibilidade para os homens e mulheres de amanhã.

Porque o conhecimento é líquido. E essas crianças têm sede.




Mais desengonços sobre educação:
SEMENTES - Prazer em Conhecer