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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Onde está o seu Umbigo?



 "Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!

Tente! (Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Han!
Tente outra vez!"
(Raul Seixas)

Os beatniks tentaram. Os hippies tentaram. Os punks tentaram. Jovens mundo afora ainda tentam. Você deve ter tentado. Eu estou quase desistindo de tentar.

Depois de tanta tentativa, no meio de toda poeira e poucas batalhas vencidas, o poder prevalece como o supremo senhor desta guerra permanente.

Não é difícil diagnosticar as razões de vitórias e derrotas. O poder é dono de algo que nenhum movimento cultural / social possui: a Informação.

E nenhuma arma pode ser mais importante do que a Informação durante as lutas sociais. Quando aqueles que se localizam na base da pirâmide econômica exigem a redução de privilégios dos que se locupletam lá no topo, a artilharia pesada da imprensa chega de assalto.

Então basta bombardear a opinião pública com notícias selecionadas, cuidadosos jogos de palavras e eufemismos, vários pesos e várias medidas, opiniões dissimuladas, proteção de aliados políticos e patrocinadores, edição de entrevistas, crítica rasa e análise superficial.


O que surpreende é que esse não deveria mais ser o estado das coisas. Não nestes tempos de internet. Não nestes tempos em que quase tudo pode ser checado, em que para cada ponto há um contraponto, para cada argumento um contra-argumento, para cada bunda uma opinião.

Diz-se hoje que cada um olha apenas, não para a própria bunda, mas para o próprio umbigo.

Digo eu: que bom que fosse assim. O que realmente acontece é que a maioria (sob a luz das câmeras, mas sem nada ver) zela pelos umbigos lustrosos de uma minoria.

A arma Informação atinge seu alvo. A maioria não sabe que é maioria. Não sabe que está na base da pirâmide ou alguns degraus acima. Não sabe que se apoiasse movimentos sociais teria apenas a ganhar.

Ou talvez saiba. Mas não quer ser vista lá, com aquela gente.

Então, a maioria da maioria, bombardeada por desinformações, chavões e repetições de mentiras, bandeia-se sorridente (ou raivosa) lá para as trincheiras do poder. Vai polir umbigos como ninguém.


Outros desengonços:

domingo, 15 de março de 2015

O Misterioso Caso da Geração que Regrediu Dois Anos


Um macaco cai da árvore da evolução e se estatela no asfalto:
- Pra onde vou agora? - pergunta.

- Para trás - responde outro primata - é só seguir a multidão.


Gerações de luta

É frustrante para a espécie humana quando uma geração perpetua os preconceitos dos pais. Mas o que dizer de uma geração que ignora décadas de lutas do passado, dá marcha ré na história e vai buscar os preconceitos dos avós? Aí já é pra lascar com as teorias do Darwin.

Quando os beatniks passaram o bastão da contracultura para os hippies, uma geração se conectou à outra.

Mas os hippies foram além do legado beat. Os hippies herdaram aquele desejo de encontrar a realidade que se escondia por trás de um manto costurado pelo imperialismo. Os hippies mostraram que o manto estava sujo pelas guerras, que a ilusão coletiva se mantinha pela violência do estado e pelos abusos da informação e do capital.
 

Na principal bandeira daquelas gerações, tremulava a palavra LIBERDADE. Ao lado de Paz e Amor, LIBERDADE tornou-se símbolo inseparável dos rebeldes de então.



O que está acontecendo lá fora?


Quando, em junho de 2013, jovens saíram Brasil afora bradando sua insatisfação, imprensa e políticos ficaram atônitos.

Ninguém sabia definir o alvo daquelas manifestações. A verdade é que todos - políticos e imprensa - se envergonhavam. Ou, ao menos, tinham motivos para vergonha.

Foram pegos de calças na mão pelas manifestações que nasciam espontâneas, sem patrocinadores nem bandeira de partido. Quem não se lembra dos gritos de “abaixa a bandeira aí”?



Contra tudo e contra todos

As manifestações se dirigiam aos políticos em geral. Ninguém canonizava ninguém. As manifestações se dirigiam ao atendimento público federal, estadual, nacional, municipal e privado. As manifestações expressavam o que a imprensa não queria expressar: a insatisfação generalizada contra um sistema que usa o cidadão como ferramenta para construir a prisão que o aprisiona.

Eis que, menos de dois anos depois, aqueles mesmos jovens saem às ruas.

Agora não para lutar juntos contra a estrutura viciada, mas para pintar tudo de preto ou de branco, como se algo na vida fosse uma simples escolha entre Sim e Não.

Aqueles mesmos - os que em 2013 protestaram juntos - hoje precisam marcar passeatas para dias diferentes. De uma hora para outra todos se tornaram gladiadores em potencial.




De olhos bem fechados


No fundo, a explicação não é difícil de encontrar. Políticos perplexos escolheram o salve-se quem puder como lema e saíram distribuindo pontapés.

A imprensa, que nunca soube (ou quis) interpretar aquelas manifestações, mirou sua metralhadora em único alvo e orientou olhares inocentes.


Agora, com alvo único, boa parte dos políticos poderia se deitar nas areias do esquecimento e surfar nas ondas da impunidade.

Não é percebida a covardia. Que revolta justa é essa que ignora o óbvio e joga as mazelas do país sobre um único par de ombros?

Onde foi parar aquela súbita consciência coletiva que se acendeu naquele junho de 2013?


O que será que nos fez desaprender tão rápido? Como diria o personagem Joselino, aquele que foi criança pequena lá em Barbacena: "Eu estava indo tão bem..."



Esquecimento instantâneo


Neste mundo frenético, três anos de involução podem equivaler à perda de três gerações. Acabamos de aprender, ops!, já desaprendemos. Nem foi preciso recorrer aos conceitos de vovó.

Os rebeldes de 2013 sabiam que o inimigo estava oculto e que o monstro era bem maior. Tinham a união como força, a manifestação pacífica como arma.

Os rebeldes de hoje estão cegos para o verdadeiro inimigo e miram no rabo do monstro. Têm a agressão verbal como argumento e a intolerância como fraqueza.

Esses rebeldes permitem que lhes digam contra quem devem (e não devem) se rebelar.

E não é que, para desonrar todas as gerações que quebravam grilhões, até mesmo a bandeira LIBERDADE - símbolo maior de todo rebelde que se presa - passou a ser rasgada em praça pública? 

(*Por justiça, deve-se dizer que há sempre uma minoria que vê o óbvio. Aqueles hippies e beatniks também representavam a minoria dos jovens da época. Mas nem por isso deixaram de ficar na história.
)


Jovens Selvagens

Nelson Rodrigues dava um conselho aos mais novos: "Jovens, envelheçam."

Nelson dirigia-se à juventude transgressora dos anos 70. Mandá-los "envelhecer" equivalia a orientá-los para o comodismo, para a aceitação da ordem estabelecida, para a subserviência aos titereiros que movem os cordões da sociedade envelhecida.

Hoje, Nelsons se replicam mundo afora - não em talento, mas em conselhos subliminares dos tiranos que controlam esse show de marionetes. 

Meninos - digo eu -, rejuvenesçam. Não deixem que lhes retirem esse ímpeto, essa gana de transformação. 

Esqueçam conselhos rodriguianos e valham-se de Platão: "De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar".



Desengonços da mesma ordem:
Jovem, quem é você no Jogo do Bicho