sábado, 12 de novembro de 2016

500 Anos de Escravidão






domingo, 6 de novembro de 2016

Essa Mente Exposta


Pegue o machado
enferrujado
debaixo da cama
e tire um naco
bem caprichado
da caixa craniana

Entre as meninges
plante a semente
que sempre germina
abrigada do clima
em tenro ambiente

Cuida, rega, capina
carrega na dopamina
Uma maçã pros duendes,
um pouco de vida por cima,
um tanto do diferente,
um coro de descontentes
e loucos pra fazer rima

Trova, improviso, repente
germinam dentro da gente
Hoje a festa não termina,
tem canto, tem sol nascente
Tem jovens de antigamente
escapando da rotina
dos enganos da retina
na fenda fértil na mente



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sedas de Poesia


Escrevia versos
em delicadas sedas
pra véus
disfarces
cigarro
maconha
ilusão

Depois as vendia na feira
no meio de batata
arroz
desespero
e feijão

Mãos suadas
enrugadas
compravam daquelas sedas
Liam na mesma hora
para não serem fumadas
ou virarem borboletas

Um dia chegou o vento
com palhaços
saltimbancos
um mágico
um idiota
e um menestrel

Fizeram aquela arruaça,
sujaram calçadas
lambuzaram camas de hotel
Ergueram saias,
lonas
carroças
e bancas de pastel

Voaram por toda a praça
seda,
poesia
a poeta Maria da Graça
e um louco
sem chapéu

Depois,
 cúmplice do vento
o sol brilhou lá no céu
Expunha
ali
 de repente
o passarinho coronel,
que bailava
na fumaça
do dance floor do bordel

Com ele voavam
três moças
todas dançando Gardel
Na chama
de suas bocas
queimava aquele papel



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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Pequenos Espíritos Dentro de Ti


Pois eu vos digo que há apenas uma maneira de transformar o mundo: a Arte.

Apenas a Arte nos faz acreditar que existe algo além de nossa limitada racionalidade. Apenas a Arte nos permite o contato íntimo com nossa própria intuição, com nossa inata inteligência poética.

Não há outra maneira de transformar o mundo.

É preciso Arte.

É preciso Arte.

É preciso Arte.

Adeus limitada racionalidade.

A Deus essa alma latente e lírica.

Intui.

Crê.

Vê.

Sê.

Porque agora um homem sabe das divindades.

Elas habitam a Arte, elas caminham versos, são famosas por intangíveis.


Elas vêm do fluido e do sublime.

Elas chegaram para buscar segredos dentro de ti.

Convém que atentes para teu próprio silêncio, que atentes nos seres voláteis, nos elementais da Arte.

Sente.

Não são sonoros nem são de luz.

Não tem cheiro ou sabor.

São alheios ao tato.

Não são da terra, não são do fogo, não são da água, não são do ar.

Os elementais da Arte percorrem caminhos sutis e se encontram nas alamedas ocultas dos mundos irracionais.


Exprimem paradoxos.

Desfazem conceitos.

Negam evidências da Física.

Descumprem leis e enfiam pulgas por detrás das orelhas de estimação.

Para vê-los, outros olhos.

Para senti-los, explodir os cadeados enferrujados da mente, arrancar as portas de suas dobradiças ancestrais. Arrebentar grilhões.

Abra as costelas, de par em par.

Deixe espaço para que pequenos espíritos atinjam apenas órgãos vitais e o caroço sábio da alma.

Permite.

Acredita.

Aceita.

São teus.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Meu Amigo Tem a Receita para Mudar o Mundo


Meu amigo Fábio tem a receita para mudar o mundo, mas ele não se contenta em prescrevê-la. No dia a dia, na cotidiana prática, Fábio pode ser encontrado com a mão na massa seguindo a própria receita.

Mutirão para revitalização de praças? Lá está ele, cavoucando o chão, enfiando mudas e sementes, esverdeando a cidade, cativando corações.

Esforço comunitário para a construção de casas com métodos alternativos, econômicos e ecologicamente corretos? Fábio está lá. Ergue paredes com sacos de areias e as reveste usando compostos do solo.

Ações visando o consumo autossustentável, o plantio baseado nas leis naturais (notadamente, a permacultura) e voltado principalmente à população local? Lá está o Fábio, de enxada, chapéu e inexaurível disposição.

Moradores de rua e artistas mambembes com a algo a dizer ou mostrar? Fábio abre braços, olhos e ouvidos. Está ali para ver, ouvir, aprender e abraçar.

Meninada paulistana ocupando escolas para defendê-las? Fábio quer saber o que dizem e do que precisam. Divulga suas necessidades e expõe os abusos da polícia militar.


Conta aí o segredo, cara

É bem provável que, como eu, Fábio não acredite que políticos possam mudar o mundo. Não para melhor, pelo menos. Ainda assim, como eu, Fábio sente a necessidade de se posicionar. E, ao se posicionar, coloca-se ao lado daqueles que (espera-se) sairão em defesa dos mais fracos, dos sem justiça, dos sem voz.

Então qual a receita de Fábio, esse cara que mora naqueles poucos metros quadrados que diz serem suficientes para viver? Quais os ingredientes dessa poção mágica, dessa feitiçaria social?

Já que ele não nos dá receita impressa (sinto muito, a culpa é dele) apenas nos resta deduzi-la.


Como Mudar o Mundo - Ingredientes essenciais:

Não esperar por governos.

Ações locais voltadas para o bem comum com o envolvimento de toda a comunidade.

Promover produção e consumo local.

Autogestão de recursos, ações e pessoas.

Consumo responsável.

Conforto para todos, luxo para ninguém.

Ausência de hierarquias impostas.

Fim dos preconceitos religiosos, morais e ideológicos.

Educação libertadora que promova o livre pensar.

Livre circulação de pessoas entre países. O fim das fronteiras.

Entender que cada pessoa nasce com direitos naturais e não pode ser considerada refém de um regime que não ajudou a construir.

Igualdade. Igualdade. Igualdade.

Liberdade. Liberdade. Liberdade.


Revoluções de Fábio

Não tenho dúvida de que faltam ingredientes na mihha sopa. A tentativa de adivinhar conceitos alheios, sem entrevista, sem consulta, tende à imprecisão.


Impossível saber, por exemplo, quais as alternativas de Fábio para que se coloquem em prática tais conceitos. Mas, mesmo aí, é possível atentar aos sinais que ele nos dá.

Basta perceber o que já percebemos: que Fábio une discurso e prática.


Jamais se limita à militância nas redes sociais.

Ele marcha de peito aberto pelas cicatrizes urbanas a lançar bálsamos sobre a cidade. Ele interage, ele questiona, ele participa, divulga.

Ele acredita na ação direta, sem estruturas rígidas, sem dogmas.

Ele acredita.

Fábio anda por aí a participar de revoluções. São revoluções de paz, de solidariedade, de consciências. São revoluções de esperança no coração do caos.

Embora moradores da mesma cidade (ou talvez por isso mesmo), nosso contato quase inexiste. Confesso que, de longe, invejo a disposição, a fé e a persistência de Fábio. Envergonho-me por não possuir (ou haver perdido) as mesmas qualidades.

Em passado distante, envolvi-me em atividades similares. Aos poucos, fé, disposição e persistência minguaram.


Fábio tem me devolvido algo daquela esperança. Espero que ele me inspire a encontrar, também, a disposição e a persistência perdidas.


sábado, 15 de outubro de 2016

A Última Partícula de Deus



Personagens
desta ilusão passageira,
a vida em um segundo
vale uma vida inteira

Órbitas da Terra,
Alpha Centauro,
Andrômeda,
Ursa Maior,
combalidas
nebulosas
escoam por buracos
negros desassossegos
perdidos
dentro de nós

Os que sabem do Infinito -
bêbados,
poetas,
profetas,
amantes -
sabem o que sabem
os que aprendem de ouvido -
os videntes,
os insones,
errantes

Sabem o que sabem
os marginais de carteirinha -
aqueles que roubam
o colisor de prótons
uma flor de lótus
na loja de conveniência

Pés frágeis sobre o divino
marcham
Vão-se desavisados,
desatentos,
descalços
Afastam-se
do umbigo bíblico
dos astros,
da fumaça,
dos iguais

Ineptos humanos
pisoteiam
a partícula última de Deus
É ali que provocam,
no horizonte de eventos,
na cósmica radiação
da Inconsciência,
um horror bocó
e o Big Bang de nossos tempos





domingo, 9 de outubro de 2016