terça-feira, 28 de abril de 2015

O Dicionário das Dores Obscuras

The Dictionary of Obscure Sorrows é uma web série escrita, editada e narrada por John Koenigque. 
O autor cria palavras para traduzir aquelas emoções poderosas que sentimos em determinados momentos da vida e que não sabemos descrever.
Batalha dos Desengonçados selecionou alguns dos episódios da série e os reproduz.
(Todos os vídeos são legendados em português.)


INTRODUÇÃO




AMBEDO
Substantivo. Espécie de transe melancólico em que você se torna completamente absorvido em vívidos detalhes sensoriais: gotas de chuva deslizando em uma vidraça, árvores altas que se inclinam no vento, nuvens circulares de creme no seu café. A breve imersão na experiência de estar vivo, um ato feito exclusivamente para seu próprio bem.





ANEMOIA
 Substantivo. Nostalgia de um tempo que você nunca conheceu.
Imagine-se atravessar uma moldura para dentro de um quadro de cor sépia, onde você pode sentar-se à beira da estrada e observar as pessoas que passam - todos aqueles que viveram e morreram antes de qualquer um de nós chegar aqui, aqueles que dormem em algumas das casas em que também dormimos, aqueles que contemplam a mesma lua, que respiram o mesmo ar, quem sentem o mesmo sangue nas veias - e vivem em um mundo completamente diferente.





SOCHA
Substantivo. É um truque de perspectiva  - a forma como as suas próprias falhas e realizações são fáceis de perceber porque você as vivenciou. Mas, nas pessoas de quem você não está perto, somente é possível perceber as falhas e realizações que elas optarem por exibir.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um biscoito pro cão


Andando sobre os escombros, 
um homem segue em frente,
o homem leva no bolso
a paz e algumas sementes
Diz que o peso nos ombros
vale a leveza da mente
E ali, junto aos pombos,
o homem entoa um repente

- Eu nasci é pra cantar
no meio da multidão,
bem ao lado do mendigo
e dar biscoito pro cão,
avisar aos dois amigos
que é hora do sopão,
que eu conheço um abrigo
bem melhor que este chão, 
que é pra praticar comigo
aquela tal meditação

Mas o que lhe deu na telha
pra se tornar peregrino?
Foi por acaso um sonho,
um devaneio de menino,
ou foi apenas um meio
de confrontar o destino?

- Moço, já era hora
de tomar jeito na vida
Não tinha onde morar
fui ofertar guarida
Não tinha o que comer
fui dividir a comida
Não tinha como entrar 
fui encontrar a saída 
Não tinha como curar
fui serenar as feridas

terça-feira, 14 de abril de 2015

Carol Rosseti - Delicados Conselhos para Mulheres


Delicadeza. Essa é a palavra que melhor expressa o trabalho da artista e designer Carol Rosseti. 

Mas delicadeza não impede que Rosseti empregue sua verve feminista para lidar com temas polêmicos. 

Nos conselhos que dirige a suas personagens, a artista demonstra sua insatisfação com as tentativas de padronização social, sexual e comportamental das mulheres.

Nesse projeto denominado "Contra a Parede", Carol disponibiliza seu trabalho em formato de poster e incentiva o uso das imagens para intervenções urbanas.

Atenção ao que diz a artista a respeito do uso de suas ilustrações:


"Você pode acessar, baixar as imagens, imprimi-las e expô-las onde e como quiser! Só não pode vendê-las ou modificá-las de forma alguma, ok? No mais, aproveite!" - Carol Rosseti










terça-feira, 17 de março de 2015

Eles sempre conseguem o que querem


É verdade que nas manifestações de junho de 2013 eles até deram uma bambeada. Foi um corre-corre atônito no parlamento, nos gabinetes e nas redações.

- O que está acontecendo?

- O que quer essa gente barulhenta?

- De quem estão reclamando?

- De nós?

- Do prefeito?

- Do Felipão?


- Da Xuxa?

- Da moça do café?

O fato é que jornalistas e políticos foram pegos de surpresa por aquele movimento que surgia das ruas.

Ninguém imaginou que um protesto contra o aumento da passagem de ônibus fosse se tornar o estopim de algo novo: a rebelião sem bandeiras, sem partidos, sem patrocinadores.

Uma rebelião sem alvo definido. Uma rebelião contra tudo.

Uma rebelião contra a corrupção generalizada, contra o tipo de atendimento recebido na saúde, no transporte, na segurança pública, na educação, nos bancos e contra tudo o mais que aparecesse.

- E agora? Vai sobrar pra nós!

- Tenho uma ideia: esses baderneiros precisam de um alvo.

- O alvo somos todos nós, estúpido!

- É o que estou dizendo. Tem alvo demais. Precisamos dirigir a mira da manada.

- E quem você propõe que seja o alvo único?

- Você não consegue imaginar?

- O Felipão? A moça do café?

- Claro que não, animal! O alvo tem de ser bem grandão. Assim não tem jeito de errar.

E assim, cordialmente, eles foram se escafedendo da maneira usual. Com uma só pedrada mataram todos os coelhinhos.

Não apenas se safaram da própria picaretagem. Agora, disfarçados de paladinos da moralidade, podiam se deitar na cama da hipocrisia. De quebra, receberam o antes impensável apoio de significativa parte da população.


- Ainda tem gente apontando pra cá. Não acreditam nas notícias da nossa querida imprensa e não estão contentes em espernear contra o Planalto. Insistem nessa mania de procurar pêlo em ovo. E nosso ovo está bem peludo, você sabe...

- Melhor assim.

- Você deve estar bêbado de novo. Como pode ser melhor que vasculhem nossas contas na Suíça e exponham nosso telhadinho de cristal?

- Tonto! Você não vê que conseguimos dividir essa cambada de reclamões? Tava todo mundo junto, não tava?

- Tava.

- Pois então... Agora é cada um gritando prum lado. Você vai ver: em pouco tempo vão gritar uns contra os outros.

- Parece que já estão gritando. É um tal de coxinhas e petralhas pra tudo quanto é lado.

- Tá vendo? Agora eles miram neles mesmos. Até pararam de se preocupar com aquela bobagem de querer água na torneira.

- Mas ainda pode sobrar pra nós...

- Imagina... Qualquer coisa a gente diz que eles estão apenas querendo justificar a corrupção do outro lado. E que estão todos cegos.

- Acho que você tem razão. Lembra quando colocamos o Collor lá? A gente até podia escalar uma galera para dizer umas coisas inteligentes. O Bolsonaro, o Álvaro Dias, o Caiado...

- O FHC...

- O FHC não.

- Por que não?

- Porque eles ainda não esqueceram das merdas que ele fez.

- Você deve estar brincando! Essa gente tem amnésia. Vamos de FHC também.

- Só se o Bonner der uma mãozinha.

O Bonner deu uma mãozona e tudo funcionou como um Rolex. Deram-nos um alvo e começamos a atirar uns contra os outros.

Usaram a mais eficiente das armas de guerra. Dividiram o inimigo. Caímos como patinhos.

Agora, se você quer que as investigações sejam realizadas em todos os níveis, sem favorecimentos, sem notícias plantadas ou escolhidas, sem fatos ocultados, você será imediatamente colocado na posição de zagueiro do PT. Mesmo que você estiver louquinho para fazer um gol contra.

- Você ouviu a gritaria? Hehe!

- Uns querem expulsar a recém-eleita. Nem querem saber de provas.

- Vão adorar o Temer, o Cunha, o Renan...

- Outros pedem pinico ao militares.

- Você dever estar exagerando.

- Não estou. Tem até os que protestam contra o Paulo.

- O Maluf?

- O Freire.

- Ulalá! Então a coisa saiu melhor do que a encomenda.



domingo, 15 de março de 2015

O Misterioso Caso da Geração que Regrediu Dois Anos


Um macaco cai da árvore da evolução e se estatela no asfalto:
- Pra onde vou agora? - pergunta.

- Para trás - responde outro primata - é só seguir a multidão.


Gerações de luta

É frustrante para a espécie humana quando uma geração perpetua os preconceitos dos pais. Mas o que dizer de uma geração que ignora décadas de lutas do passado, dá marcha ré na história e vai buscar os preconceitos dos avós? Aí já é pra lascar com as teorias do Darwin.

Quando os beatniks passaram o bastão da contracultura para os hippies, uma geração se conectou à outra.

Mas os hippies foram além do legado beat. Os hippies herdaram aquele desejo de encontrar a realidade que se escondia por trás de um manto costurado pelo imperialismo. Os hippies mostraram que o manto estava sujo pelas guerras, que a ilusão coletiva se mantinha pela violência do estado e pelos abusos da informação e do capital.
 

Na principal bandeira daquelas gerações, tremulava a palavra LIBERDADE. Ao lado de Paz e Amor, LIBERDADE tornou-se símbolo inseparável dos rebeldes de então.



O que está acontecendo lá fora?


Quando, em junho de 2013, jovens saíram Brasil afora bradando sua insatisfação, imprensa e políticos ficaram atônitos.

Ninguém sabia definir o alvo daquelas manifestações. A verdade é que todos - políticos e imprensa - se envergonhavam. Ou, ao menos, tinham motivos para vergonha.

Foram pegos de calças na mão pelas manifestações que nasciam espontâneas, sem patrocinadores nem bandeira de partido. Quem não se lembra dos gritos de “abaixa a bandeira aí”?



Contra tudo e contra todos

As manifestações se dirigiam aos políticos em geral. Ninguém canonizava ninguém. As manifestações se dirigiam ao atendimento público federal, estadual, nacional, municipal e privado. As manifestações expressavam o que a imprensa não queria expressar: a insatisfação generalizada contra um sistema que usa o cidadão como ferramenta para construir a prisão que o aprisiona.

Eis que, menos de dois anos depois, aqueles mesmos jovens saem às ruas.

Agora não para lutar juntos contra a estrutura viciada, mas para pintar tudo de preto ou de branco, como se algo na vida fosse uma simples escolha entre Sim e Não.

Aqueles mesmos - os que em 2013 protestaram juntos - hoje precisam marcar passeatas para dias diferentes. De uma hora para outra todos se tornaram gladiadores em potencial.




De olhos bem fechados


No fundo, a explicação não é difícil de encontrar. Políticos perplexos escolheram o salve-se quem puder como lema e saíram distribuindo pontapés.

A imprensa, que nunca soube (ou quis) interpretar aquelas manifestações, mirou sua metralhadora em único alvo e orientou olhares inocentes.


Agora, com alvo único, boa parte dos políticos poderia se deitar nas areias do esquecimento e surfar nas ondas da impunidade.

Não é percebida a covardia. Que revolta justa é essa que ignora o óbvio e joga as mazelas do país sobre um único par de ombros?

Onde foi parar aquela súbita consciência coletiva que se acendeu naquele junho de 2013?


O que será que nos fez desaprender tão rápido? Como diria o personagem Joselino, aquele que foi criança pequena lá em Barbacena: "Eu estava indo tão bem..."



Esquecimento instantâneo


Neste mundo frenético, três anos de involução podem equivaler à perda de três gerações. Acabamos de aprender, ops!, já desaprendemos. Nem foi preciso recorrer aos conceitos de vovó.

Os rebeldes de 2013 sabiam que o inimigo estava oculto e que o monstro era bem maior. Tinham a união como força, a manifestação pacífica como arma.

Os rebeldes de hoje estão cegos para o verdadeiro inimigo e miram no rabo do monstro. Têm a agressão verbal como argumento e a intolerância como fraqueza.

Esses rebeldes permitem que lhes digam contra quem devem (e não devem) se rebelar.

E não é que, para desonrar todas as gerações que quebravam grilhões, até mesmo a bandeira LIBERDADE - símbolo maior de todo rebelde que se presa - passou a ser rasgada em praça pública? 

(*Por justiça, deve-se dizer que há sempre uma minoria que vê o óbvio. Aqueles hippies e beatniks também representavam a minoria dos jovens da época. Mas nem por isso deixaram de ficar na história.
)


Jovens Selvagens

Nelson Rodrigues dava um conselho aos mais novos: "Jovens, envelheçam."

Nelson dirigia-se à juventude transgressora dos anos 70. Mandá-los "envelhecer" equivalia a orientá-los para o comodismo, para a aceitação da ordem estabelecida, para a subserviência aos titereiros que movem os cordões da sociedade envelhecida.

Hoje, Nelsons se replicam mundo afora - não em talento, mas em conselhos subliminares dos tiranos que controlam esse show de marionetes. 

Meninos - digo eu -, rejuvenesçam. Não deixem que lhes retirem esse ímpeto, essa gana de transformação. 

Esqueçam conselhos rodriguianos e valham-se de Platão: "De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar".



Desengonços da mesma ordem:
Jovem, quem é você no Jogo do Bicho

sábado, 14 de março de 2015

Tapa de Novela


Beijo sem fronteiras


Antigamente usava-se a expressão beijo de novela para definir aquele beijo lânguido ou ardente, aquele contato de lábios e línguas técnicas que obrigavam Abigail a desviar os olhos da TV.

Beijo de novela, vejam só... A Vênus Global e Platinada havia alcançado o status de precursora dos beijos. O Beijo. Completo. Escandaloso.

Mas para gregos e franceses não há escândalo algum em nossas exibidas línguas televisivas.


Se as modalidades de beijo associadas àquelas nacionalidades fossem praticadas pelo Comendador e pela Imperatriz, os Marinhos teriam suas bochechas estapeadas em praça pública.


Evolução do beijo

Até os anos 80, para indicar que mocinho e mocinha se engalfinhavam sob lençóis, a câmera percorria o quarto, mostrava um abajur aceso, a porta fechada, o vestido no chão.


Uma musiqueta melada na vitrola confirmava os amassos. Abigail saía da sala e ia rezar o terço.

Depois começaram a aparecer quatro pezinhos intercalados sobre o colchão, um mexe-mexe nervoso, e a musiqueta se fez acompanhar de suspiros.

Mais tarde um ou outro seio surgiu, coxas se entrelaçaram, globais correram para as academias e Abigail foi ler o Apocalipse.

Hoje o bafafá concentra-se no beijo gay. As opiniões podem ser medidas em uma escala que vai de quebra de tabus à causa da dissolução de famílias.


Mas todos esperam ansiosos o fim do Jornal Nacional. Depois do boa-noite do Bonner, Lima Duarte e Ary Fontoura vão finalmente dar aquela bitoca.




Sutileza Zero

Autor e diretor fariam melhor trabalho se optassem por delicadas indicações, pelo pequeno sussurrar do amor que acontece naquelas doces penumbras. 


Ganharíamos em arte, tempo e bom gosto. E manteríamos Abigail confortável no sofá.

O fato é que não se trata do conforto de Abigail. Moralismo não pode ser o eixo dessa balança que oscila aos sabores da audiência.



Tapa e caviar

É curioso perceber a ausência de embaraços quando, entre propagandas subliminares e mensagens edificantes, alguém dá um tapa bem dado na cara de alguém.

Existe algo mais escandaloso a ser mostrado do que esse tapa?


Assim como as cenas de sexo, o tapa e as intermináveis e repetidas cenas dos jantares em família também são prescindíveis.

Prescindível também é a ostentação que se evidencia nos rostos dos serviçais refletidos em bandejas de prata.

Não bastasse o insulto a um país que engatinha para sair do mapa da fome, as cenas de jantar são garantia de stress, tensão e conflito.

Não tem salada sem indireta, não tem lagosta sem bate-boca, não tem profiterole sem soco na mesa . 


É comum que, antes mesmo de cafezinho e licor, alguém se levante como se fosse rasgar o roteiro e chutar o contrarregra.

Abigail, que saboreia seu macarrão de salsicha regado a goles de Tang, recebe, ali no sofá, sua dose noturna de petulância e pouca-vergonha verbal.


Abigail engole seu Rivotril de imoralidade e vai dormir. Se der sorte vai sonhar com um certo homem de preto - nas mais ousadas condições.

É bem provável que, no atual contexto, o jantar em família seja mais indecente do que a cena de sexo, mais escandaloso do que as variadas manifestações humanas de afeto e sexualidade representadas num beijo.



Premissas para o tapa perfeito


Muitos dos conflitos da ceia se resolverão com um belo tapa. Mas não pode ser um tapa qualquer.


Para causar o efeito desejado sobre a já anestesiada audiência, algumas premissas básicas devem ser cumpridas:

1) Provocará mais satisfação se o tapa for desferido por um dos heróis do folhetim.
 

2) É fundamental fazer do bofete um ressonante espetáculo de desagravo.

3) Recomenda-se um risco de sangue no canto da boca.

4) Se o feliz proprietário das bochechas estapeadas usar óculos, é preciso que fiquem atravessados no nariz. E que eles sejam consertados com dedos trêmulos e submissos.



Finalmente vingados
 

A verdade é que esses aspectos sonoros e visuais do tapa cumprem apenas papel acessório.

O importante é transmitir aquela sensação de desprezo, de humilhação, de repulsa.

É a aguardada chance para que Abigail exulte no sofá. A deixa para que os lábios desenhem um semi-sorriso de satisfação.



Eu vejo você na Globo

- Ora - defende o patrão -, novelas representam a sociedade. Se há tapa na vida real, é legítimo que tapas estalem na telinha.

Mas, afinal, qual é mesmo a sociedade que a novela representa?

A sociedade multirracial que resume a população não-branca a três ou quatro gatos pingados em posições subalternas?

A sociedade dos estereótipos? Não é geralmente no núcleo pobre que surgem personagens caricatos, idólatras do mundo dos ricos, tolos inaptos para manejar garfo e faca ou incapazes de admirar uma obra de arte?

Não, a exibição de tapas em close-ups não visa representar a sociedade. Menos ainda pretende criticar o ato.


O tapa na cara dirige-se à horda raivosa em frente à TV. Não como representação, mas como incentivo.

A lição é óbvia: paga-se na mesma moeda. O mal pelo mal e estamos quites. 


A exibição de tapas mira o sentimento sórdido de uma sociedade em busca de vingança.

Espectadores sedentos por revanche libertam suas frustrações diárias naquele redentor encontro de mãos espalmadas e rosadas bochechas.

Então responda nossa enquete: Tapa na cara pode nos redimir?


Muito longe da redenção, a desforra é sinal de nossa incapacidade de chegar ao destino do caminho que pensamos percorrer - o caminho que começou com primatas irracionais e aponta para aquilo que se chama humanidade.

Ou nos tornamos humanos de vez ou permaneceremos neste estágio intermediário entre homem e bicho, assumindo um ou outro de acordo com as circunstâncias.


Quando somos humanos?


Somos humanos quando aprendemos que a missão consiste em aumentar o contingente de homens de boa vontade.

Somos humanos quando sabemos nos colocar no lugar do outro antes de julgar.

Somos humanos quando sofremos o sofrimento alheio.

Somos humanos quando usamos da delicadeza somente possível a esses cidadãos inteligentes e sensíveis que pensamos ser.

Da inteligência e sensibilidade nasce o exemplo. Nasce o desejo de contagiar o outro com o próprio desprendimento, a inesperada manifestação de perdão ou o providencial e educativo tapa de pelica.

Mas há sempre um macaco raivoso que grita lá das cavernas de nossa incivilidade. E acabamos nos rendendo ao bicho.


O bicho homem não é um bicho qualquer. Ele alia a irracionalidade da fúria ao cálculo astuto e perverso que o levará, ao mesmo tempo, à liberação de seus instintos e à satisfação de uma alma oprimida.


Quando somos bichos? Que tipo de bicho somos?

Somos bichos ardilosos sempre que esperamos o momento exato para dar o bote e submeter a presa.

Somos bichos cínicos quando julgamos os crimes de criaturas da mesma espécie com a inflexibilidade de quem nunca cometeu crime algum.

Somos bichos bichos quando defendemos a lei do mais forte.


É da natureza – dizem uns.

Também a evolução é lei da natureza. Evoluir da lei do mais forte para a lei dos iguais deveria ser o anseio dos homens.


Tapa na própria cara

O tapa na cara simboliza a negação da dignidade do outro e de nós mesmos.


O tapa na cara expõe a degradação de uma espécie que se orgulha de usar espírito e intelecto para resolver as contendas terrenas.

Não foi a TV que inventou, gregos e franceses não reivindicam autoria, mas aí está algo que deveria nos deixar embaraçados. 


Ai está o que deveria desnudar nossa infantilidade emocional.

Ai está o sonoro, obsceno e ultrajante tapa de novela.

Mas, para Abigail e nossa sociedade doente, a indecência não está no tapa, no pontapé, nas armas, no sangue que brota na tela. A indecência não está na promoção do ódio.

Para Abigail e nossa sociedade doente, a indecência está no beijo. A indecência está no amor.




quarta-feira, 11 de março de 2015

A Divina Matrix

painting by michael cheval

(O texto a seguir é a desengonçada tradução de um trecho do livro The Divine Matrix, de Gregg Braden, publicado pela Hay House.)


Em 1854, o Chefe Seattle advertiu os legisladores de Washington que a destruição da vida selvagem da América do Norte teve implicações que vão muito além dos tempos atuais e ameaçam a sobrevivência das gerações futuras.

Com uma sabedoria que permanece tão profunda hoje como era em meados do século 19, o chefe afirmou: "O homem não tece a teia da vida, ele é meramente um fio dela. Tudo o que ele faz com a teia faz a si mesmo ".

O paralelo entre a descrição do nosso lugar na teia da vida e nossa conexão com (e dentro) da Matrix Divina é inconfundível. Como parte de tudo o que vemos, nós somos participantes de uma conversa sem fim, um diálogo quântico com o nosso mundo, conosco mesmo e além.

Dentro desse intercâmbio cósmico, os nossos sentimentos, emoções, orações e crenças representam nosso falar com o universo. E tudo, desde a vitalidade de nossos corpos até a paz no mundo, expressa a resposta que o universo nos dá.


O que significa participar no Universo?
 

O físico John Wheeler sugere que nós não somos coadjuvantes no que ele chama de um universo participativo, diz que cumprimos o papel principal.

A chave para a proposição de Wheeler é a palavra participativa. Neste tipo de universo, você e eu somos parte da equação. Nós dois somos catalisadores para os eventos de nossas vidas, assim como os experimentadores daquilo que criamos.

Nós somos parte de um universo que é um trabalho em andamento. Nesta criação inacabada, somos pequenos remendos do universo que olha para si mesmo e se constrói.

A sugestão de Wheeler abre a porta para uma possibilidade radical: se a consciência cria, então o próprio universo pode ser o resultado dessa consciência.

As opiniões de Wheeler foram emitidas no final do século 20, mas não podemos deixar de relembrar a declaração de Max Planck, em 1944. Planck diz que tudo existe devido a uma mente inteligente - o que ele chamou de a Matrix de toda a matéria.

A pergunta a ser feita é simples: que mente é essa?

Em um universo participativo, o ato de focar em nossa consciência – a consciência de nós mesmos procurando algum lugar no mundo e examinando esse mundo - é um ato de criação de nós mesmos, em nós mesmos.

Somos os únicos a observar e estudar o nosso mundo. Nós somos a mente (ou, pelo menos, parte de uma mente superior), como descreveu Planck. Para onde quer que olhemos, a nossa consciência constrói algo para que possamos ver.

Em nossa busca para encontrar a menor partícula da matéria e na nossa tentativa de definir os limites do universo, o raciocínio de Planck sugere que nossas buscas e tentativas talvez sejam vãs.

Não importa o quão profundamente observemos no mundo quântico do átomo, ou o quão longe cheguemos na vastidão do espaço exterior, o ato de olharmos com a expectativa de que algo existe pode ser exatamente a força que cria algo para que possamos ver.
Ignacio Nazabal

Um universo participativo - exatamente o que isso implica? Se a consciência realmente cria, então quanta energia nós realmente precisamos para mudar nosso mundo? A resposta pode surpreendê-lo.

Um visionário de Barbados do século 20, conhecido simplesmente pelo nome de Neville, talvez tenha sido mais feliz em descrever nossa capacidade de realizar sonhos e trazer vida à imaginação.

Através de seus inúmeros livros e palestras, em termos que são simples, mas diretos, ele compartilhou o grande segredo de como navegar nas muitas possibilidades da Matrix Divina.


Da perspectiva de Neville, tudo o que experimentamos - literalmente tudo o que nos acontece ou é feito por nós - é o produto de nossa consciência e absolutamente nada mais.

Ele acreditava que a capacidade de aplicar esse entendimento por meio do poder da imaginação é tudo o que nos separa dos milagres de nossas vidas.


Assim como a Matrix Divina fornece o recipiente para o universo, Neville sugeriu que é impossível que qualquer coisa aconteça fora do recipiente de nossa consciência.
Anthony-Gadd
Mas como é fácil pensar de outra maneira! Imediatamente após os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos, as perguntas que todos faziam eram: "Por que eles fizeram isso com a gente?" e "O que nós fizemos para eles?"

Se há de fato um único campo de energia que conecta tudo em nosso mundo, e se a Matrix Divina funciona da maneira que a evidência sugere, então não pode haver eles e nós, somente nós.

Estamos todos conectados no que pode ser a forma mais íntima que se possa imaginar: através do campo da consciência que é a incubadora de nossa realidade.

Juntos, podemos criar a cura ou o sofrimento, a paz ou a guerra. Isso pode muito bem ser a implicação mais difícil que a nova ciência está nos mostrando. E isso também pode ser a fonte maior de nossa cura e sobrevivência.

O trabalho de Neville recorda-nos que talvez o maior erro em nossa visão de mundo é olhar para as razões externas dos altos e baixos da vida. 


Embora existam certamente causas e efeitos que podem levar aos acontecimentos de todos os dias, eles parecem se originar em um tempo e lugar que aparecem completamente desconectados do momento.

Neville compartilha o ponto crucial do maior mistério a respeito de nossa relação com o mundo que nos rodeia: "A principal ilusão do homem é sua convicção de que existem causas que não o seu estado de consciência".



Mas o que isso significa? Essa é a questão prática que surge naturalmente quando falamos sobre a vida em um universo participativo.

Ao indagarmos quanta energia nós realmente precisamos para a mudança em nossas vidas e em nosso mundo, a resposta é simples:

Esse recurso nos está disponível através da maneira com que usamos o poder da consciência, e onde escolhemos colocar nosso foco. Em seu livro O Poder da Consciência, Neville oferece exemplos de casos que ilustram clara e precisamente como isso funciona.

Uma de suas histórias mais comoventes permaneceu comigo durante anos. Trata-se de um homem de 20 anos que tinha sido diagnosticado com uma doença cardíaca rara que os médicos acreditavam ser fatal. Casado e com dois filhos pequenos, ele era amado por todos que o conheciam.

Quando pediram a Neville que falasse com ele, o homem tinha perdido muito peso e encolheu para quase um esqueleto. Estava tão fraco que até mesmo a conversa foi difícil. Ele concordou em simplesmente ouvir e mostrar sua compreensão enquanto Neville compartilhava com ele o poder de suas crenças.

Do ponto de vista da nossa participação em um universo dinâmico e evolutivo, pode haver apenas uma solução para qualquer problema: a mudança de atitude e de consciência.

Com isto em mente, Neville pediu ao homem que sentisse como se sua cura já tivesse ocorrido.

(Como o poeta William Blake sugeriu, há uma linha muito tênue entre imaginação e realidade: "O homem é todo imaginação". Assim como o físico David Bohm, Blake propõe que este mundo seja uma projeção de eventos em um reino mais profundo da realidade. Através do poder de concentração nas coisas que criamos em nossa imaginação, damos-lhes a cutucada que ultrapassa a barreira do irreal para o real.)

Neville explica como ajudou seu novo amigo a transformar a maneira de pensar: 


"Eu sugeri que, em imaginação, ele visse o espanto do médico ao encontrá-lo recuperado, contrário a toda a razão, a partir dos últimos estágios de uma doença incurável. E que ele visse o médico o examinando e que o ouvisse repetir : ‘É um milagre, é um milagre’. Bem – disse Neville -, você pode adivinhar a razão pela qual eu estou compartilhando esta história: o sujeito se recuperou."

Meses depois, o visionário recebeu uma carta informando que o jovem tinha apresentado recuperação verdadeiramente milagrosa.

Mais tarde voltaram a se encontrar. Neville descobriu que ele estava em perfeita saúde, aproveitando a família e a vida.

O segredo - o homem revelou - foi que, ao invés de simplesmente desejar a recuperação, ele tinha vivido a partir da "hipótese de já estar bem e curado".

E aqui encontramos o segredo para impulsionar os desejos do nosso coração, de movê-los do estado de imaginação para a realidade de nossas vidas cotidianas.


Somos capazes de imaginar sonhos realizados, desejos atendidos, orações já respondidas. 

É pelo poder da imaginação que nós compartilhamos ativamente na construção daquilo que Wheeler chamou de nosso universo participativo.