terça-feira, 28 de julho de 2015

O Dicionário das Dores Obscuras - Segunda parte


The Dictionary of Obscure Sorrows é uma web série escrita, editada e narrada por John Koenigque.
O autor cria palavras para traduzir aquelas emoções poderosas que sentimos em determinados momentos da vida e que não sabemos descrever.
Batalha dos Desengonçados selecionou alguns dos episódios da série e os reproduz.
(Todos os vídeos são legendados em português.)


KOINOPHOBIA - Enquanto você está na vida, a vida parece um épico. Ardente, tênue, imprevisível. Mas, se você se mantém à distância da vida, tudo parece encolher, até que esteja quase fora de foco. Então você começa a escanear a sua vida à procura de algo interessante ou bonito. Mas tudo o que você vê são pessoas comuns reunidas em suas pequenas salas de aula e espaços de trabalho, cada um de nós se movimentando em pequenos passos, como peças em um jogo de tabuleiro.


KENOPSIA - A sinistra, desesperada atmosfera de um lugar normalmente cheio de gente, mas que agora está abandonado e silencioso - um corredor da escola à noite, um escritório apagado no fim de semana - uma imagem emocional posterior que faz com o que lugar não apenas pareça vazio, mas hiper-vazio, com uma inteira população negativa, tão notavelmente ausente que brilha como sinais de neon.

 


ASTROPHE - É difícil não olhar para o chão enquanto você caminha - para reduzir expectativas, para manter o mundo girando, para tentar ficar aterrado onde quer que esteja. Mas de vez em quando você se lembra de olhar para cima, e imagina as possibilidades. Sonha com o que está lá fora. Em pouco tempo, você se encontra ligado ao chão mais uma vez. Confinado em casa. Preso no planeta Terra.



ALAZIA - Depois de tantos anos se perguntando que tipo de pessoa você se tornará, você se esqueceu de que a resposta existe, e que essa resposta um dia acabará por chegar. Se já não chegou.



sábado, 16 de maio de 2015

O que há de você na tarde

Picture by Harry Ekman


























Errar pelas gramas secas,
por alamedas,
e orlas
Perseguir pregos enferrujados
e algumas mariposas
rotas,
também daquela cor

Descobrir conluios
Reparar,
entre os indivíduos que recolhem ervas,
e verbas
e versos daninhos,
certos insetos cínicos
de uma imoral imortalidade

Parece
que pra se fazer eterno, tarde afora,
só inseto tem ciência
(criatura simples, 
que nem gente,
nem nunca 
não vai saber)

É preciso afrouxar, 
com jeito, silêncio
e candura,
o laço lento da tarde 
e seu sunset de cetim

Depois convocar vaga-lumes
com uma penca de pardais
Chamar dois vira-latas,
com seus dois homens de bem
pra cegar o lusco-fusco,
pra serenar as varandas,
pra calar a cigarra
que excita os colegiais

Tem que ir, sem dinheiro e sem armas
lá pra lugares ermos
e gente pouca,
onde corre uma brisa
miúda,
úmida,
sem calcinhas,
que enlambece a crista dos tempos
e arrepia capinzais

Lá,
tem raízes apodrecidas
que se esfacelam
em três ou quatro ilusões
Lá caem pedaços de céu
estrelado,
salpicado
pela caspa divina de Deus
Lá um sapo desses,
de varejo,
que já mija sem veneno,
sem vergonha,
sem ninguém,
se compadece das ruas,
e vestes,
e botas
dos peregrinos e generais

Do ocaso ao acaso,
com sossegos, 
sem censuras,
se acabrunham as penumbras,
encolhem-se as calçadas,
e as tocaias fenecem

A bunda se assenta no chão,
em colos de mãe,
em balanços,
em placidez
Depois,
feito poste,
pinheiro,
honradez,
a cabeça se endireita,
se aprumam as costas,
e o silêncio cai

Caem cortinas, 
cai também um grilo,
sem um grito,
mudo,
nu,
nesta sopa rala de vida

O tiritar perpétuo é engolido a colheradas,
com devoção,
fé,
fome
e coentro
Se sacia o ser que sofre,
se sacia o ser que sorve
o inseto e seu silêncio
servil

Permanece o sibilar constante,
e os vasos nas janelas,
e as flores,
e as virgens,
e blocos de concreto
Permanecem,
na eternidade terna da tarde,
fantasmas, 
e amores, 
e desejos
e a prova, 
e o almíscar
que você deixou por aqui

terça-feira, 28 de abril de 2015

O Dicionário das Dores Obscuras

The Dictionary of Obscure Sorrows é uma web série escrita, editada e narrada por John Koenigque. 
O autor cria palavras para traduzir aquelas emoções poderosas que sentimos em determinados momentos da vida e que não sabemos descrever.
Batalha dos Desengonçados selecionou alguns dos episódios da série e os reproduz.
(Todos os vídeos são legendados em português.)


INTRODUÇÃO




AMBEDO
Substantivo. Espécie de transe melancólico em que você se torna completamente absorvido em vívidos detalhes sensoriais: gotas de chuva deslizando em uma vidraça, árvores altas que se inclinam no vento, nuvens circulares de creme no seu café. A breve imersão na experiência de estar vivo, um ato feito exclusivamente para seu próprio bem.





ANEMOIA
 Substantivo. Nostalgia de um tempo que você nunca conheceu.
Imagine-se atravessar uma moldura para dentro de um quadro de cor sépia, onde você pode sentar-se à beira da estrada e observar as pessoas que passam - todos aqueles que viveram e morreram antes de qualquer um de nós chegar aqui, aqueles que dormem em algumas das casas em que também dormimos, aqueles que contemplam a mesma lua, que respiram o mesmo ar, quem sentem o mesmo sangue nas veias - e vivem em um mundo completamente diferente.





SOCHA
Substantivo. É um truque de perspectiva  - a forma como as suas próprias falhas e realizações são fáceis de perceber porque você as vivenciou. Mas, nas pessoas de quem você não está perto, somente é possível perceber as falhas e realizações que elas optarem por exibir.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um biscoito pro cão


Andando sobre os escombros, 
um homem segue em frente,
o homem leva no bolso
a paz e algumas sementes
Diz que o peso nos ombros
vale a leveza da mente
E ali, junto aos pombos,
o homem entoa um repente

- Eu nasci é pra cantar
no meio da multidão,
bem ao lado do mendigo
e dar biscoito pro cão,
avisar aos dois amigos
que é hora do sopão,
que eu conheço um abrigo
bem melhor que este chão, 
que é pra praticar comigo
aquela tal meditação

Mas o que lhe deu na telha
pra se tornar peregrino?
Foi por acaso um sonho,
um devaneio de menino,
ou foi apenas um meio
de confrontar o destino?

- Moço, já era hora
de tomar jeito na vida
Não tinha onde morar
fui ofertar guarida
Não tinha o que comer
fui dividir a comida
Não tinha como entrar 
fui encontrar a saída 
Não tinha como curar
fui serenar as feridas

terça-feira, 14 de abril de 2015

Carol Rosseti - Delicados Conselhos para Mulheres


Delicadeza. Essa é a palavra que melhor expressa o trabalho da artista e designer Carol Rosseti. 

Mas delicadeza não impede que Rosseti empregue sua verve feminista para lidar com temas polêmicos. 

Nos conselhos que dirige a suas personagens, a artista demonstra sua insatisfação com as tentativas de padronização social, sexual e comportamental das mulheres.

Nesse projeto denominado "Contra a Parede", Carol disponibiliza seu trabalho em formato de poster e incentiva o uso das imagens para intervenções urbanas.

Atenção ao que diz a artista a respeito do uso de suas ilustrações:


"Você pode acessar, baixar as imagens, imprimi-las e expô-las onde e como quiser! Só não pode vendê-las ou modificá-las de forma alguma, ok? No mais, aproveite!" - Carol Rosseti










terça-feira, 17 de março de 2015

Eles sempre conseguem o que querem


É verdade que nas manifestações de junho de 2013 eles até deram uma bambeada. Foi um corre-corre atônito no parlamento, nos gabinetes e nas redações.

- O que está acontecendo?

- O que quer essa gente barulhenta?

- De quem estão reclamando?

- De nós?

- Do prefeito?

- Do Felipão?


- Da Xuxa?

- Da moça do café?

O fato é que jornalistas e políticos foram pegos de surpresa por aquele movimento que surgia das ruas.

Ninguém imaginou que um protesto contra o aumento da passagem de ônibus fosse se tornar o estopim de algo novo: a rebelião sem bandeiras, sem partidos, sem patrocinadores.

Uma rebelião sem alvo definido. Uma rebelião contra tudo.

Uma rebelião contra a corrupção generalizada, contra o tipo de atendimento recebido na saúde, no transporte, na segurança pública, na educação, nos bancos e contra tudo o mais que aparecesse.

- E agora? Vai sobrar pra nós!

- Tenho uma ideia: esses baderneiros precisam de um alvo.

- O alvo somos todos nós, estúpido!

- É o que estou dizendo. Tem alvo demais. Precisamos dirigir a mira da manada.

- E quem você propõe que seja o alvo único?

- Você não consegue imaginar?

- O Felipão? A moça do café?

- Claro que não, animal! O alvo tem de ser bem grandão. Assim não tem jeito de errar.

E assim, cordialmente, eles foram se escafedendo da maneira usual. Com uma só pedrada mataram todos os coelhinhos.

Não apenas se safaram da própria picaretagem. Agora, disfarçados de paladinos da moralidade, podiam se deitar na cama da hipocrisia. De quebra, receberam o antes impensável apoio de significativa parte da população.


- Ainda tem gente apontando pra cá. Não acreditam nas notícias da nossa querida imprensa e não estão contentes em espernear contra o Planalto. Insistem nessa mania de procurar pêlo em ovo. E nosso ovo está bem peludo, você sabe...

- Melhor assim.

- Você deve estar bêbado de novo. Como pode ser melhor que vasculhem nossas contas na Suíça e exponham nosso telhadinho de cristal?

- Tonto! Você não vê que conseguimos dividir essa cambada de reclamões? Tava todo mundo junto, não tava?

- Tava.

- Pois então... Agora é cada um gritando prum lado. Você vai ver: em pouco tempo vão gritar uns contra os outros.

- Parece que já estão gritando. É um tal de coxinhas e petralhas pra tudo quanto é lado.

- Tá vendo? Agora eles miram neles mesmos. Até pararam de se preocupar com aquela bobagem de querer água na torneira.

- Mas ainda pode sobrar pra nós...

- Imagina... Qualquer coisa a gente diz que eles estão apenas querendo justificar a corrupção do outro lado. E que estão todos cegos.

- Acho que você tem razão. Lembra quando colocamos o Collor lá? A gente até podia escalar uma galera para dizer umas coisas inteligentes. O Bolsonaro, o Álvaro Dias, o Caiado...

- O FHC...

- O FHC não.

- Por que não?

- Porque eles ainda não esqueceram das merdas que ele fez.

- Você deve estar brincando! Essa gente tem amnésia. Vamos de FHC também.

- Só se o Bonner der uma mãozinha.

O Bonner deu uma mãozona e tudo funcionou como um Rolex. Deram-nos um alvo e começamos a atirar uns contra os outros.

Usaram a mais eficiente das armas de guerra. Dividiram o inimigo. Caímos como patinhos.

Agora, se você quer que as investigações sejam realizadas em todos os níveis, sem favorecimentos, sem notícias plantadas ou escolhidas, sem fatos ocultados, você será imediatamente colocado na posição de zagueiro do PT. Mesmo que você estiver louquinho para fazer um gol contra.

- Você ouviu a gritaria? Hehe!

- Uns querem expulsar a recém-eleita. Nem querem saber de provas.

- Vão adorar o Temer, o Cunha, o Renan...

- Outros pedem pinico ao militares.

- Você dever estar exagerando.

- Não estou. Tem até os que protestam contra o Paulo.

- O Maluf?

- O Freire.

- Ulalá! Então a coisa saiu melhor do que a encomenda.



domingo, 15 de março de 2015

O Misterioso Caso da Geração que Regrediu Dois Anos


Um macaco cai da árvore da evolução e se estatela no asfalto:
- Pra onde vou agora? - pergunta.

- Para trás - responde outro primata - é só seguir a multidão.


Gerações de luta

É frustrante para a espécie humana quando uma geração perpetua os preconceitos dos pais. Mas o que dizer de uma geração que ignora décadas de lutas do passado, dá marcha ré na história e vai buscar os preconceitos dos avós? Aí já é pra lascar com as teorias do Darwin.

Quando os beatniks passaram o bastão da contracultura para os hippies, uma geração se conectou à outra.

Mas os hippies foram além do legado beat. Os hippies herdaram aquele desejo de encontrar a realidade que se escondia por trás de um manto costurado pelo imperialismo. Os hippies mostraram que o manto estava sujo pelas guerras, que a ilusão coletiva se mantinha pela violência do estado e pelos abusos da informação e do capital.
 

Na principal bandeira daquelas gerações, tremulava a palavra LIBERDADE. Ao lado de Paz e Amor, LIBERDADE tornou-se símbolo inseparável dos rebeldes de então.



O que está acontecendo lá fora?


Quando, em junho de 2013, jovens saíram Brasil afora bradando sua insatisfação, imprensa e políticos ficaram atônitos.

Ninguém sabia definir o alvo daquelas manifestações. A verdade é que todos - políticos e imprensa - se envergonhavam. Ou, ao menos, tinham motivos para vergonha.

Foram pegos de calças na mão pelas manifestações que nasciam espontâneas, sem patrocinadores nem bandeira de partido. Quem não se lembra dos gritos de “abaixa a bandeira aí”?



Contra tudo e contra todos

As manifestações se dirigiam aos políticos em geral. Ninguém canonizava ninguém. As manifestações se dirigiam ao atendimento público federal, estadual, nacional, municipal e privado. As manifestações expressavam o que a imprensa não queria expressar: a insatisfação generalizada contra um sistema que usa o cidadão como ferramenta para construir a prisão que o aprisiona.

Eis que, menos de dois anos depois, aqueles mesmos jovens saem às ruas.

Agora não para lutar juntos contra a estrutura viciada, mas para pintar tudo de preto ou de branco, como se algo na vida fosse uma simples escolha entre Sim e Não.

Aqueles mesmos - os que em 2013 protestaram juntos - hoje precisam marcar passeatas para dias diferentes. De uma hora para outra todos se tornaram gladiadores em potencial.




De olhos bem fechados


No fundo, a explicação não é difícil de encontrar. Políticos perplexos escolheram o salve-se quem puder como lema e saíram distribuindo pontapés.

A imprensa, que nunca soube (ou quis) interpretar aquelas manifestações, mirou sua metralhadora em único alvo e orientou olhares inocentes.


Agora, com alvo único, boa parte dos políticos poderia se deitar nas areias do esquecimento e surfar nas ondas da impunidade.

Não é percebida a covardia. Que revolta justa é essa que ignora o óbvio e joga as mazelas do país sobre um único par de ombros?

Onde foi parar aquela súbita consciência coletiva que se acendeu naquele junho de 2013?


O que será que nos fez desaprender tão rápido? Como diria o personagem Joselino, aquele que foi criança pequena lá em Barbacena: "Eu estava indo tão bem..."



Esquecimento instantâneo


Neste mundo frenético, três anos de involução podem equivaler à perda de três gerações. Acabamos de aprender, ops!, já desaprendemos. Nem foi preciso recorrer aos conceitos de vovó.

Os rebeldes de 2013 sabiam que o inimigo estava oculto e que o monstro era bem maior. Tinham a união como força, a manifestação pacífica como arma.

Os rebeldes de hoje estão cegos para o verdadeiro inimigo e miram no rabo do monstro. Têm a agressão verbal como argumento e a intolerância como fraqueza.

Esses rebeldes permitem que lhes digam contra quem devem (e não devem) se rebelar.

E não é que, para desonrar todas as gerações que quebravam grilhões, até mesmo a bandeira LIBERDADE - símbolo maior de todo rebelde que se presa - passou a ser rasgada em praça pública? 

(*Por justiça, deve-se dizer que há sempre uma minoria que vê o óbvio. Aqueles hippies e beatniks também representavam a minoria dos jovens da época. Mas nem por isso deixaram de ficar na história.
)


Jovens Selvagens

Nelson Rodrigues dava um conselho aos mais novos: "Jovens, envelheçam."

Nelson dirigia-se à juventude transgressora dos anos 70. Mandá-los "envelhecer" equivalia a orientá-los para o comodismo, para a aceitação da ordem estabelecida, para a subserviência aos titereiros que movem os cordões da sociedade envelhecida.

Hoje, Nelsons se replicam mundo afora - não em talento, mas em conselhos subliminares dos tiranos que controlam esse show de marionetes. 

Meninos - digo eu -, rejuvenesçam. Não deixem que lhes retirem esse ímpeto, essa gana de transformação. 

Esqueçam conselhos rodriguianos e valham-se de Platão: "De todos os animais selvagens, o homem jovem é o mais difícil de domar".



Desengonços da mesma ordem:
Jovem, quem é você no Jogo do Bicho