sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Cartas de Einsten - O Amor na Velocidade da Luz

Na década de 80, Lieserl Einstein, filha de Albert Einsten, doou a uma universidade 1.400 cartas escritas pelo pai. Ele havia deixado ordens para apenas publicá-las duas décadas depois de sua morte.
Batalha dos Desengonçados traduziu uma dessas cartas:

"Querida Lieserl,

Quando eu propus a teoria da relatividade, muito poucos me entenderam. O que eu vou revelar a você agora, a fim de transmitir à humanidade, também irá colidir com a incompreensão e o preconceito no mundo.

Peço, porém, para você guardar esta carta enquanto for necessário, anos ou décadas, até que a sociedade tenha avançado o suficiente para aceitar o que eu explico abaixo.



Há uma força tão extremamente poderosa que até agora a ciência não encontrou uma explicação formal. É uma força que inclui e governa todos as outras, e está por trás de qualquer fenômeno operando no universo e ainda não foi identificada por nós. Esta força universal é o AMOR.

Quando os cientistas foram à procura de uma teoria unificada do universo, eles esqueceram a força mais invisível e poderosa.

O amor é luz, porque ele ilumina a quem dá e a quem recebe. O amor é a gravidade, porque faz com que as pessoas se sintam atraídos um pelo outro. O amor é a potência, porque multiplica o que temos de melhor, e evita que a humanidade se extinga no egoísmo cego. Amor revela e desvela. Por amor se vive e se morre. O amor é Deus, e Deus é Amor.

Esta força explica tudo e dá grande significado à vida. Essa é a variável que temos ignorado por muito tempo, talvez porque temos medo de amar. O amor é, portanto, o único poder no universo que o homem não aprendeu a controlar.

Para dar visibilidade ao amor, eu fiz uma substituição simples na minha mais famosa equação. Se, em vez de E = mc 2, aceitarmos que a energia para curar o mundo pode ser obtida através do amor multiplicado pela velocidade da luz ao quadrado, chegamos à conclusão de que o amor é a força mais poderosa que existe, porque ele não tem limites.


Após o fracasso da humanidade no uso e controle das outras forças do universo que se voltaram contra nós, é urgente que sejamos nutridos com um outro tipo de energia.  Se quisermos que a nossa espécie sobreviva, se quisermos encontrar sentido na vida, se quisermos salvar o mundo e todos os seres sensíveis que nele habitam, o amor é a única e última resposta.

Talvez ainda não estejamos prontos para fazer um amor-bomba, um dispositivo poderoso o suficiente para destruir todo o ódio, o egoísmo e a ganância que assola o planeta. No entanto, cada indivíduo carrega dentro de si um pequeno - mas poderoso - gerador de amor. Essa energia ainda espera ser liberada.

Quando aprendemos a dar e receber essa energia universal, Lieserl querida, nós vamos provar que o amor conquista tudo, transcende tudo e pode fazer tudo, porque o amor é a quintessência da vida.

Meu lamento é profundo. Eu não fui capaz de expressar o que está no fundo do coração que pulsou apenas por você, toda a minha vida.

Talvez seja tarde demais para desculpas, mas, como o tempo é relativo, eu preciso dizer que te amo e que, graças a você, eu finalmente obtive minha última resposta.

Seu pai, Albert Einstein”



sábado, 14 de novembro de 2015

Paris - A Fachada do Caos



Seria chover no molhado dizer que os atentados em Paris representam apenas a ponta do iceberg de uma sociedade doente. Para encontrar a causa da doença, basta dar uma olhada alguns palmos à frente do nariz.

O desrespeito às diferenças, a intolerância entre classes, gêneros, cores, etnias, religiões, nacionalidades, opiniões e posições políticas apresenta-se como pano de fundo para essa onda de caos, violência e morte.

Prisioneiros deste ciclo vicioso, já conhecemos as próximas medidas.
  • O governo francês já fechou as fronteiras. Ninguém entra, ninguém sai.
  • O cerco aos imigrantes vai se intensificar. Aqueles de origem árabe, que já eram tratados como suspeitos, agora serão tratados como virtuais culpados.
  • Ameaças de retaliação já pipocam aqui e ali.
  • Estados Unidos e países da Europa vão usar o episódio para justificar ataques a países muçulmanos. Vítimas inocentes receberão solenes pedidos de desculpa.
Não existem mocinhos e bandidos nessa guerra. É preciso apenas não cair na tentação de observar apenas um dos lados da trincheira.

A comoção com as mortes de Paris é legítima, mas convém lembrar que a comoção apenas existe porque as mortes estão nas manchetes.

Recentemente o Estado Islâmico matou 300 Yazídis, membros de uma minoria religiosa no Iraque.

Em 2014, o Estado Islâmico matou mais de 9000 de pessoas no mesmo país.

Durante os ataques de janeiro ao jornal parisiense Charlie Hebdo, mais de 2000 pessoas foram massacradas na Nigéria pelo grupo Boka Haran.

Temos nossos mortos de Mariana, a extinção do ecossistema, a ganância de uma empresa, mas foram os franceses que comoveram o mundo. Porque eram os franceses que estavam nas manchetes.


Santos do Pau Oco

O general francês Paul Aussaresses, que lançou um livro defendendo os casos de tortura contra o movimento independentista da Argélia, deu o seguinte depoimento ao Le Monde: 

"É uma coisa eficaz, a tortura. A maior parte das pessoas não aguentava, elas revelavam tudo o que sabiam. A seguir, nos as matávamos. (...) Se isso me deu problemas de consciência? Devo dizer que não."

Os Estados Unidos mantêm um campo de concentração em Guantanamo, assassinam milhares de pessoas no oriente, patrocinam e derrubam ditaduras, eliminam inimigos sem julgamento, invadem e destroem países inteiros, utilizam drones autorizados a “decidir” quais alvos devem ser atingidos. 

Sempre é bom lembrar que tanto o Estado Islâmico quanto o A-Qaeda receberam apoio e armamento americano em suas origens.

A violação dos direitos humanos praticada mundo afora por governos americanos e europeus cabe em uma nota de jornal. As vítimas não são choradas por aqui.

No Brasil, já havíamos implantado a revolta seletiva. Agora estamos aderindo à comoção seletiva, às lágrimas guiadas por nacionalidades e apresentadores de telejornal.


Faroeste Caboclo

Os recentes atentados em Paris representam apenas os reflexos do tipo de sociedade que a aldeia global parece defender.

Cada vez mais se ouvem manifestações em favor do uso da força, da brutalidade, da punição, do “direito” de usar armas.

Cada vez mais se tolera a prática da tortura, do constrangimento, da prepotência, das mortes por resistência à prisão, dos julgamentos baseados em cor e classe social.

Cada vez mais se aplaudem linchamentos sumários.

Cada vez mais queremos combater o mal com o mal.


Ameaça do Agora

“Não se pode esperar o mundo mudar” – argumentam aqueles que se pronunciam pelo uso de armas – “Minha família está ameaçada agora. É agora que eu preciso me defender”.

Ignorem-se os dados que demonstram que o uso de armas pelo cidadão comum aumenta consideravelmente o número de mortes (incluindo-se aí acidentes com crianças, brigas entre casais e fechadas no trânsito).

Ignore-se tudo isso, porque números não deveriam ser usados para falar de vidas.

Apenas reflita a respeito do caminho que estamos percorrendo. Para onde nos dirigimos? 

Sim, existe uma ameaça real agora. Pode ter alguém armado lá fora. Não abra a porta.

Mas esse agora não é de agora. Há muito tempo que as gerações pensam apenas no presente, e se esquecem das que estão por vir. A indústria das armas agradece.

O pior (nosso país como exemplo) é que em todas essas questões tendemos a caminhar para trás. 

Enquanto os Estados Unidos discutem a redução do porte de armas, aqui se defende exatamente o contrário. (O tema é constrangedor para Obama – aquele que lança mísseis sobre escolas e hospitais.)

Há pouco ouviu-se uma manifestação enfática a favor da redução da maioridade penal. Afinal é preciso fazer algo agora contra esses delinquentes, não é?

A melhor solução, clara e lógica, é trancafiar trombadinhas junto com criminosos profissionais. 

Não importa se assim teremos mais crimes, não importa se perdemos a oportunidade de recuperar jovens, não importa que estejamos marchando rumo à barbárie.

 
Meninos em Luta

Mas onde estão esses manifestantes no momento em que crianças e adolescente resistem nas escolas fechadas em São Paulo? 

Quem se levanta para apoiar os representantes de uma geração que lutam agora pelo agora do futuro? 

Quem se indigna com a truculência do Estado contra meninos que apenas exigem seu direito à educação?


Contra os Moinhos de Vento

A guerra ao tráfico é outra guerra perdida. E perdeu-se por ter sido travada com cavalares doses de burrice, arrogância e preconceito. Mas ainda se pensa que governos devem ter o poder de interferir na vida pessoal de cada cidadão, tratando-o como incapaz de decidir o que lhe convém.

Não seria mais civilizado e humano se o Estado controlasse a distribuição de entorpecentes e tratasse os casos de dependência como questão de saúde pública? Não é assim com álcool, tabaco e os sedutores tarjas pretas?

A guerra ao tráfico gerou crimes e criminosos que não existiriam se nunca houvesse sido travada.
 

Depois a Gente Vê

Nunca se começa nada. A educação fica para o futuro. A redução das diferenças entre classes acontecerá naturalmente, quando Deus estiver de bom humor.

Não seria mais sábio começar a preparar o mundo para as próximas gerações? O que precisamos é permitir às crianças e jovens que se iluminem para algumas evidências:
  • Todos os homens são iguais. 
  • Nacionalidades são apenas rótulos territoriais. 
  • Religiões são apenas meios de chegar ao mesmo lugar. 
  • Fanáticos não as representam.
  • A Terra não tem dono, a Terra é a casa de todos que aqui nasceram.
  • Todos tem o sagrado direito de ir e vir aonde lhes der na telha. 
  • Fronteiras simbolizam a falência da civilização.

Para onde, José, para onde?

Por isso a pergunta permanece: para onde queremos ir, que caminho queremos percorrer? 

Devemos mesmo insistir nas trilha da ira e da vingança, devemos mesmo utilizar as armas do mal para combater o mal? 

Assistiremos impassíveis à contagem das próximas vítimas, desde que não sejam cidadãos europeus ou americanos?

Se continuarmos na política do olho por olho, dente por dente, nosso destino já está selado: acabaremos todos cegos e banguelas.



terça-feira, 28 de julho de 2015

O Dicionário das Dores Obscuras - Segunda parte


The Dictionary of Obscure Sorrows é uma web série escrita, editada e narrada por John Koenigque.
O autor cria palavras para traduzir aquelas emoções poderosas que sentimos em determinados momentos da vida e que não sabemos descrever.
Batalha dos Desengonçados selecionou alguns dos episódios da série e os reproduz.
(Todos os vídeos são legendados em português.)


KOINOPHOBIA - Enquanto você está na vida, a vida parece um épico. Ardente, tênue, imprevisível. Mas, se você se mantém à distância da vida, tudo parece encolher, até que esteja quase fora de foco. Então você começa a escanear a sua vida à procura de algo interessante ou bonito. Mas tudo o que você vê são pessoas comuns reunidas em suas pequenas salas de aula e espaços de trabalho, cada um de nós se movimentando em pequenos passos, como peças em um jogo de tabuleiro.


KENOPSIA - A sinistra, desesperada atmosfera de um lugar normalmente cheio de gente, mas que agora está abandonado e silencioso - um corredor da escola à noite, um escritório apagado no fim de semana - uma imagem emocional posterior que faz com o que lugar não apenas pareça vazio, mas hiper-vazio, com uma inteira população negativa, tão notavelmente ausente que brilha como sinais de neon.

 


ASTROPHE - É difícil não olhar para o chão enquanto você caminha - para reduzir expectativas, para manter o mundo girando, para tentar ficar aterrado onde quer que esteja. Mas de vez em quando você se lembra de olhar para cima, e imagina as possibilidades. Sonha com o que está lá fora. Em pouco tempo, você se encontra ligado ao chão mais uma vez. Confinado em casa. Preso no planeta Terra.



ALAZIA - Depois de tantos anos se perguntando que tipo de pessoa você se tornará, você se esqueceu de que a resposta existe, e que essa resposta um dia acabará por chegar. Se já não chegou.



sábado, 16 de maio de 2015

O que há de você na tarde

Picture by Harry Ekman


























Errar pelas gramas secas,
por alamedas,
e orlas
Perseguir pregos enferrujados
e algumas mariposas
rotas,
também daquela cor

Descobrir conluios
Reparar,
entre os indivíduos que recolhem ervas,
e verbas
e versos daninhos,
certos insetos cínicos
de uma imoral imortalidade

Parece
que pra se fazer eterno, tarde afora,
só inseto tem ciência
(criatura simples, 
que nem gente,
nem nunca 
não vai saber)

É preciso afrouxar, 
com jeito, silêncio
e candura,
o laço lento da tarde 
e seu sunset de cetim

Depois convocar vaga-lumes
com uma penca de pardais
Chamar dois vira-latas,
com seus dois homens de bem
pra cegar o lusco-fusco,
pra serenar as varandas,
pra calar a cigarra
que excita os colegiais

Tem que ir, sem dinheiro e sem armas
lá pra lugares ermos
e gente pouca,
onde corre uma brisa
miúda,
úmida,
sem calcinhas,
que enlambece a crista dos tempos
e arrepia capinzais

Lá,
tem raízes apodrecidas
que se esfacelam
em três ou quatro ilusões
Lá caem pedaços de céu
estrelado,
salpicado
pela caspa divina de Deus
Lá um sapo desses,
de varejo,
que já mija sem veneno,
sem vergonha,
sem ninguém,
se compadece das ruas,
e vestes,
e botas
dos peregrinos e generais

Do ocaso ao acaso,
com sossegos, 
sem censuras,
se acabrunham as penumbras,
encolhem-se as calçadas,
e as tocaias fenecem

A bunda se assenta no chão,
em colos de mãe,
em balanços,
em placidez
Depois,
feito poste,
pinheiro,
honradez,
a cabeça se endireita,
se aprumam as costas,
e o silêncio cai

Caem cortinas, 
cai também um grilo,
sem um grito,
mudo,
nu,
nesta sopa rala de vida

O tiritar perpétuo é engolido a colheradas,
com devoção,
fé,
fome
e coentro
Se sacia o ser que sofre,
se sacia o ser que sorve
o inseto e seu silêncio
servil

Permanece o sibilar constante,
e os vasos nas janelas,
e as flores,
e as virgens,
e blocos de concreto
Permanecem,
na eternidade terna da tarde,
fantasmas, 
e amores, 
e desejos
e a prova, 
e o almíscar
que você deixou por aqui