terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Um Feio, Tantos Bonitos
















Procura o inexistente
no lugar que não está
Proclama que está contente,
mas cansado pra falar
Tem compras pra fazer,
aulas pra frequentar
Chefe pra obedecer,
funcionário pra mandar
Filhos de enlouquecer,
pouca boca pra beijar

Alguém empilhou tijolos,
adornou com Renoir
Disseram que era tendência,
que o negócio é ostentar
Esse papo de essência
é de quem jejua no jantar
Se não curte aparências,
vá ser feio em outro lugar

Pois é aqui que serei feio
no meio de gente bonita
Porque o feio deste meio
já foi capa de revista
E sem guerra ou esperneio
fiador, ou avalista
O feio, de saco cheio,
se autodeclara - artista


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A Prece Perfeita

O Professor Hermógenes, que morreu aos 94 anos em 13 de março de 2015, nos deixou mais de trinta livros sobre ioga e bem-estar. O mestre do espírito adaptou, em Autoperfeição com Hatha Yoga, uma bela e poderosa prece de Paramahansa Yogananda.
Disse Hermógenes: "Transforme-a em ritual diário. Repita-a. Faça com que ela penetre em todos os planos da consciência. Viva-a com a integridade de seu ser."

Seus desengonçados admiradores transcrevem aqui aquela poderosa prece-poesia:

Em cada altar de sentimento,
de pensamento e vontade,
oculto moras Tu.
Oculto moras Tu
pois Tu és sentimento,

vontade e pensamento.
Tu que os guias
faz que saibam seguir-Te,

faz que Te sigam
para que sejam como Tu és.
No templo da consciência,
a Luz, Tua Luz, tem estado sempre,
mas eu não soube vê-la.
O templo resplandece e está íntegro.
Sonhei que o minavam
o medo, a ansiedade,

a ignorância.
Agora que me despertaste,
agora que me tens desperto,
encontro o templo íntegro.
Encontro o templo íntegro
e nele quero adorar-Te,
e nele quero adorar-Te.
Amo-Te no coração.
Amo-Te na estrela e nos seres humanos.
Amo-Te em todos os animais e plantas,
nas células de meu corpo.
E, no corpo, na estrela, na nebulosa
quero adorar-Te.
Quero adorar-Te em toda parte.
Tua vontade divina,
que se fez humana em mim,
brilha em mim, brilha em mim.
Eu quererei e desejarei,
pensarei e agirei,
guiado sempre por Ti.
Eu quererei e agirei
com vontade plena,
pleno de Ti...

Faz-nos qual crianças, Pai,
pois delas é o Teu Reino.
Tu nos queres perfeitos.
Como és Tu perfeito, assim o somos:
Em corpo, em mente e em saúde,
igual ao que Tu és.
Tu és perfeito, Pai,
e somos filhos Teus.
Tu estás em toda parte
e onde estás está a perfeição.
Tu estás no altar de cada célula,
em cada célula do corpo.
Minhas células são sãs,
minhas células são sãs e perfeitas.
Faz com que eu Te sinta nelas,
em todas elas, em cada uma delas.

Ó, Vida de minha vida,

Tu és são
e estás em toda parte:
em meu cérebro, em meu coração,
em meus olhos, em meu rosto,
assim como em meus membros.
Tu moves meus pés.
São sãos e perfeitos.
Estás em minha pele,

membranas, mucosas
São todas sãs, perfeitas.
Tu cintilas em minha medula.
Está sã. É perfeita.
Fluis por meus nervos.
São perfeitos e sãos.

Por minhas veias e artérias Tu circulas.
São sãs e perfeitas.
Estás em meu estômago

e em todas as minhas entranhas.
São sãs e perfeitas.
A saúde e a perfeição

moram em minhas vísceras,
aparelhos
e tecidos,
pois Tu os animas e sustentas.
Todo o meu corpo é são e perfeito:
Tu nele resides.

Tu és meu e eu sou Teu.
Tu és eu. Eu sou Tu.
És meu cérebro.
Ele é lúcido e são,

pois Tu és a luz e a saúde.
Minha imaginação tem poder criador;
estou são ou doente
quando assim o penso.
A cada dia, a cada hora,
tenho saúde mental e física.
Estou são e alegre.
Estou sadio e feliz.
Sonhei que me achava doente,
mas despertei e sorri.
Era apenas um sonho.
Até aqui, estava apenas sonhando
que estava enfermo.
Estou são. Estou perfeitamente sadio.
Faz-me, Pai, sentir Tua vibração de amor,
pois sou Teu filho.
Pois, bom ou mau, sou Teu filho.
Faz-me, Pai, sentir a vibração de Tua saúde
e conhecer Tua sábia vontade.


(Extraído do livro Autoperfeição com Hatha Yoga, Editora Nova Era.)

Desengonços de similar natureza:

Sim, é possível viver de luz 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Solidão dos Azulejos























Pés nus
sobre o ladrilho frio
No lábio inferior,
sorrisos tremem
e lembram sabores -
todos recentes
Nos seios expostos,
na pele rubra,
a evidência de quem foi,
por uma noite,
veementimente
mulher

Que alguém toque um blues,
bem antigo,
baixinho,
quente como os covis
E que esse blues,
tocado assim,
em notas de perdição,
restaure as volúpias,
recolha as culpas
e as migalhas
do amor que restou aqui

Desejos de sair às ruas,
mulher de Almodóvar,
em batons,
risos,
cores trágicas
e uma dor senil
Sair assim,
sob chuva fina,
por ruas desertas,
por silêncios
e descasos
Sorrir como a alma
vermelha
da flor que morre no peitoril

Ah, cidade de céus atuais!
Cidade-instante,
anacronias,
quimeras,
horas que luzem nos cristais,
e pêndulos
Homem assim distante
nem mesmo existe,
porque é homem de outro lugar,
de outro tempo
e amores

Por isso,
ou por vício,
recebe-me,
metrópole descabelada,
orquestra de ilusões ensaiadas,
desarmonia perfeita,
instrumentos,
dissonâncias
e músicos que deixam a barba por fazer

Recebe-me sem honras,
minha pobre,
dura
e áspera
sinfônica de metais

domingo, 13 de dezembro de 2015

A cidade está tomada - Venham homens e animais


 Pedestres first!
Porque é do homem a poesia,
é a cidade dos homens

Depois vêm os patos,
gansos,
capivaras,
e só então
toda a sorte de cães
(mas só os de nossa laia,
ateus,
cristãos,
góticos
e alguns lobos de má procedência)

O cãozinho,
tão contente,
todo festa,
rabo de ventilador,
herda a primazia
de escolher pra família
água,
comida,
três ossos por dia
e até cobertor

Os gatos pardos,
mas só à noite,
podem escoltar andorinhas,
provocar flores carnívoras
e seus gineceus
Porque, nos dias pares,
de dois em dois,
devem acossar insetos,
provocar revoadas
e assoviar cigarras de cor
(Como prova de boa conduta,
se caírem frutos
sobre os ciclistas,
convém seguir o comboio do pólen
e recitar vendavais)

Por aqui venham os ratos,
ratazanas,
camundongos,
roedores de todo naipe
e natureza
Arrastem todas essas vestes,
suas preces,
sua peste medieval
Enfiem-se em todas as frestas,
em gretas,
sarjetas
e no porão
Depois acordem Nossa Senhora
e aquele menino
do letreiro de neon
Chamem
os músicos,
toda gente grande,
um russo,
os cavalinhos do carrossel
e as putas de Angakolan

A cidade está tomada
Abram as fronteiras,
as torneiras,
e um coração de general
Bem-vindos os bárbaros
os bravos,
os brados:
“Sem leis, sem reis
sem todos vocês!”

Sem paletó nesta festa,
sem talher nesta mesa
Temos pizza,
peixe,
queijo Chateaubriand,
três dúzias de champanhe
um Engov à noite,
outro pela manhã

sábado, 12 de dezembro de 2015

Homem de Carro é Bom pra Você















 

- Pode não,
mamãe pode ver
Mamãe é esperta,
mamãe vai saber
Mas ela deixando,
até pode ser

- Querida filhinha
que começa a crescer
Sem escola, sem grana
Como é que vai ser?
Homem de carro
é bom pra você

Janela do céu,
porta do inferno
Festa e foto,
feijão, caviar
Riso, presente,
homens de terno
Mercedes, cartão,
vista pro mar

A mão, o beijo,
a blusa, a bunda
Anônima fama,
mídia e cama
Luxo, lixo,
ávido mundo
Pobre rima,
rica lama

Paris, Pis, SPC
Pó, bulimia
e LSD
Esquece, filhinha,
gente envelhece                        
Quinze minutos
tá bom pra você