sábado, 25 de junho de 2016

Nós Não Vamos Morrer



O envelhecimento é uma doença

Esse é o diagnóstico dos cientistas depois de estudar certas espécies marítimas que nunca envelhecem, que não morrem por causas naturais, que vivas permanecerão até que um tubarão as devore.

Para curar a doença envelhecimento, para que humanos sejam eternos, a Ciência vem realizando variadas experiências nas mais diversas áreas de conhecimento.

Enquanto você deixa seu suor na academia, bebe um shake no almoço ou passa um Rugol para adiar as evidências, geneticistas vasculham cromossomos para encontrar o segredo da imortalidade. Muitos afirmam que, em algumas poucas décadas, a humanidade estará livre do envelhecimento e da morte.


Peças Sobressalentes e Insubstituíveis Emoções

Em paralelo às pesquisas genéticas, avança-se no caminho da produção de órgãos e membros sintéticos. Já é possível prever que impressoras 3D desempenharão um importante papel no palco da imortalidade.

Fígados, rins, corações, pernas, braços, colunas, crânios – eis algumas de nossas peças de reposição.


Para atividades diversas, membros portáteis. Pernas para correr, para saltar ou pernas para rodar. Braços para alcançar, para erguer, braços com câmeras para vasculhar.

Esse mecanismo renovável, esse corpo cada vez mais preciso e perene, exigirá um controle também perene e preciso. Por isso, o cérebro não pode se restringir aos limites da natureza. O cérebro aguarda por sua otimização.

Para atender à essa demanda, acena-se com a iminente substituição de neurônios por chips. Não mais conexões neuronais, mas circuitos eletrônicos.

Eis a inevitável pergunta: qual o limite para a substituição de neurônios? Será que, a partir de determinado percentual de chips implantados, essa espécie ainda será considerada humana?

Mas as possibilidades vão além. Já se trabalha com a hipótese de radicalização do conceito de homem-máquina. A transferência de cérebros humanos para receptores robóticos será realidade em um futuro nem tão distante.

Nessa trilha para o cibernético, o frágil corpo orgânico se tornará obsoleto e teremos que nos habituar à perda de alguns sentidos, à anestesia de sentimentos e a uma nova e modificada noção de ser humano.


O Fim do Corpo Físico

Se percorrermos mais alguns passos na linha do tempo, assistiremos ao fim das fronteiras físicas. O cérebro humano deixará de se comportar como matéria para se comportar como banco de dados virtual.

O upload de conhecimentos, memórias, consciência e personalidade permitirá o uso de avatares holográficos ou HDs de computadores como recipientes da mente.

Segundo o físico Michio Kaku em seu livro The Future of the Mind, com as conexões entre neurônios decompostas em dados, a mente poderá viajar na velocidade da luz:

“Embora possa demorar séculos para o feixe de luz chegar ao destino, do ponto de vista da mente sendo transmitida, a viagem seria instantânea”.

A imortalidade, antes possibilidade remota, agora merece o status de concreta probabilidade. 
Não seria por outro motivo que as pesquisas se estendem por áreas das mais distintas. Neurologia, ciência da computação, nanotecnologia, genética, biotecnologia, engenharia, filosofia, psicologia, entre outras, são áreas diretamente envolvidas nessa força-tarefa pelo eterno.


Conflitos Eternos

O primeiro e mais evidente conflito, como sempre, origina-se nas condições financeiras do candidato a imortal. Quem serão os beneficiados por genes milagrosos, nano robôs, membros artificiais e avatares?

Não é difícil prever um cenário no qual os endinheirados do mundo serão os únicos a caminhar eternamente pelos campos do Senhor. Aos demais, reles criaturas presas na fronteira de suas vidas efêmeras, caberá a marginalidade e a subserviência à elite imortal.

Nesse panorama, a venda e tráfico de peças sobressalentes de segunda mão tendem a incrementar o comércio nas periferias da eternidade.


Formigas Mortais

O Conde Fosca, personagem de Simone de Beauvoir em Todos os Homens são Mortais, adquire a imortalidade ao beber uma poção mágica (previamente testada em um rato).

Fosca testemunha o infindável ciclo de vida e morte de amigos, esposas, filhos e netos. Aos poucos, começa a perceber esses serezinhos frágeis como formigas, como coadjuvantes de uma história que eles nunca conhecerão por completo. Com suas poucas dezenas de anos para viver, as formiguinhas merecem pouco mais do que desprezo.

Caminhando sobre o tapete vermelho da eternidade, Fosca atravessa os séculos como eminência parda de personagens históricos. Não fosse ele imortal, Lênin e Robespierre perderiam um importante interlocutor e as revoluções Russa e Francesa não terminariam da mesma forma.

Mas depois de passar por levantes, manifestos e revoluções - fatos que sacudiram o mundo dos mortais -, esses acontecimentos começam a se apresentar ao conde como meros distúrbios para sua inesgotável rotina.


Fosca conclui que revoluções são inúteis e que a História é uma sucessão de repetições trágicas e sem sentido.

Um imortal assim, solitário, um dia vai acabar por desejar a morte - esse bálsamo que lhe foi retirado.

Ocorre a Fosca que, em centenas ou milhares de anos, ele será o único ser vivo a habitar a Terra.


Além daquele rato, é claro.


A Morte de um Imortal

Ao contrário do Conde Fosca, quando se fala em imortalidade, não se exclui a ideia de morte (pelo menos não enquanto a vida precisar de recipientes físicos para se manter).

O paradoxo se explica porque alguém sempre poderá morrer de um acidente grave, de um atentado, ou durante a indevida formatação de um HD.

Se, entre os mortais - portanto esperada -, a morte exibe-se como acontecimento trágico, imagine a comoção na morte de um imortal.

Por isso, entre aqueles que alcançarem a dádiva perpétua, o temor ao fim acidental ou criminoso pode fazer da eternidade uma constante busca por autoproteção.

A possibilidade de se findar em um instante aquilo que poderia durar para sempre e a consciência da fragilidade da matéria (orgânica ou sintética) devem retirar o que há de mais vital na existência: o sabor da aventura.

E aí está mais um dos contrassensos da imortalidade: o eterno teme o fim como nem mesmo o transitório costuma temer.



A Eternidade em Desencanto

No primeiro contato com o conde de Simone de Beauvoir, o leitor o encontra estirado em uma espreguiçadeira de hotel.

Desencantando com o curso da vida e da história, faça chuva ou faça sol, Fosca permanece no mesmo lugar por semanas a fio.

Fosca percebe que perdeu combustível vital.


Sem a morte como limite para todos os planos e realizações, nada realmente se planeja ou realiza.

Sem a morte, o fogo se extingue, a aventura se apequena, a alma se cristaliza.

Fosca percebe que sem morte não há vida.



Uma Questão de Escolha

É de se esperar que, mesmo ao alcance, nem todos desejem a imortalidade. Assim, em uma mesma família, sempre haverá aqueles satisfeitos com uma vida passageira e suas suficientes dezenas de anos.

Então, entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos, as diferentes escolhas (mortal ou imortal?) tendem a criar um permanente conflito. Como pais imortais poderão aceitar que um filho rejeite a imortalidade?

Para muitos daqueles que optarem pela imortalidade, será insustentável o peso dos séculos, a história sempre cíclica e a presença de um eu eterno e, em verdade, imutável.


O desejo pelo fim um dia chegará.



Desengonços do mesmo naipe:

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Esquivas de Serpente


Vivia de lirismos,
audácias
e esquivas de serpente
Evitava
vergões de aço,
abraços,
frituras,
casa de parente
Rejeitava
agruras,
queixumes,
bons costumes,
perfume
e o lugar comum dessa gente

Sorrateiro, entre missas,
entrava nas catedrais
Pedia a São Francisco
numa língua de pardais:
- Você distrai o bispo,
os ricos
e meia-dúzia de cardeais
Eu vou roubar o dízimo,
beber água do batismo,
e refletir os vitrais
(Porque homem de siso
sabe o que é preciso
para agradar ao Pai)

Sóbrio, entre bêbados,
entrava nos botequins
Falava a língua deles,
russo, alemão, mandarim
Pedia água da torneira,
palito,
alguns amendoins
Depois, de barriga cheia,
subia na cadeira
pra recitar Bakunin

Romântico, entre flores,
entrava pelos quintais
Ouvia orquídeas,
miosótis,
e até cravos banais
Em cada passo,
os pássaros
reconheciam os sinais
Cantavam,
polinizavam,
exibiam as feridas,
desprezavam a vida
dos homens normais


Desengonços do mesmo naipe:

sábado, 18 de junho de 2016

Tanta Cabeça para Rolar


- Aonde você vai com essa panela?

- Pras ruas. Concluir nosso plano.

- Que plano?

- Ué! O de tirar todos os corruptos.

- Eles não se foram ainda?

- A Dilma já foi. Agora é Temer, Cunha, Renan, Sarney...

- Não é gente demais?

- Combinado é combinado. Você vem comigo?

- Só nós dois? Batendo panela pelas ruas?

- Imagina... Deve ter uma multidão por aí. É é melhor ir de metrô que parece que é de graça.

- Sei não, cara. Acabei de vir da Paulista e não tinha ninguém de amarelo lá.

- Não tinha pato?

- Nem patinhos.

- Carro de som, tinha?

- Também não.

- Boneco do Temer?

- Muito menos.

- Vai ver a manifestação é em outro lugar.

- Acho que é em lugar nenhum. A TV não conclamou a galera.

- Não? Nem a Globo?

- Nem.

- Sem pato, sem boneco, sem Globo?

- Sem camisa da CBF, sem carro de som...

- Por que estou sentindo essa sensação estranha?

- Que sensação?

- A sensação de... A sensação de...

- Que sensação, cara? Desembucha.

- A sensação de que... 


- De que fomos enganados?

- É.

- Hmm... Pra ser sincero, isso já havia me ocorrido.

- E não me disse nada? Será que fomos usados? Será que o papo de combate à corrupção era lorota? Apoiamos Aécio, apoiamos Cunha, apoiamos Renan, apoiamos Temer...

- Apoiamos Fiesp, a Globo, a Veja, o MBL... Apoiamos bandidos com a desculpa de expulsar bandidos.

- Mas... Você não está querendo dizer que o pessoalzinho de vermelho estava certo?

- Olha, querer dizer eu não quero. Mas, pelo jeito que a vaca toma o caminho do brejo, é isso mesmo que vamos ter que admitir.

- Nem morto. Dar razão praqueles comunistazinhas?

- Estive pensando sobre isso. Eu nem sei direito o que é esse tal de comunismo.


- Para com isso... Você nunca leu Marx? Nunca leu Hegel?

- Acho que é Engels...

- Leu?

- Eu não li. Nem você. E cheguei à conclusão de que os vermelhinhos não são comunistas. Ou, pelo menos, a imensa maioria não é.

- Ah, tá! Eles mesmos enchem o peito para vomitar que são de esquerda.

- A Juracy disse que ser de esquerda significa dar voz e vez aos mais fracos.

- Voz e vez pros mais fracos? Só se for pra essa gente gritar por um lugar melhor na fila do SUS.

- Nós somos os mais fracos.

- Ou pra... O que você disse?

- Os mais fracos. Somos nós.

- Eu não sou fraco.

- É sim. Fracote.

- Você já está me ofendendo.

- Abaixe essa panela, relaxa. Os fracos não são apenas os famintos.

- Os sedentos também.

- Também. Mas tem os assalariados, os pequenos empresários, as etnias, religiões e gêneros oprimidos...

Religiões e gêneros oprimidos?! Você tem é dado muita trela pra Juracy. Manda tua mulher caprichar na feijoada de sábado e parar de se preocupar com gays e macumbeiros.

- Então você vai continuar batendo panelas e a cabeça na parede? É melhor pensar um pouco, dar uma lida nas notícias. Tem cada uma... Até a Globo se obrigou a mostrar umas coisinhas.

- Eu li e assisti as notícias. E eu não tenho certeza que a Globo abandonou o barco.

- Acho que a Globo nunca esteve nesse barco.

- Vamos ser claros. Você então mudou de opinião? Agora você também acha que deram o golpe na Dilma?

- Sim.

- E admite com essa cara deslavada?

- É digno, não é? Não deveríamos ter apoiado tudo isso. Foi uma loucura.

- Eu jamais vou admitir. Dar razão pros petralhas?

- Na verdade, a maioria que gritou contra o golpe nem votou no PT.

- Votaram em quem? No Aécio?

- Também.


- Na Dilma! Votaram na Dilma. 54 milhões de eleitores - é o que eles dizem.

- Dilma só ganhou 28% dos votos no primeiro turno. No segundo, a opção era Aécio. Temos que concordar agora: o voto nele não era o mais sensato.

- O que era mais sensato? Votar na anta?

- O Aécio tá em todas as listas.

- O Aécio vai receber o que é dele também.

- Um sortimento da Dona Benta?

- Xilindró. Vai cair todo mundo, vai cair geral.


- Pode ser. Mas com que cara a gente vai ficar? Se tivéssemos gritado contra todos, agora também podíamos participar do Fora Temer.

- Fora Temer!

- Cara, senta aí um pouco, guarda essa panela, vamos assistir o Coringão na TV.

- Não assisto mais a Globo. E aí? Vem comigo ou vai se michar?

- Sozinhos? Não vai rolar, cara.

- Logo seremos milhões.

- Sua intenção é boa, mas me diga só uma coisa.


- Digo. Só uma coisa.

- Quem é que nós, os milhões, vamos colocar lá depois de tirar toda essa cambada?

- A gente pensa em alguém.

- Quem? Tá todo mundo citado nas gravações, todos os nomezinhos estão em todas as listas. Não consigo pensar em ninguém fora de listas e gravações.

- Sempre tem alguém.

- Quem? Mahatma Gandhi?

- Esse tá morto.

- Madre Teresa de Calcutá?

- Também já se foi.

- A Juracy?

- Essa é viva demais.

- A Dilma, então?


- Boa. A Dilma. Cadê aquela sua camisa do 7 a 1?



Desengonços do mesmo naipe:


sábado, 21 de maio de 2016

Um Bilhão de Maridos serão Substituìdos



No livro Beautiful You, Chuck Palahniuk conta a história de C. Linus Maxwell, criador, fabricante e distribuidor de brinquedos eróticos femininos.

Desenvolvidos a partir dos ensinamentos práticos de Baba Gray-Beard, uma bicentenária feiticeira sexual do Himalaia, os brinquedinhos de Maxwell são tão perfeitos que a popularidade é instantânea.

Imediatamente após o lançamento, enormes filas de mulheres se estendem pelas calçadas das lojas Beautiful You.

Enlouquecidas na descoberta de prazeres nunca antes sentidos, já não interessam as sensações triviais que maridos, namorados, amantes e afins podem oferecer.

Afinal, que homem seria páreo para a Tremulante Serpente do Amor ou a Doce Varinha da Margarida? Que homem poderia superar, principalmente, The Dragonfly, a Libélula?

Isoladas em seus quartos, reféns de  aparelhinhos lascivos e cremes cintilantes, mulheres  em êxtase, exauridas em deleites,  abrem apenas uma fresta da porta para pedir novas baterias.

O slogan da empresa Beautiful You“um bilhão de maridos serão substituídos” – mostra-se profética. Homens descartados perambulam pelas ruas. Outros se desesperam para salvar a sanidade das parceiras de amor.



Melhor do que Amor

Better than Love – é o que se lê na fachada das lojas da Beautiful You. Apenas uma tecnologia assim, melhor do que o amor, capaz de causar um Big Bang sexual, de exacerbar prazeres carnais, poderia alterar o comportamento humano de forma tão radical.

Ops! Será?

A verdade é que a tecnologia já alterou o comportamento do homem civilizado muitas vezes. E muitas vezes mais vai modificá-lo.

Na própria área de C. Linus Maxwell – sexo -, é possível imaginar o que a incipiente realidade virtual terá a oferecer. Os primeiros indícios de nova mudança comportamental já roçam nossos narizes e partes pudendas.



Essas sensações todas

Vamos analisar esses indícios a partir de nossas capacidades sensoriais? 

Som e Imagem - A transmissão e recepção de som e imagem há muito fazem parte de nosso cotidiano. Audição e visão estão, portanto, satisfeitas.

Hologramas - Empresas já realizam reuniões com hologramas de executivos. Sem deixar seus países, engravatados virtuais de Boston, Londres, Madri e Tel Aviv debatem em torno de uma mesa na Alemanha. A visão, depois de satisfeita em duas dimensões, agora se realiza em possibilidades tridimensionais.

Cheiro - Hoje já se diz ser possível transmitir cheiros. Um aparelho decodificador recebe os códigos aromáticos de um transmissor via internet. O olfato se satisfaz.

Tato - Um experimento demonstrou a simulação da sensação de tato. Manuseando um pequeno joystick, um usuário controla um pato de borracha em uma tela. Ele dá um soco e o pobre pato balança, gira e volta à posição inicial. O usuário revela ter sentido o impacto na mão ao esmurrar o bichinho. Quando acaricia o pato, diz sentir a textura da borracha.

Assim, se a tecnologia já consegue satisfazer audição, visão, olfato e tato, o único sentido que se espera ser transmitido é o paladar.




Questão de Gosto

Alguma das implicações sexuais do envio e captação de estímulos e sensações são previsíveis.

Hologramas cada vez mais perfeitos, que falam, perfumam-se e podem ser “tocados”, poderão frequentar, incógnitos, todas as camas do mundo.

As relações amorosas receberão o primeiro impacto. A questão da fidelidade e do ciúme precisará ser repensada.

Exemplo? Por envolver também questões machistas, diga-me se você, homem, não vai repensar para se adaptar a seguinte situação:

Você está assistindo Walking Dead no conforto de sua sala de estar. Sua parceira está no quarto testando aquela nova geringonça de realidade virtual.

Depois de alguns bons minutos, ela sai do quarto.  Você percebe certo desalinho, um rubor nas faces, um andar indolente e aquele conhecido semi-sorriso de satisfação.

Enquanto ela entra na cozinha e vasculha a geladeira, você se aproxima da porta aberta do quarto.

Um brancão de bochechas rosadas e cabelos vermelhos, nu, ergue-se da cama e o encara por dois segundos. Depois mergulha no monitor da engenhoca e vai acender um cigarro lá em Dublim.

O cheiro de cigarro e cerveja invade suas narinas. O sangue ferve de indignação. Aquilo já é demais.

- Amor – você reclama -, holograma irlandês não dá, né? Ou pelo menos desliga essa merda depois de usar.




Memória Insuficiente

Indignações e nacionalidades à parte, alguns consideram esse cenário impossível pela ausência de um único fator.

Sim, você já adivinhou.

A coisa tem cheiro, toque, som e imagem, mas sem paladar? Não vai rolar.

O mais prudente é ignorar esse nem tão distante futuro e perceber no presente o efeito da tecnologia em nossas vidas.

Para citar um caso historicamente recente, a televisão acabou com os diálogos nas salas de estar. A novela recebeu o privilégio da atenção e o papo ficou para o intervalo.

O automóvel já não havia nos usurpado o acesso às ruas? E o telefone celular?

Ah, o celular... Esse merece parágrafos e emoticons.

Ele já havia atingido o status de imprescindível - “Saio sem calcinha, mas não saio sem celu”

Mas smartphones e similares superaram qualquer tecnologia e tornaram-se tão poderosos quanto os brinquedinhos de C. Linux Maxwell.

Neste instante, em qualquer lugar do mundo civilizado em que você estiver, erga os olhos e dê uma espiadinha. Quantos à sua volta mantém os olhos vidrados em suas telinhas, seus dedos hábeis cutucando o minúsculo teclado?

A cena se repete pelos recônditos do planeta. Uma legião de corcundas se desconecta do próprio ambiente e mergulha num oceano de constante ansiedade.

Nessas águas, a vaidade e a necessidade de atenção se apresentam ainda mais turvas do que no mundo real.

Já não é importante viver o momento. É urgente registrar o momento. Esquecemos da vida para armazenar a imagem de recordações inexistentes, esquecemos do presente para preparar um histórico para uso futuro.



Felicidade Social

Antes da salada, foto e compartilhamento.

Antes do Taj Mahal, foto, compartilhamento, souvenires na barraquinha. Se der tempo a gente entra lá.

Declarações de amor? Beijo e sorriso, foto do sorriso e do beijo, compartilhamento, o mundo precisa saber de um amor perfeito.

Brigou com o amigo? Post com mágoa, indiretas, alfinetadas e negação futura. Não, juro que não era pra você.

Família visitando a vovó? Todos sentados na sala, olhos baixos, pequenos retângulos luminosos, risadas solitárias, teclas nervosas, fones de ouvido, já tá na hora de ir? Vovó tira um cochilo em frente à TV.

Jantar romântico? Brinde, beijo, foto, post. Mais umazinha pro Face, meu amor?

Encontrou o papa? Selfie, compartilhamento, pergunte se ele tem whatsapp. Se possível, peça para ele repetir a missa em 140 caracteres.




Nos Porões de Notre Dame

Os motivos de C. Linux Maxwell, especialista em prazer feminino, vão além do puro interesse comercial. Suas razões se mostram bem mais sinistras no decorrer da história (as razões aqui permanecerão secretas, é claro).

Mas a ocultação de secretas razões não nos impede de comparar tecnologias reais e fictícias.

Haste Giratória de Relaxamento ou o Chicote Balançante, doces invenções de Maxwell, levam à exacerbação dos prazeres solitários e ao consequente isolamento.

As tecnologias que são ofertadas em nossa pobre vida real conduzem-nos à anestesia de sentimentos e à ausência de contato com aquele que está mais próximo.

Tendo o olho no olho se tornado raro, a capacidade de empatia apresenta acelerado declínio. Um toque de celular, um bip, ringtones, uma musiquinha - esses alarmes interrompem qualquer beijo, DR, sonho ou pedido de aumento. Eles exigem atenção imediata.

Se ignorados, esses alertas sonoros e luminosos conhecem nosso sentimento de culpa. Vão insistir, dar piti, fazer beicinho e espernear até o fim da bateria.

Adestrados por essas chantagens e reprimendas eletrônicas, cedemos. Corremos para atender o aparelhinho que berra na sala ao lado e assumimos finalmente a supremacia das máquinas sobre as relações humanas. 

Nem é preciso vestir a pele de um ogro antitecnologia para perceber que acabamos por criar a sociedade planetária dos Quasímodos Cibernéticos. Já tem até grupo no Whats.


= = =


- Até que esse papa argentino é gente boa.
- Você mandou ele te seguir no Instagram?
- Sim, mas esqueci de pedir a bênção.
- Foda-se a benção, olha aqui.  Nem acabamos o almoço e já temos cinco mil curtidas. 
- Vamos mitar, brother. Com o Chico, vamos mitar.





Desengonços do mesmo naipe:

sexta-feira, 22 de abril de 2016

O Início de Todo o Mal

Picture by Mordecai Moreh



"Quando a pessoa não sabe que não vê,

não sabe que é cega."
- Paul Veyne


- Esse caos é culpa da humanidade, você sabe.

- Que humanidade?

- Ué! A humanidade. Eu, você, sua mãe, sua vizinha, a Mara Maravilha, o Agnaldo Timóteo... Todo mundo.

- A Mara Maravilha é culpada pelo caos?

- Tem a parcelinha dela. Estamos todos juntos, empenhados nessa força-tarefa para explorar uns aos outros, invejar uns aos outros e matar uns aos outros.

- E não podemos sair dessa furada?

- Impossível. Está nos nossos genes. A humanidade precisa cumprir o seu destino.

- O destino da autodestruição?

- Esse mesmo. Trazemos a semente do mal.

- Ismael não pensa como você.

- Que Ismael?

- O gorila.

- O go...

- ...rila.

- Esse gorila pensa? E pensa diferente de mim?

- Bem diferente. Ismael adquiriu consciência de si mesmo, observou os homens, aprendeu a se comunicar por telepatia, teve acessos a livros, tornou-se um pensador.

- E você já falou com esse sábio macaco?

- Não. Mas eu li o que ele disse ao aluno.

- O gorila tem alunos?

- Um aluno.
 Um cara que seguiu o seguinte anúncio de jornal: “Professor procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo”.

- E onde está esse aluno?

- Está no livro Ismael – Um Romance da Condição Humana, de Daniel Quinn.

- Ah, um romance...

- Um romance bem elucidativo. Quando o aluno entra na sala de aula, por exemplo, ele encontra esta frase na parede: “Com o fim do homem, haverá esperança para o gorila?”

- Você acha isso elucidativo?

- É um koan.

- Ah, um koan.

- Koan é uma frase intencionalmente inexplicável.

- Obrigado.

- A esperança do gorila estaria na sobrevivência ou na extinção do homem? Ambas as interpretações são possíveis.

- Sei. Mas você disse que o gorila discorda de mim.

- Totalmente. Principalmente nesse negócio de humanidade. Quem faz parte dela? Você acha que os indígenas ainda não civilizados da Amazônia fazem parte da humanidade?

- Ãn... Sim.

- E os povos de Papua Ocidental? Pertencem à humanidade?

- É provável.

- E os sentineleses das Ilhas Andaman?

- Também. Penso eu.

- Então os não civilizados também fazem parte da humanidade?

- Suponho que sim. São homens, não são?

- São homens, mulheres, crianças...

- Onde você quer chegar?

- Na sua opinião, aqueles homens, mulheres e crianças que vivem longe da civilização trazem a semente do mal?

- Não estou bem certo.

- Ismael diz que nenhum homem tem a semente do mal, que não existe o gene da autodestruição. Diz que tudo começou com a maçã.

- Que maçã? Da Eva?

- Essa mesmo. O que diz a Bíblia a respeito do pecado original?

- Que Deus criou Adão e Eva, que os dois foram colocados num belo jardim, cheinho de verduras, legumes e árvores frutíferas.

- Eles podiam comer de tudo?

- Tudinho. Apenas uma árvore era proibida — a árvore do conhecimento do que é bom e do que é mau.

- Mas, como tinham livre arbítrio, Adão e Eva foram lá e...

- Nhack! Comeram a maçãzinha.

- Comeram a maçãzinha. Para Ismael, a agricultura está representada naquela maçã. A agricultura está na raiz de todo o mal.

- Esse macaco é meio pirado.

- Será? Há quanto tempo começamos a praticar o tipo de agricultura de hoje, extensiva, com produção em longa escala?

- Tenho a impressão que o início foi há alguns milhares de anos.

- Podemos concordar em dez mil anos?

- Está bom pra mim.

- Há quanto tempo o homem existe na face da Terra?

- Há mais de três milhões, pelo que se sabe.

- Então o homem só tem plantado alimentos nos últimos 10.000 anos em 3.000.000 de anos de existência?

- Prestando atenção nos zeros, é pouco, né?

- Quase nada. E o que as pessoas faziam antes da agricultura?

- Coletavam frutos, legumes e verduras. E caçavam.

- Será que aquele modo de vida funcionava bem?

- Parece ter funcionado perfeitamente durante três milhões de anos.

- E é bastante provável que aquelas pessoas já conhecessem a possibilidade de plantar alimentos. Não é razoável pensar que ninguém houvesse percebido um grão germinar ou uma batata brotar.

- Tem razão.

- Durante três milhões de anos, as pessoas viam que feijões germinavam e que batatas brotavam, mas não consideraram necessário plantar. Até que, um belo dia, há apenas dez mil anos, alguém decidiu: “vou plantar essas batatinhas aqui, feijões lá...”

- Sempre tem um corno...

- O que o corno... O que o cara fez quando decidiu plantar as batatinhas?

- Enfiou na terra, por certo.

- Simbolicamente falando, quero dizer. O que ele fez?

- Me deixa pensar...

- Sim, pense um pouco. Vai fazer bem pra você.

- Plantando a batata o homem deixou de depender dos humores da natureza?

- Tomou posse da Terra. Ao plantar a primeira batata ou o primeiro grão de feijão, aquele sujeito comeu da árvore do conhecimento, assumiu a função de modificador da natureza, surrupiou o papel de Deus.

- Mas o cara estava colaborando com a natureza, não estava? Enfiava alguns feijões na terra e eles se multiplicavam.

- Colaborando com a natureza? Como? Quando começamos a praticar a agricultura extensiva (ou agricultura totalitária, como prefere Ismael) deixamos de seguir as leis mais elementares da natureza, deixamos de seguir as leis que todos os outros seres deste planeta sempre seguiram.

- E o que diz nessa sua Constituição da Natureza?

- Diz que você pode comer tudo o que Terra der, mas não tem o direito de impedir o acesso de outros seres ao alimento. A agricultura totalitária ceifa a fonte de alimentação de aves, insetos e outros animais, acaba com ecossistemas e não permite que não humanos se alimentem de suas batatas e feijões.

- Entendi. Primeiro, espantalhos para espantar as aves. Depois agrotóxicos, inseticidas...

- Além de acabar com outra característica da natureza – a diversidade. Essas vastas extensões de terra com predomínio de apenas um tipo de vegetação (feijão, batata, mandioca, cana-de-açúcar) atenta contra o equilíbrio natural do planeta.

- Não é de espantar que centenas de espécies sejam extintas todos os dias.

- Sim, algumas por nossa ação direta e premeditada.

- Bom, não é apenas o homem que mata...

- Claro que não. A morte é parte do ciclo natural. Mas nenhum outro animal deseja exterminar uma espécie. O leão sai de casa, investe contra os veados do campo, abocanha um infeliz e deixa que os outros fiquem pastando em paz. Não vai nem levar um veadinho para o lanche da tarde.

- Quanto maior o número de veados, melhor para o leão.

- Claro, mas ele não impede que o tigre se alimente da mesma carne tenra. Sem falar que nenhum animal escraviza o outro como fazemos.

- Bom, essa lei nós seguimos. A lei do mais forte.

- Embora essa seja a única lei da natureza lembrada pelos que defendem o nosso modelo de agricultura e pecuária, não existe a lei do mais forte. Existe a lei do mais adaptável. Nós não nos adaptamos, nós resolvemos adaptar o ambiente a nosso bel-prazer.

- Parece que era inevitável. Foi o caminho que a humanidade resolveu seguir.

- A humanidade resolveu seguir? Estamos na quinta página e você ainda não entendeu? Nós não somos a humanidade. Não foi a humanidade que seguiu esse caminho.

- Quem foi? As baleias?

- O caminho percorrido pela humanidade durante três milhões de anos era outro.

- Já sei. Todo mundo coletava e caçava.

- Sim. Mas não foi a humanidade que decidiu plantar.

- Nem as baleias.

- Nem as baleias. Foram uns caras ali pelas margens do Nilo. Uns gatos pingados. O resto da humanidade continuou a fazer o que sempre fez e faz até hoje.

- O resto da humanidade encolheu, né?

- O resto da humanidade seria bem maior se aqueles poucos gatos pingados não tivessem se multiplicado e imposto sua forma de vida. Nós somos descendentes daqueles gatos pingados que representam uma fuga da rota da humanidade. Nós não somos a humanidade, apenas crescemos demais.

- E por que crescemos tanto?

- Porque, por mais que violemos as leis naturais, ainda estamos presos a determinadas condições da natureza. Uma dessas condições diz que a população aumenta na proporção da oferta de alimento. A agricultura produz excesso de alimento, a população que recebe esse excesso cresce. É inevitável e acontece entre todas as espécies.

- Então nós somos as ovelhas negras que deram certo?

- Deram certo? Onde? Não é possível que a civilização criada pela agricultura dê certo. O motivo é simples: não sabemos qual é o certo.

- Sabíamos antes?

- Durante três milhões de anos, sabíamos. Já tínhamos errado e acertado o suficiente para saber exatamente o que era certo.

- Você quer dizer que o mundo civilizado tem apenas alguns milhares de anos de erros e acertos. Pouco tempo para aprender. Devo concordar que a diferença de carga horária é brutal.

- Além disso, é impossível aprender num mundo mutante. Nossa realidade se altera o tempo inteiro e vivemos expostos a novidades que nos obrigam a nos adaptar, a acertar sem ensaio ou treinamento prévio.

- E para o homem não civilizado? O que é o certo para ele?

- O certo é o que sempre foi certo. O certo é o que vale para todos os seres da Terra: caminhar conforme a lei dos deuses.

- Dos deuses?

- Dos deuses. Para todos os povos não civilizados que existiram, e para todos que ainda resistem nos confins do planeta, basta seguir a lei dos deuses. A lei dos deuses não é outra senão a lei da natureza.

- Saímos da Bíblia, então?

- Da Bíblia e de todas as religiões reveladas: cristianismo, hinduísmo, budismo, islamismo, judaísmo etc. O culto aos deuses, o animismo, é e sempre foi a única religião universal. Da Amazônia a Papua.

- O animismo diz que tudo tem uma alma, não é?

- Tudo. A árvore, o peixe, a água, as formações topográficas, tudo tem alma, inclusive objetos.

- Não é de espantar que esses povos vivam assustados. Com tanta alma por aí.

- Eles não vivem assustados. O que eles demonstram é uma permanente atitude de respeito com tudo que os cerca. Eles respeitam a árvore, a água e o peixe. Eles acreditam que há vida ali. Ninguém precisou ensinar, ninguém desceu dos céus para revelar. Eles sabem há milhões de anos. Basta respeitar a vida, seguir a lei dos deuses e tudo vai ficar bem.

- Mas é uma vida meio difícil, não é? Depender apenas da natureza para ter o que comer.

- Você acha? Ismael prevê essa inevitável pergunta e imagina um diálogo entre um missionário que chega ao Brasil e um nativo.

- Como é isso, esse diálogo?

- O missionário tenta convencer o nativo das vantagens da agricultura. Em determinado momento, o missionário pergunta o que o nativo faria se estivesse com desejo de comer mandioca fora da época da mandioca.

- Boa pergunta. Essa é uma vantagem que nós temos. Podemos comer mandioca o ano inteiro. Basta abrir uma lata. O que o brasileirinho responde?

- Responde que quando não tem mandioca, ele come batata. Responde que loucura é a do homem civilizado que planta a mandioca, cuida da plantação da mandioca, colhe a mandioca, transporta a mandioca para a indústria, descasca e corta a mandioca, fabrica e transporta a lata para enlatar a mandioca, enlata a mandioca, transporta a mandioca enlatada para o supermercado, compra a mandioca enlatada, transporta a mandioca enlatada para casa, abre a lata, come a mandioca, transposta a lata para o lixo ou para a reciclagem...

- É suficiente. Já posso imaginar o destino dessa lata também.

- Você não concorda que é trabalho demais apenas para que alguém possa comer mandioca quando lhe der na telha?

- É verdade. Vá gostar de mandioca... Que trabalheira.

- Sim. Essa foi outra das consequências da agricultura totalitária. Nenhuma outra cultura da história trabalhou ou trabalha tanto quanto a nossa. As culturas que seguem a lei dos deuses trabalham apenas duas ou três horas por dia para caçar ou coletar.

- Duas ou três horas? Que maravilha!

- A agricultura criou o mito trabalho. A agricultura nos fez acreditar que não existe vida sem trabalho, que o trabalho enobrece o homem, que o ócio é condenável.

- “Ganharás o pão com o suor do teu rosto.”

- Faz sentido, não é? Depois do pecado original, o homem precisa se exaurir para manter o próprio sustento.

- O sustento que, segundo o seu gorila, ele teria de graça trabalhando duas ou três horas por dia.

- Está vendo? Você percebe a enrascada que entramos quando resolvemos nos afastar da linha evolutiva que todas as outras culturas seguiam, quando resolvemos esquecer tudo o que sabíamos durante três milhões de anos? Você percebe que, apesar desse esquecimento, ainda nos consideramos mais inteligentes que os povos que mantém o conhecimento vivo?

- Você está querendo dizer que não somos especiais ou mais inteligentes do que os homens do neolítico?

- É isso mesmo o que eu quero dizer. O cérebro humano de hoje não difere do cérebro humano de dez mil anos atrás. Esse período de tempo é insignificante na linha da evolução humana. Não somos mais inteligentes, não somos a humanidade. Nós, pessoas do mundo civilizado, somos apenas aquela parte da humanidade que se jogou nesta aventura irresponsável, somos aqueles que submetem outras espécies e culturas, somos aqueles que tentam moldar o mundo ao nosso modo de vida.

- Com bandeirantes, missionários, fazendeiros...

- Sim. Para nós, nossos deuses de dez mil anos são mais verdadeiros do que deuses de três milhões de anos. Os nossos mitos aprendidos são mais plausíveis do que os mitos nascidos da experiência com a natureza, nascidos da capacidade de sentir os elementos por estar em comunhão com eles, dos mitos que não pedem explicação nem revelações, dos mitos que requerem apenas sensibilidade.

- Agora você está falando como um animista de verdade.

- Não. Estou falando que, à luz da racionalidade, poucos mitos se mantêm. Mitos cristãos, hindus ou muçulmanos não satisfazem mais à razão do que um deus da chuva ou do fogo. A diferença é que o deus da chuva existe há milhões de anos, enquanto os deuses pós-agricultura, tanto no Oriente quanto no Ocidente, são recém-nascidos, coisa de alguns milhares de anos de idade. E esses novos deuses não são fruto de inteligências mais evoluídas, mas de inteligências que criaram seus deuses de acordo com seus próprios costumes.

- Começo a entender o seu macaco.

- Nós não somos a humanidade, a humanidade não tem a semente do mal, apenas um galhinho dessa árvore frondosa se desviou.

- Nós, infelizmente.

- Sim, nós. Compreende que nada disso precisava ter acontecido? Que estamos neste caos porque um dia, depois de três milhões de anos de harmonia, alguém achou que seria uma boa ideia dar uma mexidinha no mundo?

- O início de todo o mal.

- O início de todo o mal. Com o advento da agricultura, a posse da terra começa a ser disputada, as fronteiras se erguem, aldeias são construídas, depois cidades e países. A força da ambição passa a predominar, as diferenças sociais começam a se estabelecer, os donos da produção mantêm estoques de alimentos enquanto pessoas morrem de fome. Poluem-se os mares, os rios e o subsolo, florestas são abatidas, espécies exterminadas, a guerra por territórios se inicia. Hoje já não é possível caminhar sobre a Terra se você não possuir os documentos e motivos certos. Criamos um monstro e estamos sendo consumidos em suas entranhas.

- Tudo por causa daquele corno.

- Entende agora que nós não somos a humanidade? Que o homem não tem a semente do mal, o gene da autodestruição, e que tudo isso aconteceu quase por acaso, pela iniciativa de poucos aventureiros?

- Sim, nós não somos a humanidade. Seria muita arrogância pensar assim.

- E as religiões apenas contribuem para essa arrogância. As religiões afirmam que a humanidade é imperfeita. Mas, para elas, a humanidade existe há dez mil anos e está representada pelo homem civilizado. Também ignoram os três milhões de anos de história humana e as culturas que ainda persistem em harmonia com a natureza.

- O homem é perfeito, então?

- Óbvio. Tudo é perfeito. Você pode dizer que um leão é imperfeito? Um leão só pode ser um leão - é apenas assim que ele é perfeito. O mesmo se dá com a margarida, com o rato, com a águia, com o rio, com o homem. O homem não pode ser um esquilo, um super-homem ou um santo. Ele só será perfeito sendo homem.

- Seguindo a lei dos deuses.

- Como todas as outras espécies, como todas as culturas que não caíram no engodo da agricultura totalitária.

- E agora? Qual a sugestão que Ismael dá para sair do caos em que esta partezinha da humanidade se meteu e meteu todas as outras criaturas?

- Nenhuma.

- Nenhuma sugestão? Estamos ferrados então?

- B tem algumas ideias.

- Quem é B?

- Talvez a Besta ou o Anticristo. Talvez alguém inofensivo. Está em outro livro de Daniel Quinn. Chama-se a História de B.

- E o que diz esse tal de B?

- Diz ser possível que ainda tenhamos uma pequena chance. Mas, para isso, precisamos de uma nova visão. Uma visão que não esteja nas escrituras nem nas palavras de todos os pensadores e filósofos da história, porque escrituras e filosofia ignoram a verdadeira idade da humanidade. Três milhões de anos é nossa idade, não dez mil. Precisamos de pessoas que vejam o mundo por esse ângulo.

- E como se constrói essa nova visão?

- A sugestão de B para sairmos da enrascada ficará para outro dia. Mas ele diz que é possível. Só depende de nós.

- Depende de nós? Então que Deus nos ajude.

- Que os deuses.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Com o Temer, nada a temer
















Pensou que bastaria
que a dona eleita saísse,
mas não contava com a astúcia
do traidor que era vice

Agora tá tudo certo,
querido povo brasileiro,
a raposa já prometeu
cuidar bem do galinheiro

O gato também afirma
tomar conta do aquário,
e o tal de Bolsonaro
já vai sair do armário

É claro que tem amigos
com o selo carne e unha,
o pau que bate em Chico
não pode bater no Cunha

E por falar em pau,
em nome da minha amada,
eu só posso agradecer
o seu sim pra marmelada

Graças ao seu apoio
e alguns dos seus eleitos,
realizamos o sonho
daquele golpe perfeito

E pode ficar tranquilo

com os caras que elegeu,
agora aquelas denúncias
vão pra conta do Abreu

Assim estamos quites,

eu nada devo a você,
o Temer tomando posse
você nada tem a temer

O resto a gente ajeita
ou fica para amanhã
um beijo para as crianças,
outro para o Renan

domingo, 17 de abril de 2016

Mãe tem de ser Gordinha



Não quero falar da sua,
nem nas entrelinhas
mas mãe, feito a lua,
só é plena se gordinha

Tendo menos de
um metro
e sessenta,
a baixinha,
nem carece
coroação,
basta beijar a rainha
que te ensinou a prece
para o Deus da Criação

A minha,
com quilinhos a mais
e olhos de encanto,
tem palavras sempre de paz
e pequenas mãos
de acalanto

Pra sossegar a tormenta
e serenar o meu pranto,
tem alma de criança
num metro e cinquenta -
se tanto

Por isso, naquele instante
em que bate o medo do escuro,
tudo está como antes:
aquelas mãos,
tão distantes,
são o meu porto seguro