domingo, 11 de setembro de 2016

Caravelas Invisíveis


"A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam.”

(José Saramago - Ensaio sobre a Cegueira)


Litoral das Américas, 1492. Caravelas espanholas aproximam-se da costa para conquistar o Novo Mundo.

Na praia, a dez passos do mar, cerca de trinta homens e mulheres dançam em círculo.

No centro, sentado na areia, o velho pajé fuma um cachimbo de bambu.

Estão nus. Em algumas cabeças, adornos de penas coloridas. Em alguns lábios, piercings de madeira. Em todos os pés, a hipnose dos ritmos da selva.

Nas caravelas, os espanhóis já apontam seus binóculos para os homens e mulheres nus (para as mulheres, na verdade).

Uns sacam seus valiosos espelhinhos de troca e penteiam o bigode. Outros limpam as unhas com a espada e tiram meleca do nariz.


As caravelas se aproximam. Lá da praia ninguém vê.

Na areia, o círculo se desfaz. Agora, sentados junto ao mar, marola nas canelas, homens e mulheres contemplam a tarde cintilar no imenso azul.

Crianças correm nuas, saltam sobre pernas adultas, riem daquelas águas todas.

As caravelas se aproximam. Mas da praia ninguém vê.

Marinheiros já dispensam seus binóculos, a horda se agita, o capitão berra últimas recomendações.

Na areia, mesmo as crianças serenam, o sol se recolhe, o horizonte se define.


As caravelas se aproximam, mas da praia ninguém vê.

Ergue-se então o pajé. Um olho perscruta a imensidão. O outro, as coisas primeiras, urgentes, aquelas que vem dos mistérios além-mar.


Com a compreensão ancestral de tudo que se move, o pajé observa as depressões, as fendas movediças que na água se abrem. O invisível corta o mar, vem ao encontro deles. E da praia ninguém vê?

O pajé fecha os olhos porque é preciso esquecer alguma coisa. É preciso desaprender o que sabe, desver o que já viu. O que cheirou, descheirar. O que ouviu, desouvir.

Tem de voltar a ser criança, ao momento que viu pela primeira vez o urucum e os espíritos da floresta. Voltar ao momento em ainda podia ver o impossível.

Quando abre os olhos, o pajé vê.

Vê aqueles barcos, com suas velas abertas para o céu.

- Vejam! – grita o velho – Barcos! Imensos! Grandes asas brancas pro céu!

Homens e mulheres se entreolham, abaixam as cabeças, dão de ombros, murmuram. O pobre pajé está sucumbindo à idade. Agora ele vê o impossível.

- Ali – insiste o velho – onde o mar se fende.

Por respeito, todos se voltam para as fendas no mar. Mas são apenas fendas. Caravela ninguém vê.

Quando os homens, crianças e mulheres nus resolver dar ouvidos ao pajé, é tarde demais.

Engodo, violência, morte e escravidão. Sucumbem as florestas, suas criaturas e seus deuses. Homens de longe vieram dizer o que é certo, vieram dizer o que se deve ver e no que se deve acreditar.


Agora, com a marca das botas impressas na areia da praia, os espanhóis se recusam a ser invisíveis.

Nas próximas centenas de anos, eles ainda estarão por aqui.

Mas da praia ninguém vê.



Outros desengonços:



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Novo #36 do Pedaço



Sexta-feira passada aconteceu o 1º GP João Henrique de Motocross, prova comemorativa ao aniversário do sobrinho-neto deste desengonçado corujão.


Não sei se por cerveja, pieguice ou saudade antecipada, ocorreu-me um súbito pensamento durante a festa:

Pode um desengonçadinho de um ano de idade e bochechas vermelhas ter fé? Em que será que ele acredita?

Eu sei que um dia JH vai saber dos pensamentos esquisitos do tio-avô, mas uma dúvida como essa não pode esperar tanto tempo, nem ficar sem resposta - não depois daquelas cervejas.


Além do mais, havia oportunidade melhor para perguntar ao próprio JH, em pessoinha?

Convenci-o a deixar a piscina de bolinhas com um argumento infalível. Disse que tinha um armário inteirinho, de portas bem abertas, cheio de badulaques, só para ele mexer.

Depois de me desculpar pela mentira e me certificar de que ninguém ouvia, sussurrei a inadiável pergunta:

- João, netinho do tio, sobrinho do vô, tu tem fé?

João me olhou por alguns segundos. Refletiu, apontou para os armários fechados, balançou o dedinho, coçou a orelha.


Uma pergunta como aquela merecia uma resposta à altura.

Finalmente, depois de comer um brigadeiro e limpar os dedos na minha camisa, João Henrique respondeu:

- Mamamama! - E acelerou o meu nariz.


Confesso que não era bem a resposta que eu esperava. Por isso a dúvida ficou pairando por ali, entre salgados, brigadeiros e troféus.

Ao perceber a ausência de respostas, a dúvida, essa Honda desgovernada, contornou os cuidados e atenções de Mamãe Carol, dobrou a curva da Vó Nelda, saculejou sobre minhas costelas magras e se postou no topo do pódio.

Então eu ouvi Baragahansa. 

Não, não foi o ronco dos motores. Rasta Baragahansa foi um iogue, guru e capoeirista jamaicano que desapareceu em 1836 depois de um encontro misterioso com um pajé de Washington. 

Mas, para os que sabem perguntar, o mestre sempre costuma se manifestar nesses casos de perguntas irrespondíveis e Polar em excesso.

Dessa vez ele se materializou na cadeira vazia bem ao lado da Bisa.

- Tu também é piloto? - perguntou ela, confundindo dreadlocks com capacete.

Interrompi os mais velhos porque havia pergunta mais urgente para fazer:

- Guru, sábio guru, me responda só uma coisinha.


- Ih, conheço você. Começa com uma coisinha...

- Apenas me diga, assim, sem mais delongas. Esse guri aqui, com esses olhinhos de matar a gente, ele tem fé?

Baragahansa lambeu os dedos para limpar o molho do cachorro-quente, observou João Henrique por alguns segundos, fez blrrrrrr, fez careta, imitou um jumento. Voltou a observar.

João, o observado, acelerava as tranças do guru.

- Eu diria que sim – afirmou Baragahansa depois de algum tempo -.Talvez - disse em seguida -. Talvez não - disse depois.

- Oi?

- Na verdade, fé não é importante.

- não é importante?!


Até o João parou de sorrir.

- JH tem algo muito mais importante do que fé.

- Teta?


João voltou a sorrir.

- Também. Mas algo maior.

- O dindo Alemão?

- Não. Cheio de firmeza e branduras.


- A fortaleza de doces da dinda Merli?

- Também não. Que vem de muito longe, mas está bem perto.

- A tia Didi?

- Não. O que aparece onde menos se espera.

- Papai Rodrigo que travou no gate, mas já aponta em primeiro, tapado de quero-quero?

- Não, cara! Você é mesmo ruim nesse negócio de adivinhação.

- Também... Cada dica...

- Quer que eu fale?

- Já? Não quer reconhecer a pista primeiro, conferir a suspensão, checar os pneus, dar um autógrafo?

- A permanente sensação de Deus.

- O quê?

- João tem a permanente sensação de Deus.


- Baragá, meu guru, pega leve. É festa de criança.

- João tem a certeza que não vem da lógica nem dos comissários de provas.

- Caramba! De onde vem essa certeza toda em tão pouco tempo? Tá mal começando a caminhar.

- João está em contato puro com o divino, sem questionamentos, sem dúvidas, sem necessidade de evangelhos ou chefes de federações.

- Ô guri de sorte!

- João Henrique e todos os outros desengonçadinhos dessa idade mantêm um contato íntimo com o Todo, aquela permanente sensação de Deus.

- Então não é preciso ter fé?

- Fé em quê? Basta sentir a presença. Basta saber que lugar melhor não existe do que a mão gorda de Deus.


- Não esquece da teta...

- Não esqueço. É assim mesmo essa presença. A companhia, a segurança e o alimento perfeito. Assim é Deus presente. Como uma teta.


- Mas que Deus? Existem mais deuses no mundo do que pilotos nesta festa.

- Deus é Indescritível. Apenas faz sentido quando sentido.

- Faz sentido.

- Ô!

- Acho que já senti uma vez ou outra. 

- É provável - concordou Baragahansa depois de mastigar uma coxinha - Geralmente você sente esse barato quando algo impossível acontece a você. Aquele instante em que, de alguma forma, você já sabia que o impossível ia acontecer.

- Como uma ultrapassagem na última curva - interferiu Papai Rodrigo.

- Já sem pneu e braço. Sim. Ali você recebe o sopro sublime que precisava.

- Bem que eu senti um negócio...

- O segredo está em manter aquela sensação de contato, da certeza da presença. Manter essa sensação e trazê-la para todos os momentos. Porque sabemos que é possível.

- Daria pra ganhar todas as provas do campeonato.

- Ou serenar as derrotas.

Enquanto papai Rodrigo se afastava (não muito satisfeito com aquele papo de derrota), eu tentei ponderar com o guru:  

- Pra você e pro João parece fácil, lúcido Baragahansa. Mas isso não é tão simples pra nós, pra toda essa gente grande e cabeçuda que não consegue ver além do que foi ensinado.

- Desensinado.

- É que essa correria toda dificulta um pouco, você sabe. 

- Não sei.

- Sempre tem uma suspensão pra ajustar, uma fralda pra trocar, um texto pra traduzir... A gente acaba nem notando essa presença entre mamadeiras, chaves de fenda e planilhas de texto.

- A culpa é somente sua, você sabe.

- Minha?!


- Sua.

- Com tanta gente nesta festa? O culpado não pode ser o Tivô, por exemplo? Ou a Tivó e aquele rejuvenescimento suspeito... Que tal a Vó Norma? Tá com cara de culpada.

- A culpa é sua e de todos vocês.

- Ah, agora sim... Então vamos dividir essa cruz.

- Estejam à vontade - disse Baragahansa - Eu vou comer uma fatia de bolo. Tem guaraná?

Com autorização do guru, conclamei a galera:

- Chega aí, Vô Edu! Tio Diego e tia Vivi, não se façam de salame! Temos uma cruz pra levar pro furgão.

- Por falar em furgão... - recomeçou o guru entre duas garfadas.


- Aí vem...

- O furgão também tem sua culpa.

- Tranquilo. Ele vai fazer a maior parte do trabalho.

- O furgão é um símbolo de sua civilização.

- Eu nem sou tão civilizado assim... Hoje, por exemplo, eu palitei os dentes na festa.

- Se você vivesse lá na origem do seu palito e de sua cruz, em comunhão com a fonte, em contato pleno com tudo aquilo que vive, você seria igualzinho ao João Henrique.

- Bochechudo?

- Talvez. Mas saberia de a
lgo que só ele sabe e que você desaprendeu nas carteiras da escola, nas escrituras, nos papais-do-céu ensinados e não sentidos.

João mostrou as palmas das mãozinhas para dizer: Cadê? 

- A tal sensação de Deus? - perguntei.

- Essa.

- Mas, mestre Baragahansa, como aprender o desaprendido?

- Tem bons professores por aí, pequeno gafanhoto.

- Ufa! Quem são esses caras?

- Vou dar umas dicas.

- Sério? Até desanima...

- Procure entre aqueles que praticam o contentamento.

- Vai ser difícil. Tem bastante gente contente na festa. Olha a cara da tia Mara e da tia Patrícia!

- É verdade... E a tia Regina? Cheia de sorrisos.

- Flávia, que se obriga a rir das piadas do Felipe.

- Ah, são boas, vai...

- Do Olavinho nem é preciso falar.

- Com tanto algodão-doce...

- Tio Nereu sacudindo os bigodes.

- Leto e Iva gargalhando.

Baragahansa, com a cara lambuzada de merengue, apanhou um beijo que João Henrique jogava e mudou o rumo da prosa: 

- Quer outra dica?

- Manda.

- Você também pode procurar entre aqueles que são gratos ao Grande Prêmio da Vida...

- Conheço alguns - dei uma piscadinha pra Dona Nelda.

- Entre os que fazem da derrota um ensinamento, que são humildes na vitória...

- Também conheço.

- Entre os que não reclamam dos buracos na pista...

- Ah, João Pedro, João Pedro...

- Procure entre aqueles que sabem que o chassi é importante, mas quem manda é o terreno.

- Opa! Agora afunilou a pista.

- Procure entre os que sabem que não é o homem que dirige na Grande Reta do Destino.

- Guru... Hoje sim você tá dando alimento pra cachola!

- Você também pode procurar entre os que percebem a essência das outras criaturas.

- Piloto é criatura?

- Esquisita, mas é. Procure também entre os que perdoam, que toleram. 

- Pontapé na fechada é tolerância? Dá pra perdoar?

- Well...

- No fim, grande Baragahansa, você há de concordar que tem gente pacas.

- São quase sempre os mesmos.

- Já facilita.

- Agora o mais importante.

- O mais importante. Essa eu não posso perder.

- Procure entre os que sorriem e exercem gentilezas.

- Sorriem e são gentis?

- Sempre. Gentis e sorridentes.


Eu sorri cheio de gentilezas para o guru Rasta Baragahansa e ele se despediu em uma nuvem de fumaça.

Com o mais importante aprendido (ou desaprendido), recitei um mantra, bebi mais um gole da Polar e percebi que João Henrique ainda dava tchauzinhos e mandava beijos para o mestre jamaicano.

Foi quando me ocorreu um segundo pensamento a respeito da mesma criança.

JH franziu a testa. O que esse tio-vô doido ia perguntar agora?

Mas pra essa nova pergunta não é preciso consultar guri ou guru.


Basta que fale você aí, que sempre fala a verdade:

Será que existe, no mundo inteiro, alguém mais sorridente e gentil do que esse desengonçadinho de Deus? 


*(Notinha final: Para desespero do pai, JH vai ser poeta.)





sábado, 16 de julho de 2016

Descabelado Haicai


Posta-restante de Ossos

Solidão e silêncio. Transatlântico. Tripulação de angústias. Cura de obsessões.
Cemitério: posta-restante de ossos – alguém para reclamá-los?



A lua cheia compete com cintilações travertinas na superfície raiada do mármore.


Nas lápides, retratos em preto e branco assumem grandiloquência. 

Em pé sobre a mais tola das lajes, reconhecemos um italiano que atuou em La Dolce Vita escoltado por alguns eunucos de Sherazade.

As aleias se estendem sob as grandes asas de um anjo e adormecem no instante em que o perfume das flores adensa-se em uma coroa de lótus.

Duas crianças acompanhadas de perto pela mãe correm por entre os sepulcros. A menina, seguida pelo irmão, ajoelha-se sobre a laje, não por reverência, mas para ler o epitáfio. 
- Eu sou dos que não apo... apo...
- ...drecem - auxilia o irmão.
- Fui, por na... por na...
- ...tureza.
- Mais ho... homem...

Abreviemos a leitura: “Eu sou dos que não apodrecem. Fui, por natureza, mais homem do que fui carne. A carne que falta me faz, se homem continuarei a ser?” 

O irmão afasta-se para ler outro epitáfio, a menina assume posição propícia, ergue o sujo vestido e, solene, faz xixi.

A mãe ajeita o vestido e o cabelo da menina, examina o nariz do menino, sorri para eles.

- Vamos pra casa, mamãe? – pergunta o menino.

- Sim, hora de dormir, querido.

Os três se aprumam e partem, passos largos, ritmados, com a obstinação de um pequeno exército.

Lá se vão os coturnos esfarrapados e gentis. Pisoteiam flores, cruzes e prantos ancestrais.

Nos primeiros passos, o ruído dos sapatos ecoa, perverte o silêncio. O coração é carrilhão antigo e resolve bater no ritmo que lhe convém.

Mas em seguida, no psiu dos mortos, corações se calam e se aquietam os passos.

O silêncio volta à necrópole.

Sem som de passos para que a noite possa ser irreal e eterna.

Sem som de passos em respeito à realidade trajada de sonhos.

Sem som de passos sobre o descansar dos mortos.

Não deveríamos dar ouvidos, mas, sob uma lua assim, quando se nos acometem pensamentos na carne e nos ameaçam as articulações, sempre haverá um de nós a dizer:

“Hei de morrer em leito de brancos lençóis. Terei olheiras dignas e voz mansa, resignar-me-ei às palavras de um padre, sorrirei alentos para mulher e filhos. Se eu morrer assim, paciente e amável, quero ser sepultado em noite como esta, de brancura e luar. Chamem amigos de óculos escuros para dizer coisas boas de mim.

Mas se, ao contrário, minha morte se apresentar ávida e veloz, recolhida às pressas do baú de um velho sovina, castrando pecados que tenho por cometer, se for assim a minha morte, enterrem-me durante a tempestade, na noite sem lua e sem cor. Enterrem-me protegido pelo guarda-chuva de meus pais – porque eles virão. Enterrem-me anônimo como sempre fui”.

E lá se vão as três criaturas noturnas. Bloco de querubins, ala de passistas invisíveis, ala atenta aos gestos mudos na plateia, ala testemunha do fogo fátuo que dança sobre as catacumbas.

E lá se vão as três criaturas noturnas no ritmo das coisas desconhecidas, espreitadas pelo olho do não visível.

Ocultos à pequena procissão, Arlequins celebram os foliões solitários, exaltam aqueles que decidiram desfilar a própria alegoria.

Vivas! Aplausos! Odes àqueles que rejeitam o óleo dos enfermos e comparecem a encontros não marcados com a morte! Loas aos que buscam a urna de seus últimos restos bem antes da quarta-feira de cinzas!

O frágil exército dobra a esquina e segue o caminho de casa. A menina recolhe uma violeta e a ajeita nos cabelos. O menino cumprimenta uma fotografia e sorri para a lua cheia.

Resta somente o curto percurso das velas, por entre despojos, preces e queixas. Resta a última trilha de folhas secas.

Então, a um sinal acostumado da mãe, cessam passos e silêncio.

- Chegamos – ela anuncia.

Os meninos correm. A volta para casa. O reconhecimento. A serena segurança dos lares.

Sobre o pavimento, esticam um cobertor roto e ajoelham-se para um agradecimento.

Na prece compartilhada, pedem a todos os defuntos que não perturbem o sono dos vivos.

Observados pela lua cheia, trocam beijos e boa-noite.

Depois, gratos e brandos, se deitam sob as asas do anjo Gabriel. Ali, acolhidos pelas estrelas atentas de Deus e aquecidos pelo hálito dos mortos, sonham com o dia em que não mais haverá dores ou frio, nem a densidade dos corpos.





domingo, 3 de julho de 2016

Devastado pelas Intempéries



- Diga,
moça do tempo,
timbre de rouxinol,
o que resta na minha idade,
tomado de tempestade,
virado de vendaval?
Tem raio pra todo lado,
tem tormenta,
terremoto,
tem sismo,
tem eu cismado,
tem goteira no telhado
e tem roupa no varal
Tô tornado,
atormentado,
girado todo por dentro
feito chuva de vento
em tempo de temporal
De tanta cheia,
aguaceiro,
dilúvio, enchente,
toró,
em cada lufada de vento,
querida moça do tempo,
o homem fica mais só

- Por favor, sem pudor
Um homem de sua idade,
rigidez pela metade,
já reclamando de dor,
deve ignorar o clima,
jogar tudo pra cima,
e encontrar um amor
Tudo já está escrito,
na linha do Equador,
o vento sopra pro norte
e com um pouco de sorte
vai cessar o calor

- Mas este homem
que espera
pra esticar as canelas
que mais pode querer?
Só me resta uma  janela,
fresta de primavera
que se abre na TV
Atmosfera,
solstício
equinócio,
quase me dá um troço
se vejo você na tela
prevendo que vai chover
Só assim se vão as dores
que fogem ao meu controle,
remoto como você

- Na casa de trinta graus,
febre em elevação
Clima quente e ressaca,
dessa ninguém escapa,
desligue a televisão
Poucas dores esparsas
analgésico,
antigripal,
emplasto
uma visita no gastro
e no procto desta estação
É tempo de andar descalço,
sem a calça do pijama,
sobre o sereno do chão
Já faz mais de uma semana
que você não sai da cama,
coitado desse colchão
Você que acendeu a chama
que dance agora a ciranda
e segure agora a pressão:
findo aqui este programa,
que amor de tela plana
não cabe no meu verão



Desengonços do mesmo naipe:



domingo, 26 de junho de 2016

Por que você não volta pra África?

Picture by Kevin Kreneck


- Voltar pro meu país? Como? Quando?

- No próximo voo pro Zimbábue.

- Pra Líbia.

- A Líbia não fica na Ásia?

- Na África.

- África? África não é um país?

- África é um continente. Líbia e Zimbábue ficam no continente africano.

- Então deu na mesma. Do Zimbábue você vai pra Líbia.

- Mas um fica no norte e outro no sul.

- Você não espera ser deixado na porta de casa.

- Eu não tenho mais casa. Foi-se tudo no último bombardeio.

- Tem bombardeio por lá?

- Tem muita gente morrendo, cara.

- Então, porque tem gente morrendo no Líbano, você vem morrer aqui?

- Na Líbia. E eu não vim morrer.

- Não? Veio fazer o quê?

- Viver.

- Você planejava viver aqui por quanto tempo?

- Pra sempre, se necessário.

- Você vai viver pra sempre?

- Até morrer.

- Morrer aqui. No meu país. Por que não morre no seu?

- Meu amigo, quando eu morrer eu quero estar ao lado de minha mulher. E ela mora aqui.

- Que felizarda... Você devia se sentir feliz por ela. Sua esposa não vai morrer em bombardeio.

- Você quer que eu e minha mulher vivamos em países diferentes?

- Ela pode ir pra Libéria com você...

- Líbia. Tem guerra lá.

- Você há de concordar que não é minha função me ocupar do conforto de casais.

- Estamos falando sobre vidas, não sobre conforto.

- Quem escolheu nascer na África deve estar preparado pra tudo. Até pra guerra.

- Vocês também têm suas guerras. Algumas bem covardes.

- Você está ofendendo nossas guerras.

- Estou ofendendo todas as guerras.

- Mas não as nossas, por favor.

- Vai me deixar entrar?

- (bocejo)

- Hein? Posso entrar?


- Por que você não entrou de barco, como os outros?

- Mas está morrendo todo mundo afogado no Mediterrâneo.

- No Mediterrâneo também? Agora vocês deram pra morrer em todo lugar?



Desengonços do mesmo naipe:

sábado, 25 de junho de 2016

Nós Não Vamos Morrer



O envelhecimento é uma doença

Esse é o diagnóstico dos cientistas depois de estudar certas espécies marítimas que nunca envelhecem, que não morrem por causas naturais, que vivas permanecerão até que um tubarão as devore.

Para curar a doença envelhecimento, para que humanos sejam eternos, a Ciência vem realizando variadas experiências nas mais diversas áreas de conhecimento.

Enquanto você deixa seu suor na academia, bebe um shake no almoço ou passa um Rugol para adiar as evidências, geneticistas vasculham cromossomos para encontrar o segredo da imortalidade. Muitos afirmam que, em algumas poucas décadas, a humanidade estará livre do envelhecimento e da morte.


Peças Sobressalentes e Insubstituíveis Emoções

Em paralelo às pesquisas genéticas, avança-se no caminho da produção de órgãos e membros sintéticos. Já é possível prever que impressoras 3D desempenharão um importante papel no palco da imortalidade.

Fígados, rins, corações, pernas, braços, colunas, crânios – eis algumas de nossas peças de reposição.


Para atividades diversas, membros portáteis. Pernas para correr, para saltar ou pernas para rodar. Braços para alcançar, para erguer, braços com câmeras para vasculhar.

Esse mecanismo renovável, esse corpo cada vez mais preciso e perene, exigirá um controle também perene e preciso. Por isso, o cérebro não pode se restringir aos limites da natureza. O cérebro aguarda por sua otimização.

Para atender à essa demanda, acena-se com a iminente substituição de neurônios por chips. Não mais conexões neuronais, mas circuitos eletrônicos.

Eis a inevitável pergunta: qual o limite para a substituição de neurônios? Será que, a partir de determinado percentual de chips implantados, essa espécie ainda será considerada humana?

Mas as possibilidades vão além. Já se trabalha com a hipótese de radicalização do conceito de homem-máquina. A transferência de cérebros humanos para receptores robóticos será realidade em um futuro nem tão distante.

Nessa trilha para o cibernético, o frágil corpo orgânico se tornará obsoleto e teremos que nos habituar à perda de alguns sentidos, à anestesia de sentimentos e a uma nova e modificada noção de ser humano.


O Fim do Corpo Físico

Se percorrermos mais alguns passos na linha do tempo, assistiremos ao fim das fronteiras físicas. O cérebro humano deixará de se comportar como matéria para se comportar como banco de dados virtual.

O upload de conhecimentos, memórias, consciência e personalidade permitirá o uso de avatares holográficos ou HDs de computadores como recipientes da mente.

Segundo o físico Michio Kaku em seu livro The Future of the Mind, com as conexões entre neurônios decompostas em dados, a mente poderá viajar na velocidade da luz:

“Embora possa demorar séculos para o feixe de luz chegar ao destino, do ponto de vista da mente sendo transmitida, a viagem seria instantânea”.

A imortalidade, antes possibilidade remota, agora merece o status de concreta probabilidade. 
Não seria por outro motivo que as pesquisas se estendem por áreas das mais distintas. Neurologia, ciência da computação, nanotecnologia, genética, biotecnologia, engenharia, filosofia, psicologia, entre outras, são áreas diretamente envolvidas nessa força-tarefa pelo eterno.


Conflitos Eternos

O primeiro e mais evidente conflito, como sempre, origina-se nas condições financeiras do candidato a imortal. Quem serão os beneficiados por genes milagrosos, nano robôs, membros artificiais e avatares?

Não é difícil prever um cenário no qual os endinheirados do mundo serão os únicos a caminhar eternamente pelos campos do Senhor. Aos demais, reles criaturas presas na fronteira de suas vidas efêmeras, caberá a marginalidade e a subserviência à elite imortal.

Nesse panorama, a venda e tráfico de peças sobressalentes de segunda mão tendem a incrementar o comércio nas periferias da eternidade.


Formigas Mortais

O Conde Fosca, personagem de Simone de Beauvoir em Todos os Homens são Mortais, adquire a imortalidade ao beber uma poção mágica (previamente testada em um rato).

Fosca testemunha o infindável ciclo de vida e morte de amigos, esposas, filhos e netos. Aos poucos, começa a perceber esses serezinhos frágeis como formigas, como coadjuvantes de uma história que eles nunca conhecerão por completo. Com suas poucas dezenas de anos para viver, as formiguinhas merecem pouco mais do que desprezo.

Caminhando sobre o tapete vermelho da eternidade, Fosca atravessa os séculos como eminência parda de personagens históricos. Não fosse ele imortal, Lênin e Robespierre perderiam um importante interlocutor e as revoluções Russa e Francesa não terminariam da mesma forma.

Mas depois de passar por levantes, manifestos e revoluções - fatos que sacudiram o mundo dos mortais -, esses acontecimentos começam a se apresentar ao conde como meros distúrbios para sua inesgotável rotina.


Fosca conclui que revoluções são inúteis e que a História é uma sucessão de repetições trágicas e sem sentido.

Um imortal assim, solitário, um dia vai acabar por desejar a morte - esse bálsamo que lhe foi retirado.

Ocorre a Fosca que, em centenas ou milhares de anos, ele será o único ser vivo a habitar a Terra.


Além daquele rato, é claro.


A Morte de um Imortal

Ao contrário do Conde Fosca, quando se fala em imortalidade, não se exclui a ideia de morte (pelo menos não enquanto a vida precisar de recipientes físicos para se manter).

O paradoxo se explica porque alguém sempre poderá morrer de um acidente grave, de um atentado, ou durante a indevida formatação de um HD.

Se, entre os mortais - portanto esperada -, a morte exibe-se como acontecimento trágico, imagine a comoção na morte de um imortal.

Por isso, entre aqueles que alcançarem a dádiva perpétua, o temor ao fim acidental ou criminoso pode fazer da eternidade uma constante busca por autoproteção.

A possibilidade de se findar em um instante aquilo que poderia durar para sempre e a consciência da fragilidade da matéria (orgânica ou sintética) devem retirar o que há de mais vital na existência: o sabor da aventura.

E aí está mais um dos contrassensos da imortalidade: o eterno teme o fim como nem mesmo o transitório costuma temer.



A Eternidade em Desencanto

No primeiro contato com o conde de Simone de Beauvoir, o leitor o encontra estirado em uma espreguiçadeira de hotel.

Desencantando com o curso da vida e da história, faça chuva ou faça sol, Fosca permanece no mesmo lugar por semanas a fio.

Fosca percebe que perdeu combustível vital.


Sem a morte como limite para todos os planos e realizações, nada realmente se planeja ou realiza.

Sem a morte, o fogo se extingue, a aventura se apequena, a alma se cristaliza.

Fosca percebe que sem morte não há vida.



Uma Questão de Escolha

É de se esperar que, mesmo ao alcance, nem todos desejem a imortalidade. Assim, em uma mesma família, sempre haverá aqueles satisfeitos com uma vida passageira e suas suficientes dezenas de anos.

Então, entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos, as diferentes escolhas (mortal ou imortal?) tendem a criar um permanente conflito. Como pais imortais poderão aceitar que um filho rejeite a imortalidade?

Para muitos daqueles que optarem pela imortalidade, será insustentável o peso dos séculos, a história sempre cíclica e a presença de um eu eterno e, em verdade, imutável.


O desejo pelo fim um dia chegará.



Desengonços do mesmo naipe: