sábado, 16 de julho de 2016

Posta-restante de Ossos

Solidão e silêncio. Transatlântico. Tripulação de angústias. Cura de obsessões.
Cemitério: posta-restante de ossos – alguém para reclamá-los?



A lua cheia compete com cintilações travertinas na superfície raiada do mármore.


Nas lápides, retratos em preto e branco assumem grandiloquência. 

Em pé sobre a mais tola das lajes, reconhecemos um italiano que atuou em La Dolce Vita escoltado por alguns eunucos de Sherazade.

As aleias se estendem sob as grandes asas de um anjo e adormecem no instante em que o perfume das flores adensa-se em uma coroa de lótus.

Duas crianças acompanhadas de perto pela mãe correm por entre os sepulcros. A menina, seguida pelo irmão, ajoelha-se sobre a laje, não por reverência, mas para ler o epitáfio. 
- Eu sou dos que não apo... apo...
- ...drecem - auxilia o irmão.
- Fui, por na... por na...
- ...tureza.
- Mais ho... homem...

Abreviemos a leitura: “Eu sou dos que não apodrecem. Fui, por natureza, mais homem do que fui carne. A carne que falta me faz, se homem continuarei a ser?” 

O irmão afasta-se para ler outro epitáfio, a menina assume posição propícia, ergue o sujo vestido e, solene, faz xixi.

A mãe ajeita o vestido e o cabelo da menina, examina o nariz do menino, sorri para eles.

- Vamos pra casa, mamãe? – pergunta o menino.

- Sim, hora de dormir, querido.

Os três se aprumam e partem, passos largos, ritmados, com a obstinação de um pequeno exército.

Lá se vão os coturnos esfarrapados e gentis. Pisoteiam flores, cruzes e prantos ancestrais.

Nos primeiros passos, o ruído dos sapatos ecoa, perverte o silêncio. O coração é carrilhão antigo e resolve bater no ritmo que lhe convém.

Mas em seguida, no psiu dos mortos, corações se calam e se aquietam os passos.

O silêncio volta à necrópole.

Sem som de passos para que a noite possa ser irreal e eterna.

Sem som de passos em respeito à realidade trajada de sonhos.

Sem som de passos sobre o descansar dos mortos.

Não deveríamos dar ouvidos, mas, sob uma lua assim, quando se nos acometem pensamentos na carne e nos ameaçam as articulações, sempre haverá um de nós a dizer:

“Hei de morrer em leito de brancos lençóis. Terei olheiras dignas e voz mansa, resignar-me-ei às palavras de um padre, sorrirei alentos para mulher e filhos. Se eu morrer assim, paciente e amável, quero ser sepultado em noite como esta, de brancura e luar. Chamem amigos de óculos escuros para dizer coisas boas de mim.

Mas se, ao contrário, minha morte se apresentar ávida e veloz, recolhida às pressas do baú de um velho sovina, castrando pecados que tenho por cometer, se for assim a minha morte, enterrem-me durante a tempestade, na noite sem lua e sem cor. Enterrem-me protegido pelo guarda-chuva de meus pais – porque eles virão. Enterrem-me anônimo como sempre fui”.

E lá se vão as três criaturas noturnas. Bloco de querubins, ala de passistas invisíveis, ala atenta aos gestos mudos na plateia, ala testemunha do fogo fátuo que dança sobre as catacumbas.

E lá se vão as três criaturas noturnas no ritmo das coisas desconhecidas, espreitadas pelo olho do não visível.

Ocultos à pequena procissão, Arlequins celebram os foliões solitários, exaltam aqueles que decidiram desfilar a própria alegoria.

Vivas! Aplausos! Odes àqueles que rejeitam o óleo dos enfermos e comparecem a encontros não marcados com a morte! Loas aos que buscam a urna de seus últimos restos bem antes da quarta-feira de cinzas!

O frágil exército dobra a esquina e segue o caminho de casa. A menina recolhe uma violeta e a ajeita nos cabelos. O menino cumprimenta uma fotografia e sorri para a lua cheia.

Resta somente o curto percurso das velas, por entre despojos, preces e queixas. Resta a última trilha de folhas secas.

Então, a um sinal acostumado da mãe, cessam passos e silêncio.

- Chegamos – ela anuncia.

Os meninos correm. A volta para casa. O reconhecimento. A serena segurança dos lares.

Sobre o pavimento, esticam um cobertor roto e ajoelham-se para um agradecimento.

Na prece compartilhada, pedem a todos os defuntos que não perturbem o sono dos vivos.

Observados pela lua cheia, trocam beijos e boa-noite.

Depois, gratos e brandos, se deitam sob as asas do anjo Gabriel. Ali, acolhidos pelas estrelas atentas de Deus e aquecidos pelo hálito dos mortos, sonham com o dia em que não mais haverá dores ou frio, nem a densidade dos corpos.





domingo, 3 de julho de 2016

Devastado pelas Intempéries



- Diga,
moça do tempo,
timbre de rouxinol,
o que resta na minha idade,
tomado de tempestade,
virado de vendaval?
Tem raio pra todo lado,
tem tormenta,
terremoto,
tem sismo,
tem eu cismado,
tem goteira no telhado
e tem roupa no varal
Tô tornado,
atormentado,
girado todo por dentro
feito chuva de vento
em tempo de temporal
De tanta cheia,
aguaceiro,
dilúvio, enchente,
toró,
em cada lufada de vento,
querida moça do tempo,
o homem fica mais só

- Por favor, sem pudor
Um homem de sua idade,
rigidez pela metade,
já reclamando de dor,
deve ignorar o clima,
jogar tudo pra cima,
e encontrar um amor
Tudo já está escrito,
na linha do Equador,
o vento sopra pro norte
e com um pouco de sorte
vai cessar o calor

- Mas este homem
que espera
pra esticar as canelas
que mais pode querer?
Só me resta uma  janela,
fresta de primavera
que se abre na TV
Atmosfera,
solstício
equinócio,
quase me dá um troço
se vejo você na tela
prevendo que vai chover
Só assim se vão as dores
que fogem ao meu controle,
remoto como você

- Na casa de trinta graus,
febre em elevação
Clima quente e ressaca,
dessa ninguém escapa,
desligue a televisão
Poucas dores esparsas
analgésico,
antigripal,
emplasto
uma visita no gastro
e no procto desta estação
É tempo de andar descalço,
sem a calça do pijama,
sobre o sereno do chão
Já faz mais de uma semana
que você não sai da cama,
coitado desse colchão
Você que acendeu a chama
que dance agora a ciranda
e segure agora a pressão:
findo aqui este programa,
que amor de tela plana
não cabe no meu verão



Desengonços do mesmo naipe:



domingo, 26 de junho de 2016

Por que você não volta pra África?

Picture by Kevin Kreneck


- Voltar pro meu país? Como? Quando?

- No próximo voo pro Zimbábue.

- Pra Líbia.

- A Líbia não fica na Ásia?

- Na África.

- África? África não é um país?

- África é um continente. Líbia e Zimbábue ficam no continente africano.

- Então deu na mesma. Do Zimbábue você vai pra Líbia.

- Mas um fica no norte e outro no sul.

- Você não espera ser deixado na porta de casa.

- Eu não tenho mais casa. Foi-se tudo no último bombardeio.

- Tem bombardeio por lá?

- Tem muita gente morrendo, cara.

- Então, porque tem gente morrendo no Líbano, você vem morrer aqui?

- Na Líbia. E eu não vim morrer.

- Não? Veio fazer o quê?

- Viver.

- Você planejava viver aqui por quanto tempo?

- Pra sempre, se necessário.

- Você vai viver pra sempre?

- Até morrer.

- Morrer aqui. No meu país. Por que não morre no seu?

- Meu amigo, quando eu morrer eu quero estar ao lado de minha mulher. E ela mora aqui.

- Que felizarda... Você devia se sentir feliz por ela. Sua esposa não vai morrer em bombardeio.

- Você quer que eu e minha mulher vivamos em países diferentes?

- Ela pode ir pra Libéria com você...

- Líbia. Tem guerra lá.

- Você há de concordar que não é minha função me ocupar do conforto de casais.

- Estamos falando sobre vidas, não sobre conforto.

- Quem escolheu nascer na África deve estar preparado pra tudo. Até pra guerra.

- Vocês também têm suas guerras. Algumas bem covardes.

- Você está ofendendo nossas guerras.

- Estou ofendendo todas as guerras.

- Mas não as nossas, por favor.

- Vai me deixar entrar?

- (bocejo)

- Hein? Posso entrar?


- Por que você não entrou de barco, como os outros?

- Mas está morrendo todo mundo afogado no Mediterrâneo.

- No Mediterrâneo também? Agora vocês deram pra morrer em todo lugar?



Desengonços do mesmo naipe:

sábado, 25 de junho de 2016

Nós Não Vamos Morrer



O envelhecimento é uma doença

Esse é o diagnóstico dos cientistas depois de estudar certas espécies marítimas que nunca envelhecem, que não morrem por causas naturais, que vivas permanecerão até que um tubarão as devore.

Para curar a doença envelhecimento, para que humanos sejam eternos, a Ciência vem realizando variadas experiências nas mais diversas áreas de conhecimento.

Enquanto você deixa seu suor na academia, bebe um shake no almoço ou passa um Rugol para adiar as evidências, geneticistas vasculham cromossomos para encontrar o segredo da imortalidade. Muitos afirmam que, em algumas poucas décadas, a humanidade estará livre do envelhecimento e da morte.


Peças Sobressalentes e Insubstituíveis Emoções

Em paralelo às pesquisas genéticas, avança-se no caminho da produção de órgãos e membros sintéticos. Já é possível prever que impressoras 3D desempenharão um importante papel no palco da imortalidade.

Fígados, rins, corações, pernas, braços, colunas, crânios – eis algumas de nossas peças de reposição.


Para atividades diversas, membros portáteis. Pernas para correr, para saltar ou pernas para rodar. Braços para alcançar, para erguer, braços com câmeras para vasculhar.

Esse mecanismo renovável, esse corpo cada vez mais preciso e perene, exigirá um controle também perene e preciso. Por isso, o cérebro não pode se restringir aos limites da natureza. O cérebro aguarda por sua otimização.

Para atender à essa demanda, acena-se com a iminente substituição de neurônios por chips. Não mais conexões neuronais, mas circuitos eletrônicos.

Eis a inevitável pergunta: qual o limite para a substituição de neurônios? Será que, a partir de determinado percentual de chips implantados, essa espécie ainda será considerada humana?

Mas as possibilidades vão além. Já se trabalha com a hipótese de radicalização do conceito de homem-máquina. A transferência de cérebros humanos para receptores robóticos será realidade em um futuro nem tão distante.

Nessa trilha para o cibernético, o frágil corpo orgânico se tornará obsoleto e teremos que nos habituar à perda de alguns sentidos, à anestesia de sentimentos e a uma nova e modificada noção de ser humano.


O Fim do Corpo Físico

Se percorrermos mais alguns passos na linha do tempo, assistiremos ao fim das fronteiras físicas. O cérebro humano deixará de se comportar como matéria para se comportar como banco de dados virtual.

O upload de conhecimentos, memórias, consciência e personalidade permitirá o uso de avatares holográficos ou HDs de computadores como recipientes da mente.

Segundo o físico Michio Kaku em seu livro The Future of the Mind, com as conexões entre neurônios decompostas em dados, a mente poderá viajar na velocidade da luz:

“Embora possa demorar séculos para o feixe de luz chegar ao destino, do ponto de vista da mente sendo transmitida, a viagem seria instantânea”.

A imortalidade, antes possibilidade remota, agora merece o status de concreta probabilidade. 
Não seria por outro motivo que as pesquisas se estendem por áreas das mais distintas. Neurologia, ciência da computação, nanotecnologia, genética, biotecnologia, engenharia, filosofia, psicologia, entre outras, são áreas diretamente envolvidas nessa força-tarefa pelo eterno.


Conflitos Eternos

O primeiro e mais evidente conflito, como sempre, origina-se nas condições financeiras do candidato a imortal. Quem serão os beneficiados por genes milagrosos, nano robôs, membros artificiais e avatares?

Não é difícil prever um cenário no qual os endinheirados do mundo serão os únicos a caminhar eternamente pelos campos do Senhor. Aos demais, reles criaturas presas na fronteira de suas vidas efêmeras, caberá a marginalidade e a subserviência à elite imortal.

Nesse panorama, a venda e tráfico de peças sobressalentes de segunda mão tendem a incrementar o comércio nas periferias da eternidade.


Formigas Mortais

O Conde Fosca, personagem de Simone de Beauvoir em Todos os Homens são Mortais, adquire a imortalidade ao beber uma poção mágica (previamente testada em um rato).

Fosca testemunha o infindável ciclo de vida e morte de amigos, esposas, filhos e netos. Aos poucos, começa a perceber esses serezinhos frágeis como formigas, como coadjuvantes de uma história que eles nunca conhecerão por completo. Com suas poucas dezenas de anos para viver, as formiguinhas merecem pouco mais do que desprezo.

Caminhando sobre o tapete vermelho da eternidade, Fosca atravessa os séculos como eminência parda de personagens históricos. Não fosse ele imortal, Lênin e Robespierre perderiam um importante interlocutor e as revoluções Russa e Francesa não terminariam da mesma forma.

Mas depois de passar por levantes, manifestos e revoluções - fatos que sacudiram o mundo dos mortais -, esses acontecimentos começam a se apresentar ao conde como meros distúrbios para sua inesgotável rotina.


Fosca conclui que revoluções são inúteis e que a História é uma sucessão de repetições trágicas e sem sentido.

Um imortal assim, solitário, um dia vai acabar por desejar a morte - esse bálsamo que lhe foi retirado.

Ocorre a Fosca que, em centenas ou milhares de anos, ele será o único ser vivo a habitar a Terra.


Além daquele rato, é claro.


A Morte de um Imortal

Ao contrário do Conde Fosca, quando se fala em imortalidade, não se exclui a ideia de morte (pelo menos não enquanto a vida precisar de recipientes físicos para se manter).

O paradoxo se explica porque alguém sempre poderá morrer de um acidente grave, de um atentado, ou durante a indevida formatação de um HD.

Se, entre os mortais - portanto esperada -, a morte exibe-se como acontecimento trágico, imagine a comoção na morte de um imortal.

Por isso, entre aqueles que alcançarem a dádiva perpétua, o temor ao fim acidental ou criminoso pode fazer da eternidade uma constante busca por autoproteção.

A possibilidade de se findar em um instante aquilo que poderia durar para sempre e a consciência da fragilidade da matéria (orgânica ou sintética) devem retirar o que há de mais vital na existência: o sabor da aventura.

E aí está mais um dos contrassensos da imortalidade: o eterno teme o fim como nem mesmo o transitório costuma temer.



A Eternidade em Desencanto

No primeiro contato com o conde de Simone de Beauvoir, o leitor o encontra estirado em uma espreguiçadeira de hotel.

Desencantando com o curso da vida e da história, faça chuva ou faça sol, Fosca permanece no mesmo lugar por semanas a fio.

Fosca percebe que perdeu combustível vital.


Sem a morte como limite para todos os planos e realizações, nada realmente se planeja ou realiza.

Sem a morte, o fogo se extingue, a aventura se apequena, a alma se cristaliza.

Fosca percebe que sem morte não há vida.



Uma Questão de Escolha

É de se esperar que, mesmo ao alcance, nem todos desejem a imortalidade. Assim, em uma mesma família, sempre haverá aqueles satisfeitos com uma vida passageira e suas suficientes dezenas de anos.

Então, entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos, as diferentes escolhas (mortal ou imortal?) tendem a criar um permanente conflito. Como pais imortais poderão aceitar que um filho rejeite a imortalidade?

Para muitos daqueles que optarem pela imortalidade, será insustentável o peso dos séculos, a história sempre cíclica e a presença de um eu eterno e, em verdade, imutável.


O desejo pelo fim um dia chegará.



Desengonços do mesmo naipe:

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Esquivas de Serpente


Vivia de lirismos,
audácias
e esquivas de serpente
Evitava
vergões de aço,
abraços,
frituras,
casa de parente
Rejeitava
agruras,
queixumes,
bons costumes,
perfume
e o lugar comum dessa gente

Sorrateiro, entre missas,
entrava nas catedrais
Pedia a São Francisco
numa língua de pardais:
- Você distrai o bispo,
os ricos
e meia-dúzia de cardeais
Eu vou roubar o dízimo,
beber água do batismo,
e refletir os vitrais
(Porque homem de siso
sabe o que é preciso
para agradar ao Pai)

Sóbrio, entre bêbados,
entrava nos botequins
Falava a língua deles,
russo, alemão, mandarim
Pedia água da torneira,
palito,
alguns amendoins
Depois, de barriga cheia,
subia na cadeira
pra recitar Bakunin

Romântico, entre flores,
entrava pelos quintais
Ouvia orquídeas,
miosótis,
e até cravos banais
Em cada passo,
os pássaros
reconheciam os sinais
Cantavam,
polinizavam,
exibiam as feridas,
desprezavam a vida
dos homens normais


Desengonços do mesmo naipe:

sábado, 18 de junho de 2016

Tanta Cabeça para Rolar


- Aonde você vai com essa panela?

- Pras ruas. Concluir nosso plano.

- Que plano?

- Ué! O de tirar todos os corruptos.

- Eles não se foram ainda?

- A Dilma já foi. Agora é Temer, Cunha, Renan, Sarney...

- Não é gente demais?

- Combinado é combinado. Você vem comigo?

- Só nós dois? Batendo panela pelas ruas?

- Imagina... Deve ter uma multidão por aí. É é melhor ir de metrô que parece que é de graça.

- Sei não, cara. Acabei de vir da Paulista e não tinha ninguém de amarelo lá.

- Não tinha pato?

- Nem patinhos.

- Carro de som, tinha?

- Também não.

- Boneco do Temer?

- Muito menos.

- Vai ver a manifestação é em outro lugar.

- Acho que é em lugar nenhum. A TV não conclamou a galera.

- Não? Nem a Globo?

- Nem.

- Sem pato, sem boneco, sem Globo?

- Sem camisa da CBF, sem carro de som...

- Por que estou sentindo essa sensação estranha?

- Que sensação?

- A sensação de... A sensação de...

- Que sensação, cara? Desembucha.

- A sensação de que... 


- De que fomos enganados?

- É.

- Hmm... Pra ser sincero, isso já havia me ocorrido.

- E não me disse nada? Será que fomos usados? Será que o papo de combate à corrupção era lorota? Apoiamos Aécio, apoiamos Cunha, apoiamos Renan, apoiamos Temer...

- Apoiamos Fiesp, a Globo, a Veja, o MBL... Apoiamos bandidos com a desculpa de expulsar bandidos.

- Mas... Você não está querendo dizer que o pessoalzinho de vermelho estava certo?

- Olha, querer dizer eu não quero. Mas, pelo jeito que a vaca toma o caminho do brejo, é isso mesmo que vamos ter que admitir.

- Nem morto. Dar razão praqueles comunistazinhas?

- Estive pensando sobre isso. Eu nem sei direito o que é esse tal de comunismo.


- Para com isso... Você nunca leu Marx? Nunca leu Hegel?

- Acho que é Engels...

- Leu?

- Eu não li. Nem você. E cheguei à conclusão de que os vermelhinhos não são comunistas. Ou, pelo menos, a imensa maioria não é.

- Ah, tá! Eles mesmos enchem o peito para vomitar que são de esquerda.

- A Juracy disse que ser de esquerda significa dar voz e vez aos mais fracos.

- Voz e vez pros mais fracos? Só se for pra essa gente gritar por um lugar melhor na fila do SUS.

- Nós somos os mais fracos.

- Ou pra... O que você disse?

- Os mais fracos. Somos nós.

- Eu não sou fraco.

- É sim. Fracote.

- Você já está me ofendendo.

- Abaixe essa panela, relaxa. Os fracos não são apenas os famintos.

- Os sedentos também.

- Também. Mas tem os assalariados, os pequenos empresários, as etnias, religiões e gêneros oprimidos...

Religiões e gêneros oprimidos?! Você tem é dado muita trela pra Juracy. Manda tua mulher caprichar na feijoada de sábado e parar de se preocupar com gays e macumbeiros.

- Então você vai continuar batendo panelas e a cabeça na parede? É melhor pensar um pouco, dar uma lida nas notícias. Tem cada uma... Até a Globo se obrigou a mostrar umas coisinhas.

- Eu li e assisti as notícias. E eu não tenho certeza que a Globo abandonou o barco.

- Acho que a Globo nunca esteve nesse barco.

- Vamos ser claros. Você então mudou de opinião? Agora você também acha que deram o golpe na Dilma?

- Sim.

- E admite com essa cara deslavada?

- É digno, não é? Não deveríamos ter apoiado tudo isso. Foi uma loucura.

- Eu jamais vou admitir. Dar razão pros petralhas?

- Na verdade, a maioria que gritou contra o golpe nem votou no PT.

- Votaram em quem? No Aécio?

- Também.


- Na Dilma! Votaram na Dilma. 54 milhões de eleitores - é o que eles dizem.

- Dilma só ganhou 28% dos votos no primeiro turno. No segundo, a opção era Aécio. Temos que concordar agora: o voto nele não era o mais sensato.

- O que era mais sensato? Votar na anta?

- O Aécio tá em todas as listas.

- O Aécio vai receber o que é dele também.

- Um sortimento da Dona Benta?

- Xilindró. Vai cair todo mundo, vai cair geral.


- Pode ser. Mas com que cara a gente vai ficar? Se tivéssemos gritado contra todos, agora também podíamos participar do Fora Temer.

- Fora Temer!

- Cara, senta aí um pouco, guarda essa panela, vamos assistir o Coringão na TV.

- Não assisto mais a Globo. E aí? Vem comigo ou vai se michar?

- Sozinhos? Não vai rolar, cara.

- Logo seremos milhões.

- Sua intenção é boa, mas me diga só uma coisa.


- Digo. Só uma coisa.

- Quem é que nós, os milhões, vamos colocar lá depois de tirar toda essa cambada?

- A gente pensa em alguém.

- Quem? Tá todo mundo citado nas gravações, todos os nomezinhos estão em todas as listas. Não consigo pensar em ninguém fora de listas e gravações.

- Sempre tem alguém.

- Quem? Mahatma Gandhi?

- Esse tá morto.

- Madre Teresa de Calcutá?

- Também já se foi.

- A Juracy?

- Essa é viva demais.

- A Dilma, então?


- Boa. A Dilma. Cadê aquela sua camisa do 7 a 1?



Desengonços do mesmo naipe:


sábado, 21 de maio de 2016

Um Bilhão de Maridos serão Substituìdos



No livro Beautiful You, Chuck Palahniuk conta a história de C. Linus Maxwell, criador, fabricante e distribuidor de brinquedos eróticos femininos.

Desenvolvidos a partir dos ensinamentos práticos de Baba Gray-Beard, uma bicentenária feiticeira sexual do Himalaia, os brinquedinhos de Maxwell são tão perfeitos que a popularidade é instantânea.

Imediatamente após o lançamento, enormes filas de mulheres se estendem pelas calçadas das lojas Beautiful You.

Enlouquecidas na descoberta de prazeres nunca antes sentidos, já não interessam as sensações triviais que maridos, namorados, amantes e afins podem oferecer.

Afinal, que homem seria páreo para a Tremulante Serpente do Amor ou a Doce Varinha da Margarida? Que homem poderia superar, principalmente, The Dragonfly, a Libélula?

Isoladas em seus quartos, reféns de  aparelhinhos lascivos e cremes cintilantes, mulheres  em êxtase, exauridas em deleites,  abrem apenas uma fresta da porta para pedir novas baterias.

O slogan da empresa Beautiful You“um bilhão de maridos serão substituídos” – mostra-se profética. Homens descartados perambulam pelas ruas. Outros se desesperam para salvar a sanidade das parceiras de amor.



Melhor do que Amor

Better than Love – é o que se lê na fachada das lojas da Beautiful You. Apenas uma tecnologia assim, melhor do que o amor, capaz de causar um Big Bang sexual, de exacerbar prazeres carnais, poderia alterar o comportamento humano de forma tão radical.

Ops! Será?

A verdade é que a tecnologia já alterou o comportamento do homem civilizado muitas vezes. E muitas vezes mais vai modificá-lo.

Na própria área de C. Linus Maxwell – sexo -, é possível imaginar o que a incipiente realidade virtual terá a oferecer. Os primeiros indícios de nova mudança comportamental já roçam nossos narizes e partes pudendas.



Essas sensações todas

Vamos analisar esses indícios a partir de nossas capacidades sensoriais? 

Som e Imagem - A transmissão e recepção de som e imagem há muito fazem parte de nosso cotidiano. Audição e visão estão, portanto, satisfeitas.

Hologramas - Empresas já realizam reuniões com hologramas de executivos. Sem deixar seus países, engravatados virtuais de Boston, Londres, Madri e Tel Aviv debatem em torno de uma mesa na Alemanha. A visão, depois de satisfeita em duas dimensões, agora se realiza em possibilidades tridimensionais.

Cheiro - Hoje já se diz ser possível transmitir cheiros. Um aparelho decodificador recebe os códigos aromáticos de um transmissor via internet. O olfato se satisfaz.

Tato - Um experimento demonstrou a simulação da sensação de tato. Manuseando um pequeno joystick, um usuário controla um pato de borracha em uma tela. Ele dá um soco e o pobre pato balança, gira e volta à posição inicial. O usuário revela ter sentido o impacto na mão ao esmurrar o bichinho. Quando acaricia o pato, diz sentir a textura da borracha.

Assim, se a tecnologia já consegue satisfazer audição, visão, olfato e tato, o único sentido que se espera ser transmitido é o paladar.




Questão de Gosto

Alguma das implicações sexuais do envio e captação de estímulos e sensações são previsíveis.

Hologramas cada vez mais perfeitos, que falam, perfumam-se e podem ser “tocados”, poderão frequentar, incógnitos, todas as camas do mundo.

As relações amorosas receberão o primeiro impacto. A questão da fidelidade e do ciúme precisará ser repensada.

Exemplo? Por envolver também questões machistas, diga-me se você, homem, não vai repensar para se adaptar a seguinte situação:

Você está assistindo Walking Dead no conforto de sua sala de estar. Sua parceira está no quarto testando aquela nova geringonça de realidade virtual.

Depois de alguns bons minutos, ela sai do quarto.  Você percebe certo desalinho, um rubor nas faces, um andar indolente e aquele conhecido semi-sorriso de satisfação.

Enquanto ela entra na cozinha e vasculha a geladeira, você se aproxima da porta aberta do quarto.

Um brancão de bochechas rosadas e cabelos vermelhos, nu, ergue-se da cama e o encara por dois segundos. Depois mergulha no monitor da engenhoca e vai acender um cigarro lá em Dublim.

O cheiro de cigarro e cerveja invade suas narinas. O sangue ferve de indignação. Aquilo já é demais.

- Amor – você reclama -, holograma irlandês não dá, né? Ou pelo menos desliga essa merda depois de usar.




Memória Insuficiente

Indignações e nacionalidades à parte, alguns consideram esse cenário impossível pela ausência de um único fator.

Sim, você já adivinhou.

A coisa tem cheiro, toque, som e imagem, mas sem paladar? Não vai rolar.

O mais prudente é ignorar esse nem tão distante futuro e perceber no presente o efeito da tecnologia em nossas vidas.

Para citar um caso historicamente recente, a televisão acabou com os diálogos nas salas de estar. A novela recebeu o privilégio da atenção e o papo ficou para o intervalo.

O automóvel já não havia nos usurpado o acesso às ruas? E o telefone celular?

Ah, o celular... Esse merece parágrafos e emoticons.

Ele já havia atingido o status de imprescindível - “Saio sem calcinha, mas não saio sem celu”

Mas smartphones e similares superaram qualquer tecnologia e tornaram-se tão poderosos quanto os brinquedinhos de C. Linux Maxwell.

Neste instante, em qualquer lugar do mundo civilizado em que você estiver, erga os olhos e dê uma espiadinha. Quantos à sua volta mantém os olhos vidrados em suas telinhas, seus dedos hábeis cutucando o minúsculo teclado?

A cena se repete pelos recônditos do planeta. Uma legião de corcundas se desconecta do próprio ambiente e mergulha num oceano de constante ansiedade.

Nessas águas, a vaidade e a necessidade de atenção se apresentam ainda mais turvas do que no mundo real.

Já não é importante viver o momento. É urgente registrar o momento. Esquecemos da vida para armazenar a imagem de recordações inexistentes, esquecemos do presente para preparar um histórico para uso futuro.



Felicidade Social

Antes da salada, foto e compartilhamento.

Antes do Taj Mahal, foto, compartilhamento, souvenires na barraquinha. Se der tempo a gente entra lá.

Declarações de amor? Beijo e sorriso, foto do sorriso e do beijo, compartilhamento, o mundo precisa saber de um amor perfeito.

Brigou com o amigo? Post com mágoa, indiretas, alfinetadas e negação futura. Não, juro que não era pra você.

Família visitando a vovó? Todos sentados na sala, olhos baixos, pequenos retângulos luminosos, risadas solitárias, teclas nervosas, fones de ouvido, já tá na hora de ir? Vovó tira um cochilo em frente à TV.

Jantar romântico? Brinde, beijo, foto, post. Mais umazinha pro Face, meu amor?

Encontrou o papa? Selfie, compartilhamento, pergunte se ele tem whatsapp. Se possível, peça para ele repetir a missa em 140 caracteres.




Nos Porões de Notre Dame

Os motivos de C. Linux Maxwell, especialista em prazer feminino, vão além do puro interesse comercial. Suas razões se mostram bem mais sinistras no decorrer da história (as razões aqui permanecerão secretas, é claro).

Mas a ocultação de secretas razões não nos impede de comparar tecnologias reais e fictícias.

Haste Giratória de Relaxamento ou o Chicote Balançante, doces invenções de Maxwell, levam à exacerbação dos prazeres solitários e ao consequente isolamento.

As tecnologias que são ofertadas em nossa pobre vida real conduzem-nos à anestesia de sentimentos e à ausência de contato com aquele que está mais próximo.

Tendo o olho no olho se tornado raro, a capacidade de empatia apresenta acelerado declínio. Um toque de celular, um bip, ringtones, uma musiquinha - esses alarmes interrompem qualquer beijo, DR, sonho ou pedido de aumento. Eles exigem atenção imediata.

Se ignorados, esses alertas sonoros e luminosos conhecem nosso sentimento de culpa. Vão insistir, dar piti, fazer beicinho e espernear até o fim da bateria.

Adestrados por essas chantagens e reprimendas eletrônicas, cedemos. Corremos para atender o aparelhinho que berra na sala ao lado e assumimos finalmente a supremacia das máquinas sobre as relações humanas. 

Nem é preciso vestir a pele de um ogro antitecnologia para perceber que acabamos por criar a sociedade planetária dos Quasímodos Cibernéticos. Já tem até grupo no Whats.


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- Até que esse papa argentino é gente boa.
- Você mandou ele te seguir no Instagram?
- Sim, mas esqueci de pedir a bênção.
- Foda-se a benção, olha aqui.  Nem acabamos o almoço e já temos cinco mil curtidas. 
- Vamos mitar, brother. Com o Chico, vamos mitar.





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