quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Passado em Sombras



Seguindo os destinos da sombra
nestas ruas sem saída, 
passado e homem se encontram
para refazer a vida 
 A alma, de malas prontas,
tem por nome Urgência:
“Se já acertaram as contas,
que tal tomar providências?”

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Valentim se despede de Deus

Picture by Richard Baxter

O lampião de gás estilhaça a janela.


O lúmen da desesperança fulgura na noite e expulsa os santos imaginários de Valentim.

Lampião.

Um palmo de amebas.

Em chamas.


Na grama.

No duro chão.

Valentim nem diz amém. Ergue-se e esfrega, esfrega, esfrega os joelhos. Grama rala. Pouca chuva nestas primeiras noites de verão.

Culpa de São Pedro?

Dos santos?

Que São.

Que sejam.


Essa foi a última vez de joelhos.

E de coceira.

Amém.

Que sejam assim.

Todos Vocês.



As pequenas mãos, antes crispadas no derradeiro fervor, entregam-se à inércia do entorpecimento.

Os gritos dos adultos, lá dentro da casa, cessaram.

Valentim mergulha no lago fundo de seu coração menino. Desimportante. É tão imenso o mundo.

Animais noturnos, seus sibilares e grunhidos, e coaxares, e aqueles sons deles mesmos.

Pior é o silêncio da mata. Valentim olha para o céu. Por entre os galhos da figueira centenária, estrelas acenam - são crianças, e querem nascer.

Nascer para quê?

Formigamentos na fronte – quanto tempo a fronte amparada pelo áspero do caule?

O vulto do irmão mais velho aparece na janela. Emoldurado pelos caixilhos, sem a vidraça que ele mesmo quebrara, o irmão assiste a ultima insignificância de luz, os restos do lampião que se findam no pátio de terra dura.

Valentim vê o irmão dar as costas à janela e reaparecer no estreito caminho de pedra na lateral da casa.

Uma fresta se abre no coração de Valentim. Por ali uma esperança débil ameaça se infiltrar. Nem todos ignoram a criança que havia se ajoelhado pela última vez.

O irmão vem, abaixa-se sobre os restos do lampião. Com cautela e dois gravetos, ergue o ainda ardente receptáculo de gás. O rosto duro acende-se por dois segundos.

No peito de Valentim, um ínfimo de calor familiar, a promessa de adulta proteção.


Braços como apêndices frouxos ao longo do corpo, Valentim espera.

O irmão larga gravetos e lampião. Ergue-se. Encara Valentim.

Então, num desprezo de movimentos, chuta o que restava da coisa incandescente. Uma risca de chamas crepita num átimo e definha, sem suspiro, lá junto à cerca de bambus.

Valentim vê o irmão mais velho voltar pelo caminho de pedra, vê o irmão desaparecer entre os umbrais da velha porta de madeira.

Em seguida vê a mãe perguntar, irônica e amarga:

- Pensou que dava pra consertar?

- Nada mais tem conserto – responde o irmão.

O mundo de Valentim volta a se reduzir a trevas íntimas. O
 último esguio lapso da esperança serpenteia entre entidades e cacos. As preces morrem nas sombras e os deuses definham um a um. Como o lampião, junto à cerca.

Sem deuses e lampiões, anoitece de vez nos estábulos vazios, anoitece nos mortos arrozais, também no córrego de águas serenas, também no caminho de pitangas, até no buraco do estômago.

E anoitece de vez no que restava das súplicas.

Nenhum mistério, ninguém mais a quem recorrer.

Gente e seus tantos santos para um único Deus.

E Deus não existe.

No negrume, Valentim. No negrume, Valentim, desilusão e alívio.

Ali, no lugar antes pertencente a Javé, a noite se fendeu. Para abrigar as contas de um rosário, os reinos do Pai Nosso, as graças da Virgem e a proteção dos anjos, enfia-se tudo ali, naquela fenda propícia da escuridão.

Na banda mais anoitecida daquelas trevas, exorciza-se o peso da esperança, rasgam-se evangelhos, quebram-se crucifixos e promessas.

Ali, na clareira sob a figueira, morrem aqueles enganos todos clamados por Valentim desde que o ensinaram a rezar.

Nunca mais missas de domingo, nunca mais proteções adultas, nunca mais medos compartilhados.

Porque agora, só no pequeno mundo, ele se bastará.

É só aguentar no osso do peito. Pernas embaixo, no alto uma cabeça - o bastante para caminhar.

Seis anos de idade, olhos lavados e livres, Valentim escolhe a solidão.




Um pouco mais sobre Deus:





domingo, 6 de outubro de 2013

Pequena Tragédia Punk


Terceiro científico,
Prova de OSPB
Eu tirei um cinco
E dediquei a você

O namorado de gravata
E sapato de verniz
Me agradeceu com classe
E um soco no nariz

Cresce cabelo moicano
Menina agora é mulher
Lá se vão mais de dez anos
E você me ainda quer

A história se repete
Mas agora ninguém vê
O marido com as flores
Eu na orquídea do buquê

O início do princípio
Intróito da introdução
Eu só senti o tiro
E aquele gosto de chão

Rua Estampido Seco
Bairro Praça da Sé
No escuro deste beco,
Jaz aqui mais um José

Em madeira de carvalho,
Revestida de veludo,
Descanso em meu armário
De coturno, chifre e tudo

Não tenho prece nem vela
Nem pranto de puxa-saco
Tenho é trinta amigos punks
Pra cuspir neste buraco

Entre caras de enfado
E fotos de Polaroid
Eis-me aqui emoldurado
Só curtindo meu I-pod


Homem Pássaro

- Homem é rascunho de pássaro – disse Manoel
 - Não terminaram de inventar.
Sendo ele o poeta
E sendo eu o vulgar
Pensei que estava certa
Aquela forma de pensar

O tempo passa, a gente muda
Aterrissa em outro lar
Se de Boeing, cogumelo,
Prosa de Carpinejar,
O vôo se ilustra em lótus
Nos céus de assim meditar

Ah, esses tolos se soubessem
Que o segredo é respirar,
Não fariam preces
Pro que está em outro lugar
Tadinhos daqueles pássaros,
Tantas asas pra voar!

Cotidianamente

É um jeito extravagante de fazer poesia
Abrir as páginas da rotina
Escrever o dia a dia

sábado, 5 de outubro de 2013

Que nada... É só o jeitinho dele.


(Releitura-da-obra-abaporu-de-tarsila
http://tribarte.blogspot.com.br)

"Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi or not tupi - that is the question."
Manifesto Antropofágico - Oswald de Andrade


Oswald havia nascido canibal e não podia confrontar a natureza. Devorar os pares é comum entre outras espécies (vide aracnídeos e gafanhotos), por que seria menos aceitável no homem?

Evitavam chamá-lo canibal. Na verdade, evitavam chamá-lo. Quando se referiam a Oswald, usavam o politicamente correto pessoa adepta de relação alimentar alternativa (daí a sigla PARAA – depois se acrescentou um “S” para simpatizantes).


Oswald preferia ser chamado de Oswald mesmo.

Numa semana lírica de 22, uma comissão formada por moradores dos bairros vizinhos dirigiu-se a Brasília com um abaixo-assinado.


Moralistas de carteirinha do movimento Tradição, Família, Propriedade e Porrada, seguidos por vegetarianos, pediam que canibalismo passasse a ser considerado crime.

Mas, o Jardim Andrade, lugar de nascimento de Oswald, não se calaria. Preconceito era uma coisa. Mas criminalizar o hábito ancestral significaria um golpe contra a cultura alimentícia primitiva.

No dia da votação, liderados por um tal Cavalcanti (também conhecido por Di), portando crânios, tíbias, destrinchadores e caldeirões de cozimento lento, o movimento canibalista marchou sobre o congresso.

Bandeiras com ossos cruzados de um lado, gritinhos de pavor do outro, as manifestações rivais invadiram as ruas da capital.

A tensão era permanente. A votação no parlamento seguia apertada.


Até que Macunaíma, porta-voz do Jardim Andrade, invadiu o plenário e leu o Manifesto Antropofágico.

Foi uma comoção generalizada. Nas galerias, apoiadores de Oswald entoavam suas palavras de ordem:

- Contra pensamentos enlatados!

- Contra as elites vegetais!

 A câmara acabou por reprovar a lei. O saudável hábito do canibalismo continuará a ser praticado livremente.

Para comemorar o sucesso, Oswald convidou o presidente da câmara para jantar.

O presidente entrou no número 22 da Rua Abaporu às oito da noite de terça-feira.


Até hoje não saiu.


"Eu vejo Flores em Você"

photo by Kate Powell
A cabeça se enche de flores, e os pés, de espinhos?
Ora, vá colher corações!
Caminhar dói um pouquinho,
 mas o perfume compensa.