domingo, 10 de agosto de 2014

A Bunda do Avestruz





 Retira, Deus, dessa gente
o destino de avestruz
A cabeça enterrada
e tantos traseiros nus

Além daquelas calçadas
deste quarto de hotel
entendo a mulher que pára,
sei por que olha pro céu

É porque assim parada,
ela vai enfim perceber
que se engole a madrugada,
que é doído amanhecer

O jeito é seguir em frente,
triste sina de avestruz
Ela, que nem tem dentes,
morde o cartão do SUS

Os filhos sonham com fadas,
o marido, com a amante
Ela não sonha nada,
por ter sonhado o bastante

Se vidros estilhaçam
e homens dizem amém
Debaixo de nossas ruínas
vai sobrar é ninguém

Que tal, caro avestruz,
meter o pé nessa gente?
 Mandá-los tomar nos cus,
nem votar pra presidente
















Sim, é possível viver de luz


O desinteresse dos cientistas


Bastará uma rápida busca na internet e você encontrará relatos de pessoas que afirmam viver de luz. Disseram adeus à lasanha e se alimentam de deliciosos raios solares.

Mas você, José, não acredita nessa balela, acredita?


Na verdade, nem é o caso de acreditar ou não acreditar. Trata-se de considerar qualquer possibilidade, sem preconceitos. Caso contrário, agiremos como aqueles que diziam ser impossível voar, que transmitir imagem e som era utopia, que a Terra era plana e o sol girava para nos aquecer.

Muitos daqueles incrédulos apresentavam dados científicos. Seus argumentos se construíam na pedra da lógica. (Ou a lógica daqueles tempos, pelo menos. Por que lógica é sempre a lógica de algum tempo.)


Hoje vivemos o que a ciência chama de Era da Incerteza. O raciocínio lógico - mesmo para os cientistas - já não tem a utilidade que costumava ter.

Resumir o homem à mera máquina pensante, e dar a essa máquina o monopólio da compreensão já não faz sentido. A razão é apenas umas das formas de perceber o mundo. Os cinco sentidos perderam a primazia do conhecimento.


Então, por que cargas d'água a comunidade científica não demonstra interesse na possibilidade de retirar nutrientes da luz, do ar, do prana, do aroma do café, do diabo a quatro, por mais improvável que lhes pareça?


Como pode, nestes tempos de incerteza e fome, que todos não se ocupem imediatamente em testar algo que mudaria o rumo da humanidade?  Ou será que mesmo a remota chance de comprovar a teoria afetaria interesses demais?


A perspectiva de ingestão gratuita de nutrientes certamente não interessaria à indústria alimentícia. Imagine o sopro de terror que percorreria os corredores dos supermercados, as mesas dos restaurantes, as gavetas da indústria do lixo, a nuca dos glutões e barriga de todos os satisfeitos com essa essa orgia de alimentos.


O conflito de interesses (Fome x Consumo) talvez explique o silêncio dos cientistas. O preconceito em relação ao novo ou o medo do ridículo também deve travar alguns.


Assim, se os cientistas se calam, eu, que não tenho rabo preso com o Pão de Açúcar, que luto contra meus próprios preconceitos e estou acostumado ao ridículo, ousarei provar o óbvio.


Não é questão de fé, de misticismos ou práticas esotéricas. Devidamente precavido das armadilhas da mente, usarei a linha puramente racionalista e o raciocínio lógico-científico, para afirmar que sim, que é possível viver de luz.


Não existe Matéria



Os físicos estão carecas de saber e divulgar que não existe matéria. Aquilo a que se chama matéria é apenas um aglomerado de elétrons, de cargas elétricas.


Os elétrons agrupam-se de determinada maneira para compor a árvore, organizam-se em outras combinações para formar a imagem de seu programa favorito na TV. Mas não existe um elétron de TV ou um elétron de árvore. O que existe é o elétron. Em todo lugar.


Assim como árvore e TV não são mais do que um amontoado de elétrons, também o são você, suas meias e o Cristo Redentor.  Tudo o que pode ser visto, ouvido, tocado, cheirado, bebido e comido compõe-se do mesmo tipo de partícula básica: o elétron.


(O elétron também já foi decomposto em três outras partículas: spinon, orbiton e o recém-descoberto férmion de Majorana. Essas três partículas ou quasi-partículas - como preferem os cientistas - também estão em todas as coisas.)


Conclusão: Matéria não existe. O que existe é energia. Não sou eu quem o diz, são os cientistas.

(Veja texto de Leonardo Boff a respeito: "Matéria não existe. Tudo é energia.")

É possível viver de luz


Ora, se elétrons compõem tudo o que existe, também assim são compostos o arroz, o feijão, o bife, o ar e a luz do sol.


Por que então refutar a ideia de que se possa absorver do sol e do ar os nutrientes igualmente presentes no arroz, no feijão e no bife?


Yogis atingem determinados estados de consciência e demonstram ser capazes de se manterem vivos e saudáveis absorvendo prana.

Os que se alimentam de luz dizem que é possível alcançar esse objetivo a partir de exposições controladas ao sol e adaptação gradual à falta de produtos sólidos e líquidos.

(Conheça alguns casos em É possível viver de luz.)


Talvez nem yogis nem os que vivem de luz saibam exatamente do que realmente se alimentam. Eu diria que se alimentam de tudo, porque em tudo está presente a energia que necessitamos.

Nós, humanos, (como já o sabiam as árvores) talvez sejamos capazes de organizar esse tudo e retirar dele apenas a essência. Aparentemente, alguns já descobriram como.

O homem de hoje não é mesmo homem das cavernas. Ele evoluiu ao adaptar-se às situações, ao aprender com a experiência dele e do outro, a raciocinar, a usar a intuição.

O tipo de alimento a que estamos habituados deve-se, quem sabe, a um apego ao primitivo. Apega-se a algo que um dia foi necessário (como um porrete, por exemplo), mas que não faria mais falta ao homem moderno, sofisticado, e de essência mais sutil.

É o homem bruto quem quer comer, e a comida embrutece o homem. O arrogante homo sapiens agarra-se às paredes da caverna ancestral. Ele ainda não sabe que não é mais necessário caçar.


Para satisfazer ou incomodar um pouco mais os racionalistas, reproduzo uma elucubração de meu irmão Gilberto de Oliveira:


“Quanto menos tangível uma coisa, mais essencial ela é. O homem somente consegue sobreviver alguns dias sem comida, algumas horas sem água, apenas alguns minutos sem ar.”

Pois não é, sábio Gilberto, que tua frase expressa melhor do que tudo que a precede? Está tudo ali, na tua frase, tão claro quanto o ar que nos alimenta.


*as ilustrações deste post são de imaginary foundation.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dois olhos de borboleta

Nasceram
duas borboletas
no lugar dos dois olhos
dela

A gente ficava ali,
e descalços sentava no chão
A gente meninava naquelas asas
de borboleta
A gente se tingia naquelas cores
de borboleta,
A gente caía naquelas vertigens
que oscilavam asas,
que cintilavam asas,
que hesitavam asas,
que contavam
um
dois
três
momentos pra nós

Pobre da gente que viu
dois olhos nascidos assim,
voantes flores,
flying flowers,
butterflies
Ai da gente que vive!
Porque viver é lembrar
aquelas asas todas
em sedas de borboletas
Porque viver é sonhar
terremotos





quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cinco Mil Solidões



A multidão vive aqui - subterrânea -
e acena por alguma janela torta
todinha adornada de hera
Escuto seus gritos
Sei dos sussurros e dos risos
e das cinco mil solidões
Em cada homem um desejo;
em cada mulher, um vício
Um quer asas, vai voar;
outro tem chão,
olhos amigos
e a antiquada mania de contemplar.
Um vai, o outro fica;
depois o primeiro volta pra buscar

domingo, 8 de junho de 2014

Estamos todos sós



(Tradução livre de Alone with everybody de Charles Bukowski)




carne cobre o osso
e eles colocam uma mente
Às vezes,
uma alma

As mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem demais
Ninguém se encontra,
ninguém encontra ninguém

Persistem,
ainda procuram,
rastejam pra dentro
e pra fora
de leitos
Carne cobre
o osso,
e a carne procura
por mais
do que carne

Não há chance,
em absoluto:
estamos todos presos
por um singular
destino
Ninguém nunca encontra
ninguém

As lixeiras da cidade se enchem
os ferros-velhos se enchem
os manicômios se enchem
os hospitais se enchem
os cemitérios se enchem

Nada mais
me enche


domingo, 1 de junho de 2014

Caraminguá




Larva noturna que se arrasta pelo bocejo das ruas, o investigador Vicente Vidal sorve a madrugada em terceira marcha.

Acenam discretos vagabundos, mendigos, alcaguetes, prostitutas de vários sexos, sobreviventes, errantes, vira-latas, ladrões perdoados e todos aqueles que se abrigam sob a gigantesca marquise da noite.

Os seios de Raquel, Debinha ou Dorothy ludibriam o cobertor de segredos que os protege do frio e iluminam as calçadas da Avenida Indianópolis.

O investigador para a poucos metros de Dorothy.

Debruçada na janela do Santana preto, ela trata de negócios.

- Se você quer de graça, meu lindo, vá fuder a mamãezinha.

Ajeita o vestido amarelo sobre a pele bronzeada e põe ponto final às tratativas.

O investigador espera o cliente se afastar. Depois aproxima o carro do meio-fio e abaixa o vidro. Sorri para Dorothy.

- Sua língua costumava ser mais gentil, meu anjo. Certas coisas não ficam bem nos lábios de uma diva.

- Todas as coisas ficam muito bem nos meus lábios, investigador.

Nessas jornadas, o investigador Vicente Vidal acostumou-se a cruzar com essas amotinadas rainhas noturnas. Hoje, a noite não traz apenas rainhas, mas um carrossel de lembranças. O pensamento em Caraminguá, que não é um lugar, é um homem e já foi menino.


~~~~~~~~~~~~~~~~~

O menino Caraminguá costumava se deitar sobre os trilhos do trem e sair somente no último segundo, quando o maquinista já rezava na certeza do inevitável.

Escondia-se em trens de carga e voltava no dia seguinte, na companhia do maquinista ou da polícia.

- O senhor precisa controlar seu filho – dizia o policial.

O pai, viúvo, dava um beijo na cabeça de Caraminguá.

- Eu tento, mas como é que se agarra um passarinho?

- O senhor corre o risco de perder a guarda dele.

- Seu policial, eu faço tudo por esse menino. Eu seria capaz de matar por ele.

- Morrer é pior que matar, né? – intrometeu-se Caraminguá – Então matar nem é tanto assim.

Despediu-se do policial e foi dormir.

Uma vez retornou de improvisada viagem de trem duas semanas depois, a pé, pelo mesmo caminho dos trilhos, saltando os dormentes de dois em dois, como se tivesse ido ali recuperar uma pipa.

Perguntado a respeito da medalha em forma de sol que então trazia no peito, Caraminguá beijou a joia de prata.

- Resultado de dez minutos de paixão.

- Então deve valer é nada – avaliou o investigador menino.



O investigador – quando ainda não era investigador, e tinha 15 anos - impôs-se líder da recém-criada TVV (Tribo Vicente Vidal).

A liderança decorria não apenas de algumas raras demonstrações de audácia. A diferença de idade também o favorecia. Era o mais velho entre os filhos dos moradores daquele misto de subúrbio e campo, lugar onde nascera.

Munido desses atributos, costumava impor aos amigos um teste de iniciação. Para ser aceito no tribo, seria preciso saltar da ponte ferroviária, direto no rio lamacento dez metros abaixo.

Muitos eram os que prometiam, poucos os que se atreviam, raros os que conquistavam o status de membro da TVV.

Mas, nas periferias da tribo, entre os não-iniciados, começavam a ser narradas as aventuras de Caraminguá.


Aos poucos, Caraminguá tornava-se herói entre os excluídos, os reprovados e os cagões. Não demorou para os comentários começarem a brotar no coração do quartel general da TVV.

- Dizem que eles tão fazendo uma tribo também. Se juntam todo dia pra beijar os pés do Caraminguá.

O futuro investigador cuspiu no chão

- Outra tribo? Aqui?

E saiu a passos largos. Todos souberam que ele se dirigia à casa de Caraminguá.

Que chamassem o futuro investigador de audacioso, mas quem podia presumir aquela súbita veia estadista que se revelou naquele encontro?

- Não quer ser da minha tribo, moleque?

Caraminguá abria o portão de casa. Antes de entrar, parou.

- Pra quê? – perguntou, sem se voltar para Vicente.

- Pra quê? - repetiu o líder do TVV - Pra quê?!

Caraminguá entrou no pequeno jardim e fechou o portão de madeira que lhe ia à altura dos olhos. Pela primeira vez, fitou o desafiante:

- Me dá um motivo. Entrar pra tribo pra ver quem mija mais longe, quem arrota mais alto, quem matou mais passarinho?

O portão de madeira entre eles afiava o silêncio. Os meninos se encaravam. De longe, os membros da TVV observavam.

Vicente finalmente voltou à carga:

- Você tá é se cagando de medo do grande desafio.

- Qual? Rodar bambolê?

- Encontra com a gente na hora do trem das seis e a gente vai ver. Se o trem passar e você não der as caras, bom... Você sabe o que o pessoal vai dizer.

Caraminguá deu às costas ao desafiante, caminhou quatro passos, subiu dois degraus e abriu a porta de casa.

Antes de fechá-la, voltou-se para o chefe da TVV.

Vinte centímetros acima do portão, dois olhos de indignação e curiosidade o observavam.

Caraminguá piscou um só.

- Quem sabe? – disse.

Entrou e fechou a porta.


~~~~~~~~~~~~~~

Trem da tarde atrasado, os meninos sentaram-se nos trilhos da ferrovia. Ali, ao lado da placa que marcava o lugar de encontro - ponte a 600m - a pouco mais de dois quilômetros da estação, a pergunta era uma só.

- O Caraminguá não vem?

- Ele disse que vinha.

- Ele disse que podia ser que vinha.

- Bateu o medo, claro. O moleque tem doze, porra.

- O Junim tem quatorze e nunca pulou.

- Ele vem.

- Já não dá mais tempo.

- Ó lá. O Trem.

O futuro investigador, líder supremo da TVV, ergueu-se e acendeu o cigarro que havia comprado para a ocasião.

- Eu sabia – assoprou a fumaça – Aquelas historinhas do Caraminguá? Tudo caô.

O trem apontou na curva e no fim da tarde. Os meninos, sem pressa, calma acintosa para ignorar o apito, deixaram os trilhos.

O trem chegava à ponte, reduzia a velocidade para parar na estação.

Junim, aquele mesmo que nunca enfrentaria o grande desafio, foi a primeira testemunha.

- Olha ele lá!

- Quem?

Contra o céu vermelho, em cima do trem, acabava de se destacar a silhueta de um menino.

- O Caraminguá.

Caraminguá, duas pernas firmes sobre a máquina fumegante, agitou os braços.

Em alguns segundos a lotação do trem aumentou. Acostumados às aberturas, barras e reentrâncias dos vagões vazios, dezesseis meninos agarraram-se àqueles lugares todos feitos para agarrar.

Caraminguá, nas entre-falhas adolescentes da mudança de voz, lá do alto anunciou:

- Vai ter tibum.

As vozes se ergueram das laterais do trem:

- Ele vai pular!

- Pula! Pula!

Caraminguá dobrou os joelhos, balançou os braços. Saltou.

Um arco cruzou o rubro do céu. Os meninos esticaram os pescoços a tempo de ver Caraminguá desenvolver uma pirueta, alinhar novamente o corpo e, poucos metros depois, desaparecer no negrume do rio.

Todos, menos um, começaram a acompanhar o ritmo das rodas sobre os trilhos.

- Ca-ra-min-guá, Ca-ra-min-guá, Ca-ra-min-guá.

Os meninos saltaram do trem que, devagar, já se afastava da ponte.

Correram de volta ao rio a tempo de ver Caraminguá emergir como líder supremo da tribo dos reprovados, dos excluídos e dos cagões. Surgia uma lenda.


~~~~~~~~~~~~


Caraminguá era o que subia na árvore mais alta, o que dormia mais tarde, o que fisgava os maiores peixes do rio.

Era péssimo em futebol, então assumira a posição de técnico do time.

- Não preciso da sua colher de chá – resmungou o futuro e resignado investigador ao ser mantido entre os titulares - Eu sei que não mereço nem lugar no banco.

Não merecia mesmo.

Àquela época, Caraminguá tinha apenas doze anos, mas foi o primeiro a comer a Soninha.

- Feia pra caralho – ponderou o investigador, que aos quinze só tinha tentado beijar a Soninha.

Mas a resignação de alguém com vocação para homem da lei não resistiria a duas estações.

- Vou pular da cachoeira – anunciou Vicente.

A notícia se espalhou.

O ex-líder do TVV, prometia uma proeza nunca antes realizada.

Meia-hora depois, cerca de trinta crianças e adolescentes acompanhavam os passos largos do futuro investigador pelo estreito caminho de terra à margem do rio.

Em vinte minutos chegaram ao alto da grande pedra. O som ininterrupto da água sobre as rochas lá embaixo quase abafava a voz dos meninos.

- Você vai fazer uma besteira – Caraminguá advertiu.

- Quer pular comigo?

- Não, obrigado.

- Eu já imaginava.

O futuro investigador sentou-se na borda da pedra grande para permitir que os pés alcançassem a pedra menor logo abaixo. Dali, uma escada natural o levou ao centro da cachoeira.

Em pé sobre o bloco ovalado, Vicente Vidal voltou-se para os meninos e encontrou olhos de admiração.

Silêncio se fez. Apenas o rufar das águas e do coração. No alto da cachoeira, o mais valente daqueles ermos estava prestes a realizar a maior das façanhas.

O corpo magro curvou-se, pernas dobraram-se, braços moveram-se para trás, pulmões encheram-se de ar.

O futuro investigador Vicente Vidal analisou por dois segundos as águas que se agitavam na expectativa da ousadia maior. E não mais esperou.

Do topo da pedra grande, uma tensão palpável acompanhou o pequeno voo, a elipse, a linha reta e vertical para o rio, o choque líquido, os círculos concêntricos que se formaram depois do mergulho.

Sem pressa, os círculos se desfizeram, a superfície da água se abrandou.

O cascatear das águas, a queda de um grande silêncio.

A tensão se desfez em palmas e gritos quando, entre espumas, uma cabeça emergiu.

- Do carai!


- O cara é foda mesmo.

Muitos se voltaram para Caraminguá.

- Será que alguém mais vai nessa?

Caraminguá nem respondeu. Começou a descer a escada natural em direção à Pedra do Ovo.

- Eu sabia. O Caraminguá não vai deixar barato.

- Cala a boca – gritou Caraminguá - Ele não tá se mexendo, caralho. Eu vou ter que saltar.

Então, em poucos segundos a platéia assistiu à segunda e inesperada performance.

Porque lá estava Caraminguá, na Pedra do Ovo, no alto da cachoeira. Lá estava Caraminguá, em meio ao salto, rumo ao negrume das águas.

E lá estava Caraminguá, já depois do salto: um braço em torno do futuro investigador, o outro remando para a margem.

Muitos pais já aguardavam quando os dois meninos saíram do rio, o menor apoiando o maior.

- Ele desmaiou quando bateu na água – Caraminguá explicou ao entregar o trêmulo amigo aos braços da mãe.

Ela o agasalhou com uma toalha e uma saraivada de imprecações.

O ex-líder do TVV voltou para casa um pouco mais ex.


Apesar dos fracassos públicos, o futuro investigador tornara-se companhia frequente de Caraminguá.

Ninguém sabe como ocorreu, mas o fato é que, aos poucos, tornaram-se amigos.

Muitas vezes, quando todos os meninos deixavam a ferrovia depois da passagem do trem, os dois permaneciam por uma ou duas horas planejando um futuro de ilusões.

- Eu vou viajar, Caraminguá. Na marinha a gente conhece o mundo, dorme uma noite aqui e outra lá. A gente come uma francesa num dia e uma sueca no outro.

- Mar é bonito mas não tem estrada. Eu vou sair por aí, eu vou conhecer pessoas, eu vou falar oito línguas, eu vou meter o pé na jaca.

Era assunto só deles. Não compartilhavam.

Foram os primeiros a fumar maconha.

- Dá uma preguiça.

- Da porra.

E os primeiros a parar.

Naquela noite, atrasaram-se. Apenas perceberam o atraso quando o trem das dez apontou na curva e o apito lacerou a noite daqueles ermos.

Ergueram-se com a calma tradicional. Caraminguá foi o primeiro a sair, deu três passos, voltou-se.

- Vamos, cara.

O apito do trem abafou a voz.

O futuro investigador gesticulou. Nos olhos, desespero. O trem resfolegava na curva e trazia os maus presságios da noite.

Caraminguá correu.

- Meu pé não sai - choramingou o futuro investigador.

- Tira o tênis.

- Não sai.

Caraminguá correu e abaixou-se para descalçar o amigo.

O trem aproximava-se.

- Dobra a perna que sai – gritou Caraminguá.

- Não dá – chorou o futuro investigador – Não dá, não dá...

O maquinista fez o sinal da cruz.

Caraminguá desferiu um chute na parte posterior do joelho do amigo. O futuro investigador dobrou as pernas e Caraminguá o puxou de dentro do tênis e dos braços da morte.

Dez minutos depois o renascido ainda soluçava.

- Ninguém vai saber – Caraminguá prometeu.

Não bastasse o fracasso público, agora a humilhação privada.


Muitos anos depois, Júlia, a irmã de Vicente, atestaria, saudosa:

- Aos 13, o Caraminguá já era um homem. Por onde será que ele anda?

Aos 15, durante dois meses abandonou Júlia, pai, amigos e escola. Conheceu São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Uruguai. Voltou a tempo de convencer os professores a perdoar-lhe as ausências. Foi aprovado com as notas medíocres de sempre.

Na mesma idade conheceu os livros, errou pelas páginas de Kerouak, Ginsberg e Burroughs. Soube que um dia iria percorrer a Rota 66.

O investigador, que à época tinha 18, tirou notas máximas nos exames de aptidão da Marinha. Foi reprovado ao enjoar no mar.


~~~~~~~~~~~~~~~~

Voltariam a se encontrar muitos anos depois. Caraminguá entrou na delegacia algemado depois de uma briga de bar.

- Este filho da puta disse que ia abrir a garrafa de cerveja no meu cu – testemunhou o oficial que o trazia.

Caraminguá reconheceu o já investigador, aos vinte e cinco anos, olhar perdido em frente a uma máquina de datilografia e uma pilha de documentos.

- Sinto muito, irmãozinho – desculpou-se Caraminguá -, mas você já não tem salvação.

~~~~~~~~~~~~~~~~~

- Cuide-se, menina – diz o investigador Vicente Vidal a Dorothy que se esmera em graças e passos curtos em direção a novo cliente.

O investigador aciona o limpador de pára-brisa.

A neblina se adensa.

Na foto no painel do carro, a irmã Júlia faz caretas.

Ao fundo, Caraminguá, uma estrada e uma mochila às costas, mostra o dedo médio para a câmara.