domingo, 10 de agosto de 2014

Poemofobia


mayonaka-kyoku
- Pra que serve a poesia?
pergunta toda essa gente -
- Se a coisa não tem serventia,
a vida não vai pra frente

- Pois que vá a vida pra trás,
lá no fim a gente acerta
Porque vida sem poesia
é como cama sem coberta

- Melhor cama sem coberta
do que coberta sem cama
Ou será que o poeta
prefere dormir na grama?

- Que seja o céu meu telhado
e a grama o meu leito
Você, deitada ao lado,
repousará no meu peito

- A me deitar com poetas
prefiro dormir em pé
Muito pior se o poeta
for chamado José

- Posso não ser um Carlos,
Joaquim, Ferreira, João
Mas saiba que sou aquele
pobre José, de Drummond

A Bunda do Avestruz





 Retira, Deus, dessa gente
o destino de avestruz
A cabeça enterrada
e tantos traseiros nus

Além daquelas calçadas
deste quarto de hotel
entendo a mulher que pára,
sei por que olha pro céu

É porque assim parada,
ela vai enfim perceber
que se engole a madrugada,
que é doído amanhecer

O jeito é seguir em frente,
triste sina de avestruz
Ela, que nem tem dentes,
morde o cartão do SUS

Os filhos sonham com fadas,
o marido, com a amante
Ela não sonha nada,
por ter sonhado o bastante

Se vidros estilhaçam
e homens dizem amém
Debaixo de nossas ruínas
vai sobrar é ninguém

Que tal, caro avestruz,
meter o pé nessa gente?
 Mandá-los tomar nos cus,
nem votar pra presidente
















Sim, é possível viver de luz


O desinteresse dos cientistas


Bastará uma rápida busca na internet e você encontrará relatos de pessoas que afirmam viver de luz. Disseram adeus à lasanha e se alimentam de deliciosos raios solares.

Mas você, José, não acredita nessa balela, acredita?


Na verdade, nem é o caso de acreditar ou não acreditar. Trata-se de considerar qualquer possibilidade, sem preconceitos. Caso contrário, agiremos como aqueles que diziam ser impossível voar, que transmitir imagem e som era utopia, que a Terra era plana e o sol girava para nos aquecer.

Muitos daqueles incrédulos apresentavam dados científicos. Seus argumentos se construíam na pedra da lógica. (Ou a lógica daqueles tempos, pelo menos. Por que lógica é sempre a lógica de algum tempo.)


Hoje vivemos o que a ciência chama de Era da Incerteza. O raciocínio lógico - mesmo para os cientistas - já não tem a utilidade que costumava ter.

Resumir o homem à mera máquina pensante, e dar a essa máquina o monopólio da compreensão já não faz sentido. A razão é apenas umas das formas de perceber o mundo. Os cinco sentidos perderam a primazia do conhecimento.


Então, por que cargas d'água a comunidade científica não demonstra interesse na possibilidade de retirar nutrientes da luz, do ar, do prana, do aroma do café, do diabo a quatro, por mais improvável que lhes pareça?


Como pode, nestes tempos de incerteza e fome, que todos não se ocupem imediatamente em testar algo que mudaria o rumo da humanidade?  Ou será que mesmo a remota chance de comprovar a teoria afetaria interesses demais?


A perspectiva de ingestão gratuita de nutrientes certamente não interessaria à indústria alimentícia. Imagine o sopro de terror que percorreria os corredores dos supermercados, as mesas dos restaurantes, as gavetas da indústria do lixo, a nuca dos glutões e barriga de todos os satisfeitos com essa essa orgia de alimentos.


O conflito de interesses (Fome x Consumo) talvez explique o silêncio dos cientistas. O preconceito em relação ao novo ou o medo do ridículo também deve travar alguns.


Assim, se os cientistas se calam, eu, que não tenho rabo preso com o Pão de Açúcar, que luto contra meus próprios preconceitos e estou acostumado ao ridículo, ousarei provar o óbvio.


Não é questão de fé, de misticismos ou práticas esotéricas. Devidamente precavido das armadilhas da mente, usarei a linha puramente racionalista e o raciocínio lógico-científico, para afirmar que sim, que é possível viver de luz.


Não existe Matéria



Os físicos estão carecas de saber e divulgar que não existe matéria. Aquilo a que se chama matéria é apenas um aglomerado de elétrons, de cargas elétricas.


Os elétrons agrupam-se de determinada maneira para compor a árvore, organizam-se em outras combinações para formar a imagem de seu programa favorito na TV. Mas não existe um elétron de TV ou um elétron de árvore. O que existe é o elétron. Em todo lugar.


Assim como árvore e TV não são mais do que um amontoado de elétrons, também o são você, suas meias e o Cristo Redentor.  Tudo o que pode ser visto, ouvido, tocado, cheirado, bebido e comido compõe-se do mesmo tipo de partícula básica: o elétron.


(O elétron também já foi decomposto em três outras partículas: spinon, orbiton e o recém-descoberto férmion de Majorana. Essas três partículas ou quasi-partículas - como preferem os cientistas - também estão em todas as coisas.)


Conclusão: Matéria não existe. O que existe é energia. Não sou eu quem o diz, são os cientistas.

(Veja texto de Leonardo Boff a respeito: "Matéria não existe. Tudo é energia.")

É possível viver de luz


Ora, se elétrons compõem tudo o que existe, também assim são compostos o arroz, o feijão, o bife, o ar e a luz do sol.


Por que então refutar a ideia de que se possa absorver do sol e do ar os nutrientes igualmente presentes no arroz, no feijão e no bife?


Yogis atingem determinados estados de consciência e demonstram ser capazes de se manterem vivos e saudáveis absorvendo prana.

Os que se alimentam de luz dizem que é possível alcançar esse objetivo a partir de exposições controladas ao sol e adaptação gradual à falta de produtos sólidos e líquidos.

(Conheça alguns casos em É possível viver de luz.)


Talvez nem yogis nem os que vivem de luz saibam exatamente do que realmente se alimentam. Eu diria que se alimentam de tudo, porque em tudo está presente a energia que necessitamos.

Nós, humanos, (como já o sabiam as árvores) talvez sejamos capazes de organizar esse tudo e retirar dele apenas a essência. Aparentemente, alguns já descobriram como.

O homem de hoje não é mesmo homem das cavernas. Ele evoluiu ao adaptar-se às situações, ao aprender com a experiência dele e do outro, a raciocinar, a usar a intuição.

O tipo de alimento a que estamos habituados deve-se, quem sabe, a um apego ao primitivo. Apega-se a algo que um dia foi necessário (como um porrete, por exemplo), mas que não faria mais falta ao homem moderno, sofisticado, e de essência mais sutil.

É o homem bruto quem quer comer, e a comida embrutece o homem. O arrogante homo sapiens agarra-se às paredes da caverna ancestral. Ele ainda não sabe que não é mais necessário caçar.


Para satisfazer ou incomodar um pouco mais os racionalistas, reproduzo uma elucubração de meu irmão Gilberto de Oliveira:


“Quanto menos tangível uma coisa, mais essencial ela é. O homem somente consegue sobreviver alguns dias sem comida, algumas horas sem água, apenas alguns minutos sem ar.”

Pois não é, sábio Gilberto, que tua frase expressa melhor do que tudo que a precede? Está tudo ali, na tua frase, tão claro quanto o ar que nos alimenta.


*as ilustrações deste post são de imaginary foundation.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dois olhos de borboleta

Nasceram
duas borboletas
no lugar dos dois olhos
dela

A gente ficava ali,
e descalços sentava no chão
A gente meninava naquelas asas
de borboleta
A gente se tingia naquelas cores
de borboleta,
A gente caía naquelas vertigens
que oscilavam asas,
que cintilavam asas,
que hesitavam asas,
que contavam
um
dois
três
momentos pra nós

Pobre da gente que viu
dois olhos nascidos assim,
voantes flores,
flying flowers,
butterflies
Ai da gente que vive!
Porque viver é lembrar
aquelas asas todas
em sedas de borboletas
Porque viver é sonhar
terremotos